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Causos do ECA
14/07/2005

Confira quem são os premiados do Concurso - De orientando a orientador

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De orientando a orientador


Daniela Bentes de Freitas
Porto Velho, RO


É na beira do rio Madeira que começa a história de Alecsandro. Sua mãe era viúva e já tinha quatro filhas pequenas quando conheceu o pai dele. O romance não deu certo, mas trouxe para aquela modesta senhora um filho varão.

Na sua meninice, ficava que nem macaco, pulando de uma árvore pra outra, jogava bola e tomava banho de rio. Nascido em Porto Velho, Rondônia, num bairro violento, com prostituição e tráfico intensos, ficava vulnerável e, aos 10 anos, viu sua infância mudar quando experimentou drogas lícitas: tabaco e cachaça. Aos 12, provou maconha e aos 13, cocaína. Foram cinco anos de uso contínuo dessas duas drogas. E, após três dias e três noites de intenso consumo, teve a primeira overdose. Três meses depois, a segunda. Mas o risco de morte não foi suficiente para que ele parasse.

A partir do uso dessas drogas, envolveu-se com o tráfico e com a prática de roubos à mão armada. Esses atos se tornaram freqüentes, até que, numa noite de outubro de 2002, ele foi preso e encaminhado à delegacia de apuração de ato infracional. Em virtude do flagrante, ficou internado provisoriamente, depois foi julgado e sentenciado com liberdade assistida, mas não demorou nem uma semana para "cair" de novo e acabou indo para o regime fechado, em virtude da reiteração do ato infracional.

Em quatro meses de internação, pôde aprender muitas coisas, desde a arte de transformar o papel com a reciclagem até a arte de transformar a própria vida. Com a voz suave e tranqüila que lhe é peculiar, comenta: "No começo foi difícil, mas o que mais me marcou foi o acesso que eu tive aos livros. Adorava ir até a biblioteca.
"Em quatro meses de internação, pôde aprender muitas coisas"
Foi lá que eu fui tendo o hábito de ler. Além disso, pude até sair pra fazer as provas da escola".

Não foram somente dias felizes, é claro, mas o jovem acredita que, se não tivesse sido imposto a ele o cumprimento das medidas socioeducativas, certamente estaria morto há muito tempo, vítima da violência da que ele mesmo fazia parte. Alecsandro fala com carinho do cuidado com que a equipe, composta de psicólogo, pedagogo e assistente social, lhe tratava, dando conselhos. E lembra de ter sido encaminhado para realização de exames médicos e atendimento psiquiátrico.

O acompanhamento psiquiátrico, que permanece até hoje, foi de fundamental importância para o início do tratamento da dependência química e a resolução dos conflitos emocionais decorrentes de todo esse processo. As reuniões do Narcóticos Anônimos e o pessoal da igreja também contribuíram. As visitas que recebia da mãe e da irmã, assim como as cartas de amigos, lhe fortaleciam, não deixando que a vontade de fugir fosse maior. "Foi bom, ajudava, ouvia conselhos e ficava mais alegre, porque sabia que tinha alguém pensando em mim lá fora", afirma ele.

Após mais de 180 dias em privação de liberdade, teve sua medida socioeducativa progredida para liberdade assistida, devendo ser cumprida em outra comarca, no Estado do Pará. Sob orientação e encaminhamento da equipe do Programa de Liberdade Assistida e da orientadora que o acompanhava, participou de reuniões com outros adolescentes e fez parte de um grupo de apoio a dependentes químicos, coordenado por uma casa de saúde mental. Foi inserido na escola, teve atendimento médico, psiquiátrico e psicológico e participou de cursos de relações humanas, ética, cidadania e informática. O alistamento militar também aconteceu nessa época, e a equipe do Programa de Liberdade Assistida o orientou a providenciar seus documentos pessoais."Nessa época, eu ganhei a confiança da equipe do Liberdade Assistida e também a confiança da minha família".

"Já vi muitos conhecidos meus morrerem e pensei em ajudar outros adolescentes"
Sete meses depois, retornava a Porto Velho, ainda mantendo os laços com a equipe que o atendera na internação. Até que, aos 18 anos, Alecsandro perguntou se poderia trabalhar como orientador de adolescentes que estivessem cumprindo liberdade assistida. O orientando queria ser orientador. "Já vi muitos
conhecidos meus morrerem e pensei em ajudar outros adolescentes... A vontade começou em Porto Velho, mas eu me espelhei na minha orientadora, que eu admiro muito", diz ele, com os olhos marejados.

Alecsandro recebeu instruções de como deveria executar essa tarefa e, interessado, fez a leitura de um livro escrito por um orientador de Belo Horizonte: "Foi bom ver a experiência dele, me ajudou a não desistir".
Iniciou o trabalho voluntário. Sempre discreto, mas seguro, chega ao Programa de Liberdade Assistida com pontualidade e não falta aos compromissos com o adolescente que acompanha, seja em visita à residência ou diante da necessidade de ir com ele a um atendimento médico.

Passou a freqüentar reuniões de mães e orientadores e, numa destas, se interessou pela história de outro adolescente, manifestando interesse em orientá-lo, marcando um dia para conhecê-lo. Naquele momento, Alecsandro iria com ele até sua casa para conhecer onde morava. E foram os dois, em apenas uma bicicleta, atravessando a cidade. Alecsandro pedalava, conduzindo o pupilo na garupa. Por meio desse gesto tão singelo, começou a demonstrar habilidade para essa relação de ajuda.

Alecsandro realiza coisas que só um orientador bom e dedicado faz, como, por exemplo, sair de sua casa numa manhã de Natal para ir à casa do adolescente, ainda que a pedido da mãe deste, que clamava por ajuda diante de uma situação em que não sabia como proceder. Noutro dia, um domingo ensolarado, acordou às sete horas para conduzir outro orientando a uma palestra num centro espírita. "Ser orientador também é bom pra mim, não é bom só para o adolescente, mas para o orientador também. Tento fazer como um ímã, puxar eles para outro caminho", diz ele.

No futuro, sonha desenvolver um projeto social para ajudar mais pessoas. Aos 19 anos, alto, magro, de passos largos, de orientando a orientador, Alecsandro segue seu caminho, melhorando sua vida a cada dia. Quanto aos vícios, sua luta agora é parar com o tabaco. Nesta luta, transformou seu cinzeiro de estimação em num pequeno jarro, onde hoje brotam cinco pés de feijão.

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