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Educação Inclusiva: eis uma questão
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                                                                                           Ana Beatriz Iumatti

Números da inclusão no Brasil
Família: qual a sua importância?
Conclusão
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Este mês, precisamente no dia dez, comemoramos onze anos da Declaração de Salamanca ("Regras Padrões sobre Equalização de Oportunidades para Pessoas com Deficiências" – 1994), que serviu de estopim para a construção do processo da Educação Inclusiva em vários países, dentre eles o Brasil.
Esta Declaração influenciou as leis e os documentos subseqüentes, visando a inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais na rede regular de ensino.

Na prática, presenciamos histórias de sucesso, como também enormes dificuldades e, em alguns casos, o fracasso desta empreitada. A luta pela inclusão tem que ser uma luta de toda sociedade, que acontece de forma cotidiana e privilegiada no interior das salas de aula, e na construção de uma rede formada por família, escola e comunidade. Cabe-nos, neste texto, apresentar algumas questões que estão envolvidas neste processo. E também fazer uma defesa da Educação Inclusiva, que é uma proposta educacional abrangente, que se propõe a trazer novos paradigmas e a reformular à educação como um todo.

Podemos afirmar, sem dúvida, que a escola construiu, desde seus primórdios, políticas excludentes de atendimento que ora segregavam os menos capazes de acompanhar a grade curricular (incluindo os indisciplinados), ora os expeliam do sistema educacional.
Esta exclusão tem sido extensamente debatida e estudada por profissionais, entidades vinculadas aos Direitos Humanos, governos e sociedade civil. Um dos frutos deste debate foi o ideário da inclusão, que vem para reverter este quadro e fazer valer a perspectiva do direito fundamental da criança à educação.

Vejamos o artigo 53 que consta no texto do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei 8.069 de 13/07/1990 - ordenamento jurídico das responsabilidades da sociedade com a criança e com o adolescente), que se baseia na Constituição Federal:

A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes:

I –
igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II –
direito de ser respeitado por seus educadores;
III –
direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;
IV –
direito de organização e participação em atividades estudantis;
V –
acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência

A criança e o adolescente referidos no Estatuto englobam TODA e qualquer criança e adolescente, a despeito de raça, etnia, deficiência, etc.

Muitas vezes, não paramos para pensar nas conseqüências emocionais e sociais para uma criança e sua família, quando o direito à escola é negado.

Podemos citar algumas; como o sentimento de rejeição, a perpetuação da dependência da criança no seio da família, sentimentos de incapacidade e inferioridade que deixam a marca da diferença como uma marca ruim, que implicará em impossibilidades futuras. Ao fecharmos a porta da escola, que é o primeiro passo em direção à socialização da criança, comprometemos seu ingresso na participação neste espaço social.
Em vista disto, surgem perguntas, como:

- A escola deve ser uma instância normativa que impõe um padrão de normalidade e que exclui a possibilidade da diferença? E, se é assim, o que fazer com a enorme massa de excluídos?

Uma das respostas que a sociedade encontrou foi delegá-los aos especialistas. Criaram-se diversas instâncias de atendimento terapêutico, com enfoque predominantemente médico, para que suas diferenças e deficiências fossem perenemente tratadas. Quando a escola se vê na obrigação de reassumir estes excluídos, certamente não o faz sem ruídos, sem queixas e contestações.

 
Quando a escola se vê na obrigação de reassumir os excluídos, certamente não o faz sem ruídos, sem queixas e contestações

Mas será que o caminho para a inclusão é tão difícil, tão nebuloso e impossível? Certamente educar não é uma tarefa fácil e, para aceitar e empreender mudanças é necessário um enfoque diferente.

Temos acompanhado, em diversas instâncias educacionais, nas Coordenadorias de Educação, nos Ministérios e Secretarias o surgimento de um novo discurso, de um novo enfoque que fala da possibilidade da inclusão, que cria recursos técnicos para que ela aconteça e que produz estudos e reflexões por meio de uma nova ótica filosófica e ética.

