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Causos do ECA
19/09/2007

Da flor ao sonho: a trajetória de João - Finalista do 3º Concurso Causos do ECA

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Categoria "ECA como Instrumento de Transformação"
Viegas Fernandes da Costa
Blumenau (SC)

Funcionário público

Da flor ao sonho: a trajetória de João

Naquela manhã, suas mãos despertaram sobre o papel, a flor. Não havia nada de especial naquela flor, igual a tantas outras que já vimos desenhadas por aí, e por isso ela não gerou grande interesse. Mas no segundo dia lá estava ela novamente, e no terceiro, e no quarto também. Então aquele desenho tão cotidiano passou a despertar a atenção dos profissionais da Casa de Semiliberdade de Blumenau, no município de Blumenau (SC). Por certo aquele desenho deveria significar muito para o adolescente que chegara há alguns dias na instituição, de cabeça baixa, com os olhos agarrados ao chão.

- É o mesmo desenho da tatuagem da minha mãe - esclareceu ele com simplicidade.

A mãe da mãe distribuía afagos e atenções quando ele voltava para casa com o dinheiro que roubava nas ruas ou mendigava na caridade alheia
Seu desenho era sua memória, ainda que dolorosa, da mãe, que distribuía afagos e atenções quando ele voltava para casa com o dinheiro que roubava nas ruas ou mendigava na caridade alheia. Então, quando estavam próximos porque abraçados, ele podia ver aquela pequena flor tatuada na pele dela, que se permitia distribuir carinhos como paga do dinheiro que o filho trazia e que lhe sustentava os vícios.

A trajetória que entregou João aos cuidados do Programa de Semiliberdade não é muito diferente da de outros adolescentes que passam por ali: vulnerabilidade e risco social, miséria, abandono e discriminação. João tinha 15 anos e, anteriormente, era atendido em um abrigo na cidade de Gaspar, depois que sua mãe fora destituída do poder familiar. Dela, ele sempre falava com afeto, respeito e saudade, apesar das lembranças das constantes agressões a que seu corpo era submetido, como também da obrigação de mendigar e roubar para sustentar o vício de dependente química de álcool. O pai falecera quando ele estava com dez anos, e dele João não guardava muitas lembranças.

Durante o período em que esteve no abrigo, ele cometia ainda pequenos roubos, embora estivesse sendo atendido em todas as suas necessidades básicas. Por conta disto, recebeu medida socioeducativa para cumprir na Casa de Semiliberdade de Blumenau. Dentre as atividades propostas pela instituição, viabilizou-se, como o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) preconiza, sua escolarização e profissionalização, além de acompanhamento técnico.

Foi nesses acompanhamentos que se percebeu que João sempre teimava no mesmo desenho: uma flor de cinco pétalas, traçada com o cuidado de um ourives. Era o desenho da tatuagem de sua mãe que persistia em seu pensamento e que o remetia a lembranças amargas pois, apesar de ainda guardar em si as reminiscências de uma "mãe ideal" que lhe dava carinho e proteção, ele rememorava, também, as surras de vara, o cheiro do álcool, as palavras duras e ofensivas, o macular de seus sonhos de menino.

Àquela altura, enquanto ainda estava sob a (des)guarda da mãe, João já não freqüentava mais a escola, não acalentava mais planos e não alçava mais sonhos. Aprendera a roubar e mendigar, a pedido da mãe, para receber o tão esperado afeto.

- Minha mãe me abraçava quando eu trazia dinheiro para casa. Era bom - ele contava.

Para João, a fome e a carência de bens obrigavam à prática de atos infracionais, principalmente porque estes garantiam a afetividade materna. Por isso, não se compreendia por que ele, apesar de ter todas as necessidades supridas pelo abrigo, ainda insistia em cometer os mesmos delitos. A infração era seu único vínculo com o que de mais próximo conhecia como sendo o amor de uma família.

Na busca por uma reintegração à convivência social e pela garantia dos seus direitos, João foi motivado a estudar e a freqüentar cursos profissionalizantes, como o de costura. Além de aprender uma profissão, aprendeu também a desenhar coisas novas, e aquela flor inicial foi dando lugar a novas possibilidades: modelos de roupas, croquis e tudo mais que sua criatividade lhe permitia criar.

Na busca por uma reintegração à convivência social e pela garantia dos seus direitos, João foi motivado a estudar e a freqüentar cursos profissionalizantes
Da mesma forma como João ampliava seu repertório de possibilidades criativas, também seu olhar concernente às relações sociais que até então estabelecera se ampliou e transformou, reconhecendo, inclusive, os equívocos do tratamento que a mãe lhe dispensava. Não havia mais uma flor, apenas, mas a reflexão crítica sobre a própria vida que até então vivera e sobre as perspectivas que poderia construir a partir daquele momento. Continuou amando a mãe mas, ao se transformar, passou a desejar a transformação dela também. O auxílio não poderia mais vir pelo furto, pela mendicância, mas pelo estudo e pelo trabalho, pelo respeito à sua história e pela possibilidade de superação.

Passados seis meses, João terminou de cumprir a medida socioeducativa e retornou ao abrigo, onde outras possibilidades de desenvolvimento pessoal lhe foram oferecidas,as quais contribuíram para sua construção como cidadão. Prosseguiu com os cursos, o que lhe garantiu uma bolsa de trabalho.

O destino traçado para João era o mesmo de tantos outros Joões deste País, que perdem suas vidas na criminalidade e na opressão. No entanto, ele teve a oportunidade de ser atendido por uma política de Estado comprometida com os direitos dos seus cidadãos, principalmente os que constituem o futuro e carregam consigo a possibilidade do novo, que são suas crianças e seus adolescentes.

Hoje João tem a chance de construir uma história, de ter seus sonhos e de assumir suas responsabilidades sociais e isso só foi viável porque o ECA foi respeitado e porque um grupo de profissionais aceitou os desafios propostos pelo Estatuto. Agora o novo desafio colocado aos profissionais do abrigo é fazer que a mãe de João reconheça sua importância na vida do filho e procure auxílio para se recuperar do alcoolismo.

Sabemos que a transformação do adolescente João não está completa e que a cidadania é um processo a ser construído por toda a sociedade, cotidianamente. Cabe a esta sociedade continuar acreditando na sua capacidade de resgatar seus sujeitos, reconhecendo-os como cidadãos portadores de direitos e não simplesmente aceitando o determinismo que prega a punição meramente repressora e castradora dos inúmeros devires possíveis.


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