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Construindo uma cultura da ética para as infâncias

Adriana Friedmann Adriana Friedmann

4 meses atrás


Crédito: Shuttertock/Oksana Shufrych

Inúmeros segmentos da sociedade civil vêm lançando luz sobre a área da infância e das crianças. Pais, mães e famílias; psicólogos, educadores e gestores; políticos, profissionais da área da saúde, economistas, empresários e investidores; advogados e arquitetos; gestores culturais, artistas, músicos, profissionais do terceiro setor, de mídia & marketing; produtores culturais nas áreas do cinema, teatro, fotografia, música, literatura infantil e outros espaços lúdicos; estudos, pesquisas e publicações sobre crianças; prêmios, editais, concursos. Enfim, uma lista imensa de atores e segmentos sociais que, a partir de estudos, publicidade, interesses específicos e toda a informação e conhecimento disponíveis, têm colocado o tema da infância e das crianças como prioridade, bandeira e até modismo.

Citemos alguns dos variados aspectos e objetos de interesse que pautam tais agendas: qualidade de vida, a importância de espaços livres e junto à natureza, consumismo e propaganda imprópria, hiperestimulação, pressão escolar precoce, agendas sobrecarregadas, hipnotismo e horas em frente a telinhas de todo tipo, terceirização do cuidado, falta de referências quanto à educação e falta de segurança em inúmeros contextos e situações; alimentação e doenças que afetam gerações contemporâneas; reflexão e busca de um equilíbrio entre o tempo livre e o tempo direcionado na vida das crianças.

Seguem ainda a participação, escuta e observação de crianças em diversos fóruns, o discurso da importância do brincar, das artes e do movimento – nem sempre coincidindo com o que acontece nos cotidianos reais. A exposição de crianças em programas de TV, o trabalho infantil, a violência doméstica, escolar e urbana; as singularidades das crianças e grupos infantis – questões que dizem respeito à inclusão, imigração, doutrinação religiosa, crianças com diversas síndromes ou necessidades especiais etc. Uma relação de temas, realidades e polêmicas que não se esgotam por aqui.

Projetos e programas oficiais, nacionais ou regionais têm sido oferecidos nos mais diversos espaços, ambientes e organizações, assim como uma ampla rede de mobilização e campanhas defendendo direitos na área da infância ganham destaque nas mídias. O foco e os investimentos de esforços e recursos no aprimoramento e adequação de propostas educacionais para as crianças nos séculos XX e XXI, tanto em instituições escolares, espaços públicos e comunitários, quanto a partir de iniciativas não formais, são a tônica neste panorama das infâncias no Brasil e no mundo.

Da mesma forma que há propostas sérias, conscientes e comprometidas, os modismos se instauram e povoam redes sociais, discursos e, muitas vezes, viram ‘oportunidade de negócios’, interesse ou promoção de determinados grupos sociais.

Infelizmente constata-se que – em uma sociedade em que raízes e história são facilmente descartáveis, esquecidas, ‘líquidas’ – tempo, recursos humanos, ideias criativas e adequadas, que dizem respeito à vida das crianças, têm tido vida curta. E quem mais é afetado, afinal, senão as crianças, suas famílias e as comunidades em que vivem, crescem e se desenvolvem?

Neste panorama, uma das questões que mais preocupam é, justamente, o ‘uso’ feito deste segmento da população – as crianças – por parte de inúmeros atores sociais, sem levar em consideração que uma ética, no que diz respeito ao tratamento e às ações voltadas para suas vidas, é questão premente a ser refletida, cuidada, construída e colocada em prática onde quer que elas existam.


Crédito: Pedro Ribeiro l Flickr/Creative Commons

Esta discussão – que encontra suas bases na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)[1]; e, sobretudo a partir da violação dos direitos básicos das crianças, em situações cotidianas de violência contra elas - precisa ser olhada e debatida por toda a sociedade, como condição essencial em prol do respeito primordial a toda e qualquer criança, independentemente de raça, cor, religião, condição física, psíquica ou condição social.

Veicular imagens, eventos, depoimentos, falas de crianças ou sobre elas tornou-se tão corriqueiro no cotidiano de todos os cidadãos, que perdeu-se o bom senso e a ética, no que se refere à privacidade e ao respeito pelas vidas infantis. As redes sociais são as que, de longe, lideram esta exposição; seguidas pela mídia, o mercado e o marketing. Até mesmo instituições que têm as crianças como foco do seu trabalho expõem imagens e falas sem considera-las.

A área das Ciências Sociais vem, por meio dos estudos da Sociologia e da Antropologia da Infância, apontar algumas destas questões e construir conceitos que iluminam a importância de se ouvir e observar as crianças a partir da compreensão de que este grupo social tem linguagens e culturas próprias; que são atores sociais e autores das suas próprias vidas; que nós, adultos, pouco conhecemos ou ignoramos. Segmento este que, no atual e complexo panorama universal, abriga uma diversidade infindável de grupos infantis.

A partir do momento em que começa-se a ter consciência da importância de  escutar e observar crianças nos seus contextos e territórios cotidianos espontâneos, sem a interferência dos adultos, instaura-se o desafio de uma mudança de postura ética e metodológica: não mais partir das verdades ‘universalmente instauradas’ pelo mundo adulto à respeito das crianças; mas considerar e aprender a escutar e a decifrar o que as crianças vivem, sentem e pensam, a partir das suas próprias vozes.