No processo educativo, o aprendizado não é unilateral: ele se dá por meio de uma relação, entre professor e aluno, e também, entre alunos, por meio das estratégias de grupo. E, como o aprendizado acontece nesta base relacional, é preciso que o adulto possa despertar o desejo de que o aluno aprenda. A criança precisa sentir-se desafiada, instigada pelo conhecimento que o professor traz. É este desejo que fará com que a criança aprenda e produza seu próprio conhecimento.

Esta engrenagem, aparentemente óbvia, é que precisa ser resgatada. O professor é o motor desta engrenagem e o conhecimento é o combustível para que isto aconteça. Em nossas profissões, sejam elas quais forem, nos deparamos com situações desafiadoras e com a sensação primeira, de que será impossível realizá-las.

O ser humano é um ser de possibilidades

Mesmo porque nossa formação técnica ou acadêmica não nos permite prever todas as situações com as quais nossa prática irá nos confrontar. Nestas horas, é preciso nos movimentar, ir em busca daquele conhecimento ou daquela habilidade que nos falta. O ser humano é um ser de possibilidades! Precisamos

acreditar nisso; a escola e o professor precisam apostar nisso.

Acreditamos que depoimentos extraídos da vida real possam contribuir para nossa discussão. Iniciamos com as palavras de uma mãe, cuja filha está iniciando sua vida escolar em uma escola inclusiva:



Ficamos aqui discutindo belíssimas teorias de educadores que tanta convicção trazem em seus escritos, que tantas verdades descobriram. Porém, sabemos que a realidade da educação pelo Brasil afora parece muito distante de todo esse conhecimento. Somos realmente formiguinhas nessa hora, tentando a duras penas carregar cada folhinha. Mas acredito que antes, quando estávamos todos isolados, cada qual com suas experiências, e nos sentindo sozinhos nessa empreitada era mais difícil.

Podemos juntar nossa voz e nossa força em prol dessa mudança de atitude da escola diante da criança diferente. Diferente mesmo, porque não são apenas os deficientes os segregados; alterações de comportamento, por menores que sejam, têm suscitado reações as mais inadmissíveis. Recentemente, uma Diretora da Apae de uma pequena cidade de Minas Gerais, que fica a 30 KM da cidade em que moro, no Espírito Santo, entrou em contato comigo porque nenhuma escolinha ou creche da sua cidade quis matricular uma garotinha cega de 3 anos, e a mãe a procurou porque gostaria de colocar a menina na Apae, visto que preferia isso a ter que deixar a menina o dia todo em casa. Em nossa conversa, essa Diretora me contou que muitas crianças são encaminhadas até eles por simplesmente não se comportarem "bem " na escola, e as professoras não "sabem" o que fazer. Pois bem, a Diretora me procurou porque tenho uns amigos no Lyons dessa cidade, que me ligaram antes, perguntando se eu poderia ajudar a tal Diretora com a criança. Então conversamos, e eu propus ir até a cidade junto com a Professora da Escola regular da Laura e propormos uma reunião, com informações, materiais, enfim uma espécie de esclarecimento e sensibilização das professoras da escola para que percebam que não há grandes dificuldades e que tudo pode ser aprendido.

Enfim, sei que a situação não é fácil, mas a sociedade tem que se conscientizar do direito de toda criança; então, ao invés de simplesmente encaminhar a criança diferente, porque não vai brigar por ela, junto à direção da escola, junto à Secretaria de Educação?
Acho que o nó da questão é: o professor aceitar e realmente acreditar que todo aluno é seu, e passar a ajudar todos nós na construção dessa nova escola, dessa nova sociedade. Por exemplo , no caso que a Olisangele nos contou, por que aquele aluno que não podia atrapalhar a turma regular, poderia passar atrapalhar a turma dos alunos "deficientes"? Que diferenças a Professora percebe entre essas duas turmas? Que uma merece mais respeito que a outra? Que em uma as crianças têm mais valor que na outra? A resposta é muito provavelmente SIM.

