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Participação do jovem na política precisa de incentivo

Promenino Fundação Telefônica

7 anos atrás

25 de outubro de 2006
sob a coordenação da
Agência de Notícias dos Direitos da Infância
*

Apesar de, muitas vezes, ser mencionado como alvo prioritário das plataformas administrativas de candidatos por todo o Brasil, o jovem brasileiro ainda participa pouco da vida política. Seja como eleitor ou como agente, a participação política juvenil ainda esbarra na carência de ações de conscientização para a cidadania e na descrença nas instituições governamentais. Mesmo com esse panorama, especialistas mantêm o otimismo e apostam no binômio educação formal e despertar da cidadania como chave para reversão da aparente apatia política.

Porém, essa população tem poder decisivo numa eleição. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou os dados mais recentes sobre o eleitorado jovem. Dos 6,8 milhões de brasileiros com idade entre 16 e 17 anos, 45,2% estão aptos a votar neste ano. Em 2002, essa parcela correspondia a apenas 30,8%, ou 2,2 milhões de votantes nessa faixa etária. Hoje eles representam 2,45% do total de 125,9 milhões de eleitores no Brasil. Os números da Justiça Eleitoral mostram ainda um aumento de 39% no número de eleitores menores de 18 anos desde as últimas eleições presidenciais.

"Mesmo com toda essa representatividade nas mãos, muitos jovens não acreditam que aqueles poucos instantes em frente à urna podem mudar decisivamente o nosso futuro", observa a estudante Daiana Oliveira, que cursa o terceiro ano do Ensino Médio no Colégio Estadual Figueiredo Corrêa, em Fortaleza (CE). Ciente de seu papel como cidadã, ela conta que providenciou seu título logo ao completar os 16 anos e não abre mão do direito de votar.


Conscientização

As instituições de ensino têm papel imprescindível na formação da consciência política das crianças e dos adolescentes. Mais do que oferecer os conhecimentos sobre a realidade do País - sua História, seus problemas e suas potencialidades -, as escolas devem tomar para si também a missão de incentivar a participação política. A análise é do coordenador da ONG Comunicação e Cultura, Daniel Raviolo.

Sua avaliação encontra respaldo em uma experiência que vem dando resultados positivos e, no futuro, pode ganhar dimensão nacional. Trata-se do projeto "Eleitor do Futuro", desenvolvido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Ceará, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e movimentos sociais do Estado. O objetivo é oferecer, gratuitamente, um curso de capacitação à distância para 14 mil professores e jovens monitores, abordando temas como ética na política, direitos e deveres do cidadão e funcionamento do Estado. Uma vez capacitados, esses monitores passam a multiplicar as informações junto aos jovens de diversas cidades, aumentando o potencial de conscientização acerca da participação política. No Ceará, o projeto conta com a participação da Comunicação e Cultura e do Colégio e Faculdade 7 de Setembro.

"Mesmo com toda a representatividade nas mãos, muitos jovens não acreditam que aqueles poucos instantes em frente à urna podem mudar decisivamente o nosso futuro"
Raviolo acrescenta que a previsão inicial era capacitar 10 mil pessoas, mas, com a procura, criaram-se quatro mil novas vagas. "De posse do embasamento teórico e formação adequada, esses multiplicadores poderão esclarecer as principais dúvidas que os jovens têm em relação à política".

Participante do projeto, a estudante Tágiva Maciel, de 17 anos, residente em Maracanaú, cidade da Região Metropolitana de Fortaleza, afirma estar mais atenta para tudo o que envolve a campanha eleitoral. "Desde o começo do horário de propaganda política, acompanho os programas para conhecer as propostas dos candidatos e votar com mais segurança", relata. "Estou confiante porque tenho consciência de que votei com base em propostas". A estudante só lamenta a falta de postura semelhante entre colegas e vizinhos. Para ela, tratar o direito sem a devida responsabilidade é tão, ou ainda mais sério, que não participar. "Muita gente não quer nem saber de votar, e ainda têm aqueles que escolhem o candidato até de brincadeira", indigna-se.

Membro do Instituto Pólis e coordenadora do estudo " Juventude Brasileira e Democracia: participação, esfera e políticas públicas ", Ana Luísa Souto, confirma que o potencial de participação juvenil ainda não é "plenamente aproveitado". A pesquisa, realizada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), em parceria com o Instituto Pólis, entre julho de 2004 e novembro de 2005, ouviu oito mil jovens de 15 a 24 anos em sete regiões metropolitanas (Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), além do Distrito Federal. O resultado das entrevistas confirmou que os jovens se interessam por política, mas que ainda participam pouco desse processo. Além da pesquisa, o Ibase e o Pólis realizaram Grupos de Diálogo com 913 jovens, entre março e maio de 2005, e acabaram verificando que a maioria dos jovens (64%) não acredita que os políticos representem os interesses da população.

De acordo com Ana Luisa, o maior desafio está em transformar o engajamento jovem em prática perene. "Identificamos que um em cada três jovens participa de algum tipo de grupo, seja cultural, esportivo ou religioso. E, mesmo que o foco inicial do grupo não seja político, a experiência de discutir e conviver em coletividade estimula o jovem a pertencer, quando mais velho, a esferas públicas tradicionais", explica.

Segundo especialista, o maior desafio está em transformar o engajamento jovem em prática perene
O perfil das queixas e expectativas dos jovens com relação ao poder público não se diferencia do restante da população. Segundo a pesquisa, questões relativas à violência, segurança e criminalidade aparecem na primeira ou segunda colocação como maiores preocupações em todas as regiões pesquisadas.

A pesquisadora do Instituto ressalta que o temor relacionado à violência se baseia nas altas estatísticas de mortes de jovens, sobretudo do sexo masculino. Recentemente, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil atualizou o mapa da violência entre jovens no País. A exemplo das edições anteriores, os dados apontam os homicídios, especialmente os praticados com armas de fogo, como principal causa de mortes de jovens no Brasil. O estudo também revela o processo de interiorização das mortes violentas de jovens, ou seja, o aumento das taxas de homicídios na faixa etária de 15 a 24 anos em cidades do interior.

Ao considerar que a informação pode ser uma arma nas mãos desses novos eleitores, a ONG "Olho no Voto", formada por jovens, compilou e disponibilizou em seu site dados referentes aos candidatos para cargos eletivos, como currículos e programas de governo, além de expor ações por eles realizadas. Na avaliação do presidente da ONG, Cláudio Cinelli, "iniciativas como essa preparam melhor o eleitor jovem para o período eleitoral". Para ele, informações como essas podem agilizar a retomada de credibilidade nas instâncias políticas tradicionais a partir de uma efetiva fiscalização. "Se o eleitor está informado sobre as ações dos políticos, vai acabar elegendo representantes melhores, preocupados em ter mandatos mais eficazes e transparentes. Um verdadeiro círculo virtuoso, de revalorização das atividades políticas", prevê.

Outras iniciativas de disponibilização de informações sobre os candidatos podem também ser encontradas nos sites do Transparência Brasil e do Voto Consciente. 

* Jornalistas Amigos da Criança é um projeto da ANDI
Autora do texto: Marlyana Lima, editora do jornal Diário do Nordeste (CE), é Jornalista Amiga da Criança desde 1999

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