Estamos aqui falando de respeitar os tempos das crianças, seus ritmos, preferências, medos, frustrações, escolhas. Estamos falando em ‘pedir licença’ para as crianças para adentrar seus universos: seus espaços, seus brincares, suas produções, suas emoções. Estamos falando de parar de avaliar, classificar, criticar ou tentar ‘modelar’ crianças conforme nossos padrões adultocêntricos (que podem variar de um contexto a outro) e começar a conhecer seus universos particulares. Estamos falando de acolher as crianças nas suas dores, feridas, conquistas, descobertas, produções e criatividades. Estamos também falando em não tomar decisões unilaterais por elas ou para elas acreditando que as crianças não têm a capacidade de ‘opinar’ sobre suas próprias vidas. Estamos falando em levar em conta suas vozes, incômodos, vontades, limitações, sentimentos, emoções e, sobretudo, potencialidades, com o intuito de repensar e adequar atividades, espaços e programas a elas oferecidos; seja em casa, na escola, no bairro ou na comunidade; no mercado, nas mídias etc.

Longe de afirmar que ouvir e observar crianças signifique ‘fazer suas vontades’; acreditamos que, considerar, levar em conta e incorporar algumas das pistas que as crianças nos dão a partir do seu brincar, das suas produções plásticas e musicais, das suas narrativas, das suas preferências, das expressões dos seus corpos, movimentos e gestos; a partir das ‘falas e mensagens’ que se manifestam através de doenças físicas e psíquicas - feridas ou dores -; potências, preferências, tendências e dificuldades; ouvir e observar crianças de forma ética é um início de estrada a ser trilhado.

Ética é respeito, consideração por um grupo social – neste caso, as crianças - que tem direito a viver significativamente, berço das raízes que irão determinar o ser humano e cidadão em que cada criança tem o potencial e o direito de se transformar.

Há várias formas de adentrar seus universos particulares, começando por pedir licença a cada vez que ficamos próximos, sentamos junto, brincamos, tiramos uma foto ou, de alguma forma, as registramos. Pedir licença vai além: significa estabelecer um diálogo explicando a elas, na medida da compreensão de cada uma, a razão da nossa curiosidade e vontade de conhecer seus mundos. Significa pedir licença para elas nos contarem – claro que a partir das suas linguagens expressivas próprias – o que vivem, o que sentem, do que gostam, seus lugares cotidianos, seus hábitos, suas preferências, seus amigos, seus afetos, etc. E, sobretudo, pedir licença para partilhar estes saberes infantis com outros adultos.

É necessário, porém, chamar a atenção a alguns equívocos e desvios veiculados quando se fala ou se trabalha com crianças e/ou para crianças. Alguns grupos - inclusive de especialistas na área da infância - têm trazido a ‘participação infantil’ como uma bandeira e defendido a mesma em diversos fóruns, sobretudo políticos. A meu ver, esta continua sendo uma forma de violação dos seus direitos por aqueles que acreditam estar defendendo os mesmos: mais uma vez, é o adulto incentivando ou empurrando as crianças a participarem ou a se colocarem, não de forma espontânea, mas em situações que, naturalmente, não são espaços de crianças nem para crianças.

Em alguns países ou culturas, movimentos e vozes infantis nascem a partir das próprias crianças, sobretudo pelas condições de vida, trabalho, violência e exploração a que estão expostas. É preciso muito cuidado para revermos certas práticas e movimentos que têm surgido de uma vontade dos adultos, afirmando que ‘as crianças são protagonistas’. Precisamos deixar de ‘usar’ as crianças. Elas naturalmente participam e estão sendo protagonistas nos seus cotidianos e territórios próprios. Somos nós adultos, pais, educadores e outros atores preocupados com as crianças que não as estamos escutando, compreendendo e muito menos respeitando seus espaços e tempos onde e quando elas se colocam permanentemente e das formas mais inusitadas.

Algumas ideias sobre como chegar aos universos das crianças – e isso não significa que elas irão aceitar! –: propor a criação de mapas ou maquetes dos seus entornos, da sua rua, do bairro ou cidade onde moram; brincar de faz-de-conta ou criar e apresentar uma peça de teatro retratando seus cotidianos ou emoções; criar histórias, histórias em quadrinhos, produções plásticas ou musicais; escrever ou desenhar suas histórias. Fotografar, filmar ou desenhar elas mesmas e seus pontos de interesse. Há inúmeras e sérias iniciativas de escuta e observação que vêm sendo desenvolvidas neste sentido, assim como a oferta de oportunidades de tempos e espaços de expressão. Muitas delas podem ser conhecidas no Mapa da Infância Brasileira.

Adriana Friedmann - Doutora em Antropologia (PUC-SP), Mestre em Educação (UNICAMP) e Pedagoga (FEUSP). Especialista, palestrante e consultora nas temáticas da infância e do brincar. Criadora e coordenadora do Mapa da Infância Brasileira www.mapadainfanciabrasileira.com.br e do NEPSID – www.nepsid.com.br (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento). Coordenadora e docente de cursos de Pós Graduação. Autora de vários livros na área, dentre eles, “Linguagens e culturas infantis”, “O desenvolvimento da criança através do brincar” e “A arte de brincar”.

[1] Vide ‘Nossa Bandeira’ na plataforma da Comunidade Colaborativa de Aprendizagem do Mapa da Infância Brasileira www.mapadainfanciabrasileira.com.br

 

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