E aí está o preconceito que precisamos desconstruir: O preconceito de quem nos ensina: o preconceito do professor. Acredito que só depois desse trabalho de conscientização de quem ensina é que vamos começar a ganhar as batalhas. Os professores são a chave do sucesso dessa empreitada e também os que poderão ocasionar as grandes derrotas.

É preciso que se conscientizem de que no inicio as coisas serão difíceis, mas, com o tempo, a medida que o caminho for se fazendo, a tendência é que tudo se ajeite, nada acontecerá que não seja viável, possível, passível de ocorrer. Apenas precisamos tentar, é preciso começar a fazer diferente para que tenhamos resultados diferentes. Atualmente, as informações estão acessíveis de maneira muito rápida e direta. Gostaria muito que antes de recusarem, encaminharem, e se sentirem despreparados, procurassem se informar sobre as reais limitações e diferenças daquela criança.
É preciso entender que não estão fazendo favor, que toda criança diferente que chega no seu modo de entender, enxergar, andar, falar, escutar, se comportar, etc, é antes de tudo uma criança, igual ao seu filho, ao vizinho, ao colega da turma, é gente, é cidadão, precisa ser respeitado, e não é porque tem habilidades, talentos, etc, que todos sabemos que têm mesmos, é porque são pessoas , têm alma, espírito, músculos, ossos, e não podem ser relegadas à própria sorte, porque é isso que acontece quando uma escola não aceita uma criança, só porque além de deficientes, diferentes, são pobres? Não têm pai rico? Nem advogado? Nem influências?
Enfim, não podemos excluir essas crianças, segregá-las e negá-las o direito de conviver com outras crianças sem deficiências, assim como faz o seu vizinho ou o seu irmão. Sabe, acho que às vezes estamos precisando aprender a ser gente.

Rosangela (depoimento extraído da lista educadores/Rede SACI)


A seguir, apresentamos um outro depoimento, que aborda o tema de como chamar as pessoas com deficiência.


Sei que a questão é delicada e difícil, mas é necessário esclarecer se a pessoa deve ser tratada como pessoa, embora tenha alguma (ou algumas) deficiência(s), ou se a(s) deficiência(s) de tal modo desenham a personalidade da pessoa, de modo que devam ser tratadas pela sua deficiência. Assim, se me colocam que não sei como conduzir um cego, não estarei oferecendo o que ele precisa como pessoa, eu me pergunto se a todos os cegos se deve conduzir da mesma maneira, se a deficiência da visão é a única preocupação que deve ter o professor, e se a formação desse deva ser meramente técnica, metodológica, instrumental, de modo a oferecer ao cego o que ele precisa como pessoa.

É mesmo uma questão delicada e difícil, porque o mundo que estamos construindo no discurso, não é um mundo inclusivo, no sentido de que nos esquecemos das dimensões humanas que nos constituem e nos preocupamos com o saber técnico e o aprendizado cognitivo.

Por ser mesmo uma questão delicada e difícil, é que gostaria de expressar aqui a minha crença no resgate da pessoa humana, a minha confiança na sua capacidade de freqüentar a escola regular, de contar com a ajuda dos seus colegas, e a preocupação de seu professor, não com seu desenvolvimento meramente cognitivo, mas com seu construir como pessoa humana. Manifesto também a minha confiança na nossa capacidade de construir uma escola assim. Ainda que me digam que uma escola assim não cabe no mundo em que nós vivemos, tenho a renovada esperança, sempre, de que teremos um mundo assim.

Para uma questão delicada e difícil assim, há sempre a solução de ver um mundo diferente.


Gil Pena (depoimento extraído da lista educadores/ Rede SACI)



É inegável que existe uma deficiência que impõe uma marca ao indivíduo; contudo, esta marca não pode identificar e criar uma barreira para o contato e a aproximação com a sociedade.

A deficiência de uma pessoa, muitas vezes, acaba sendo um rótulo e o que deveria ser um traço ou um dos elementos que fazem parte de uma pessoa, acaba virando seu todo, seu símbolo, aquilo que a representa.

Acho que precisamos refletir sobre esta questão: como fazer para ultrapassarmos a questão da deficiência e não torná-la o único elemento sobre o qual se fala. Nosso olhar e tudo que dizemos da pessoa parece que gira em torno da deficiência. O professor fica em pânico porque acha que lidar com a deficiência é lidar com algo super especializado e altamente complexo. E o que se tem ali é simplesmente uma pessoa, de carne e osso. O depoimento acima resgata uma pergunta; será que para além da deficiência, não deveríamos pensar, sobretudo, na pessoa humana que ali está?



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Números da inclusão no Brasil

O Brasil tem quase 3 milhões de crianças com deficiência , que representam 4,7% do total da população com idade entre 0 e 17 anos do País.

São meninos e meninas que têm os mesmos direitos de qualquer outra criança, inclusive o de aprender a ler e a escrever. Apesar disso, o percentual de crianças com deficiência que ainda não estão alfabetizadas é quase o dobro do de crianças sem qualquer deficiência, informa a Andi - Agência de Notícias dos Direitos da Infância. Segundo dados do Relatório “Situação da Infância Brasileira 2004”, publicado pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), com base no Censo 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de analfabetismo entre meninos e meninas de 7 a 14 anos com deficiência chega a 22,4%, enquanto entre crianças sem deficiência, nessa mesma faixa etária, esse percentual é de 11,7%.

Taxa de analfabetismo entre crianças com deficiência de 7 a 14 anos chega a 22,4%, contra 11,7% entre crianças sem deficiência na mesma faixa etária

Além disso, é certo que as crianças com deficiência não necessitam apenas ser alfabetizadas. Elas precisam estar em classes regulares, com as outras crianças, como recomenda a educação inclusiva. (fonte: Analfabetismo entre crianças com deficiência)

Outro dado interessante diz respeito ao número de matrículas de crianças com necessidades educacionais especiais nas escolas regulares públicas e privadas.

Dados do Censo Escolar de 2003 (MEC/INEP-Ministério da Educação/ Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) registram que a participação do atendimento inclusivo cresceu, no Brasil, passando dos 24,7% de 2002 para 34,4% em 2004. (Fonte: MEC)

Duas questões chamam bastante atenção e merecem ser alvo de reflexão. Das crianças com deficiência matriculadas, 64, 5% estão no ensino fundamental e apenas 1,5% no ensino médio, 7,3% na Educação Profissional e 7,3% no EJA (Educação de Jovens e Adultos). Poderíamos ponderar que estes resultados se equivalem, em escalas maiores e mais dramáticas, ao que acontece com qualquer criança brasileira: conforme o grau de escolaridade aumenta, o índice de evasão

 
Conforme o grau de escolaridade aumenta, o índice de evasão escolar também aumenta: fato que acontece com qualquer criança brasileira
escolar também aumenta.

Creio que isto provoca uma reflexão sobre a qualidade das escolas e da inclusão que está sendo feita. Será que a escola está realmente sendo bem sucedida?

A outra questão refere-se às condições de infra-estrutura nas escolas públicas da Educação Básica, ou seja, às condições de acesso físico das pessoas com qualquer tipo de deficiência ou com mobilidade reduzida. Apesar do Decreto 5296 de 2004, que obriga os espaços públicos e coletivos a adaptarem-se para esta população, apenas 4,8% das escolas públicas têm sanitários adaptados e 3,6% delas possuem suas dependências e vias adequadas aos alunos com necessidades educacionais especiais. (Fonte: MEC)

Estes dados são bastante preocupantes, pois sabemos que a falta de ônibus adaptado, por exemplo, já pode, por si só, impedir que uma criança tenha acesso à escola. Que dirá se a própria escola não fornecer este acesso?

Encontramos com mais freqüência adaptações improvisadas, em que o “cadeirante” (denominação de quem usa cadeira de rodas) acaba usando uma sala que fica no térreo, fazem-se pequenas rampas de madeira improvisadas e outras soluções.
Creio que as escolas, na falta desta infra-estrutura maior, de fato devam buscar saídas alternativas, pois é aí que entra a nossa criatividade e a cooperação da comunidade.
Recorrer aos recursos da comunidade pode ser uma boa forma de viabilizar a inclusão, como um marceneiro do bairro que se disponha a fazer pequenas adaptações, assim como existem alternativas simples de materiais escolares que podem ser produzidas pelo próprio professor.

O site do MEC possui dicas de jogos e materiais para serem confeccionados – é o portal de ajudas técnicas para educação.



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Família: qual a sua importância?

A família também tem um papel preponderante na questão da inclusão, que pode ser considerada uma estrela com três pontas: em uma está o aluno, noutra o educador/escola e noutra a família.

A família é quem legitima o lugar da escola para o filho, é ela que também pode ajudá-lo a lidar com as questões que vão aparecendo, fruto das relações estabelecidas no social. Além do que, a criança geralmente se guia e espera que os adultos lhe orientem em vários momentos. Em geral, os pais e o professor são as figuras de referência da criança.
Abaixo, uma carta escrita pela mãe para sua filha com deficiência visual, em seu primeiro dia na escola:


Laura,

Hoje foi o seu primeiro dia de aula, e eu gostaria que você soubesse como me senti. Como você ainda é muito pequena, tem só 2 aninhos e meio, você não se lembrará quando crescer, mas registrando o dia de hoje isso ficará para sempre guardado e poderá ser lembrado quantas vezes quisermos. Em alguns momentos riremos do quanto sou boba, outras vezes teremos muita saudade desse tempo bom que está passando.

Bom, queria lhe dizer que estava muito ansiosa por esse dia, comprei seu uniforme, enfeites no cabelo combinando com a cor da roupa e todos os acessórios necessários. A sua mochila e a sua lancheira são da Polly, é uma boneca pequenina e magrela que tem feito muito sucesso entre as meninas maiores que você.

Não posso esquecer de dizer que foi a tia Nina que bordou cinco toalhinhas com o seu nome e a Jajá está pregando umas continhas para que o seu nome fique escrito em braile também. Ah! Coloquei um chaveirinho lindo preso ao zíper da sua mochila para ajudá-la a puxar para abrir a mochila, porém você gostou tanto do chaveiro que é um ursinho que logo no primeiro dia de tanto puxar, quebrou o danado e ele se soltou.

Bom, enquanto a Jajá arrumava você, a garotada da vizinhança veio aqui para casa só para ver você de uniforme, vieram a Ana, a Amandinha, o Renato, a Tati e a Franci, tiraram mil fotos suas fazendo muitas poses. Ah! Claro que eu também fotografei você.
Bom, enfim saímos de casa, chegando na escola a Tia Cíntia veio logo lhe receber. A Tia Cíntia caso você esqueça quando estiver maiorzinha, é muito legal e um pouco gordinha. Bom, daí ela levou você para brincar com a areia e você logo gostou de por areia no baldinho, eu tirei mais umas dez fotos e me despedi de você. Eu te dei um beijo e falei assim: "Dá tchau para mamãe" e você deu mesmo, foi falando: "Tchau mamãe”. Eu saí da escola entrei no carro e chorei emocionada. Parecia que nós estávamos de alguma maneira nos separando. Alguma coisa de você tinha ficado para trás e, embora você ainda seja muito neném (só você e mais dois coleguinhas da sua turma não usam fralda), parecia que você estava deixando de ser neném, e isso de alguma forma doía como uma saudade, então eu peguei o celular e liguei para umas cinco pessoas para contar o que estava acontecendo.

E então eu fui trabalhar, quando cheguei em casa você já estava quase dormindo e a Jajá me contou que na escola você pediu para dormir, mas não conseguiu, e chorou na hora do lanche porque estavam demorando para entregar a sua lancheira, e fora esse vexame, foi tudo bem.

A Isabela, nossa vizinha, e a Vitória da avenida são suas coleguinhas.

Espero que você goste das minhas anotações sobre o seu primeiro dia de aula. Eu e seu pai te amamos muito.

PS: Uma das cinco pessoas para quem liguei do carro foi o seu pai e ele também estava sentindo o mesmo que eu.



Nesta carta temos um testemunho claro da importância que a família confere à entrada da filha na escola, como o primeiro marco em direção à autonomia e “emancipação” desta em relação à família. É a entrada no campo social mais amplo que vai transportar a criança do campo individual (família) para o coletivo (escola).

A escola “batiza” a criança nesta estrutura coletiva, confere a ela um lugar dentro da sociedade

A escola, como símbolo da cultura, tem um papel primordial na transmissão, não só dos conhecimentos acumulados através dos séculos, como também dos valores que regem esta sociedade. Ou seja, a escola “batiza” a criança nesta estrutura coletiva, confere a ela um lugar dentro da sociedade.


A família legitima este processo ao matricular seu filho na escola, ao comprar o material, o uniforme. Como será que uma família se sente ao ter este direito do filho ameaçado?
Geralmente, aceita com resignação, mesmo prevendo todas as conseqüências. Habitualmente, em nosso país, as pessoas deparam-se com seus direitos básicos desrespeitados e aceitam isso de forma inquestionável.

Por outro lado, a certeza da impunidade em nossas instituições é tão grande, que uma lei não parece intimidá-los. Vira um ciclo vicioso e silencioso, em que a família geralmente aceita a recusa da escola e leva o filho para estudar em uma escola especializada, isto quando ela existe em seu município. A escola especializada, apesar de não ser a saída ideal, muitas vezes ainda é uma alternativa melhor do que a criança ficar em casa, restrita ao universo familiar.

Porém, a escola especial nunca se igualará à escola regular, pois não tem a mesma validação em nossa cultura e não deixa de ser um espaço segregado, atuando em uma via paralela ao espaço social comum.



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Conclusão

Este texto procurou levantar algumas questões referentes à educação inclusiva. Longe de estar consolidada, a inclusão é um processo que está apenas se iniciando, com várias vozes dissonantes, umas contra, outras a favor. Procuramos defender a Educação Inclusiva com a perspectiva da garantia dos direitos e da cidadania das pessoas com deficiência.

Para que a inclusão social aconteça, ela deve começar pela escola, que é o primeiro lugar social e, em decorrência da importância que tem, deve acolher a todas as crianças, sem discriminação.



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Saiba mais


Conheça o Observatório de Práticas Inclusivas da Rede SACI

O Observatório da Educação tem como objetivos, a curto prazo, produzir e difundir informações sobre vivências e práticas de Educação Inclusiva implantadas nos Estados brasileiros, envolvendo todos os tipos de deficiência e todos os níveis de ensino (com ênfase na educação infantil e no ensino fundamental), tanto na rede pública (municipal e estadual) quanto na particular.

A longo prazo, ele pretende subsidiar análises, propostas de ação e a elaboração de políticas públicas a serem desenvolvidas por estudiosos e por órgãos especializados, públicos ou privados, a partir das informações coletadas e sistematizadas.

O Observatório convida aos pais, pessoas com qualquer tipo de deficiência, profissionais ligados à Educação Especial e Inclusiva e demais interessados a participar da Lista de Discussão "Educadores" (inscrição pelo e-mail ana@saci.org.br) e do Observatório da Educação, como observadores voluntários. Desta forma, está sendo construída a "Rede de Observadores Voluntários", na busca de soluções de problemas relacionados à inclusão escolar e social plena.

O espaço virtual do Observatório de Educação serve como fonte de informação e espaço de trocas e debates entre professores, familiares e alunos.


Conheça o projeto Roma
O projeto Roma é uma proposta pedagógica, concebida pelo Prof. Miguel Lopez Melero, atualmente professor na Faculdad de Ciencias de la Educación, Málaga, Espanha. Em 1977, Melero era professor de Educação Especial em Alcalá de Henares e se colocou a pergunta porque as pessoas portadoras de síndrome de Down eram consideradas deficientes mentais, se pensavam, se comunicavam, tinham sentimentos e emoções, se moviam no espaço escolar com autonomia e distinguiam o que estavam bem do que estava mal.

Com isso, Melero percebeu que a melhor maneira de educar essas pessoas era colocá-las em salas de aula regulares e iniciou uma luta nesse sentido, buscando apoio com as famílias e dando apoio aos professores. Isso ocorreu há mais ou menos 30 anos, em uma época que o sentido da luta era exatamente o contrário, quando o que se buscava era a instalação de salas especiais como direito das pessoas portadoras de alguma deficiência(!). Essa experiência foi defendida como tese de Doutorado e resultou na publicação de “Teoria y Práctica de la Educación Especial: El desarrollo intelectual de las personas com trisomía-21”.

Mudando-se para Málaga, em 1981, Melero desenvolve uma nova investigação, de características semelhantes. Em 1988, em um Congresso em Berlim, Melero conheceu Nicola Cuomo, da Universidad de Bolonia, que vinha desenvolvendo uma pesquisa semelhante em sua cidade. Assim, a partir de 1990, Melero inicia uma investigação conjunta com a Universidad de Bolonia e o Hospital Menino Jesus, de Roma. Nasce assim o Projeto Roma (que na Itália era conhecido como Projeto Málaga), que tinha como responsáveis Nicola Cuomo, Giorgio Albertini, Gianni Biondi e Miguel Lopez Melero. O grupo se comprometia a buscar uma linha de investigação com a pretensão de buscar soluções conjuntas, nos diversos contextos (família, escola, sociedade) às dificuldades de ensino e aprendizagem que se dizia que apresentavam algumas pessoas excepcionais.

Na busca dessas soluções, ao longo do tempo, o projeto evoluiu para uma proposta pedagógica, não apenas para pessoas com alguma peculiaridade, mas para todas as pessoas, sem exceção. Essa proposta pedagógica está baseada em concepções teóricas de diferentes autores, como Vigotsky, Luria, Leontiev, Bruner, Maturana, Habermas e Kemmis. Muitos dos escritos desses autores são pouco difundidos aqui, e nem tudo está traduzido para o português.

O foco central do projeto Roma talvez seja o de tirar o foco central das pessoas com deficiência. As intervenções propostas não estão dirigidas às pessoas, mas ao contexto. É partir do contexto humano, culturalmente rico, que as pessoas se apropriam de ferramentas da cultura, como a linguagem, por exemplo. O que se busca fazer é oferecer essas ferramentas da cultura de modo que possam ser apropriadas pelas pessoas, que assim garantem a oportunidade de superar suas dificuldades.
O Projeto é uma ferramenta de mudança cultural, já que suas proposições apresentam valores e paradigmas distintos dos valores e paradigmas mais prevalentes da nossa cultura.

Um segundo ponto, não menos importante, é a confiança na capacidade de aprendizado das pessoas. Se não existe essa confiança, não há o comprometimento necessário para a relação de ensino e aprendizagem. Assim, diante das dificuldades, há que se criar meios que nos permitam superá-las, pois se são capazes de aprender, há que se desenvolver uma estratégia que possibilite esse aprendizado.

O Projeto Roma pode ser visto também como uma ferramenta de mudança cultural, já que suas proposições apresentam valores e paradigmas distintos dos valores e paradigmas mais prevalentes da nossa cultura. A proposta educativa do Projeto Roma é uma também educação de valores.

(Gil Pena é um dos implementadores do Projeto Roma aqui no Brasil)



Outros textos sobre o projeto:


http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi¶metro=589
http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi¶metro=15438
  • Utopia possível! – Leia o depoimento de Mara Cassas contando sobre o uso de algumas estratégias para inclusão de um aluno com deficiência.


 
 

Ana Beatriz Iumatti é colaboradora da Rede SACI.
   




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