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Pedro Canuto tem 10 anos, mas desde os seis seu brinquedo preferido é o computador. Ele passa boa parte do seu dia, quando não está na escola, conversando com os amigos no MSN, programa de bate-papo instantâneo, deixando scraps (recados) no site de relacionamentos Orkut, e se divertindo em games. Carrinho de brinquedo? “Não gosto, acho muito chato”, diz.
Pedro representa a nova forma como as crianças brincam. Para a educadora Maria Ângela Barbato Carneiro, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e coordenadora de uma brinquedoteca, as mudanças na sociedade contemporânea transformaram o ato de brincar e é preciso que os pais compreendam essa nova realidade e se adaptem a ela.
Para ajudar no processo, Maria Ângela constata uma série de pequenas, mas fundamentais mudanças: os brinquedos são menores porque os espaços para brincar também são; as crianças brincam menos; os brinquedos, na maioria das vezes, são réplicas de personagens da TV; as brincadeiras tradicionais como cantigas de roda, esconde-esconde estão desaparecendo; e os jogos eletrônicos são os preferidos, principalmente dos garotos.
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“Não se pode impedir a criança de conhecer o que está aí, mas se deve oferecer também os tradicionais, muitos deles trazem elementos da cultura popular que correm o risco de desaparecer”
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Essa “lista” contextualiza novas formas de comportamento que os pais devem adotar em relação às brincadeiras, assunto bastante sério no processo de formação da criança. A educadora diz que é inegável que os jogos eletrônicos vêm substituindo os tradicionais, mas os pais precisam estar atentos porque ambos são importantes. “Não se pode impedir a criança de conhecer o que está aí, mas se deve oferecer também os tradicionais, muitos deles trazem elementos da cultura popular que correm o risco de desaparecer”.
Equilíbrio - Conseguir este equilíbrio entre as brincadeiras é o principal desafio dos pais do século XXI. A psicóloga Leila Oliveira, mãe de Pedro Canuto começou a se preocupar porque os jogos eletrônicos passaram a tomar muito tempo na vida de seu filho. “Ele fica no computador de forma muito intensa. E isso toma o lugar e o espaço para encontrar amigos, para fazer outras coisas”, explica.
Na busca de uma solução, Leila negociou com Pedro uma definição de dias e horários para o uso do computador. Seu objetivo é suscitar o interesse do garoto por outras brincadeiras. Sua estratégia é investir em outros brinquedos como bola, bicicleta, surfe e livros, mas nem sempre funciona. “Quando ele tem o direito de escolher, prefere um game, eu respeito, mas procuro mostrar que tem outras opções”.
Para Maria Ângela Carneiro o problema na relação filhos-brinquedos-pais é que, em geral, os pais compram muitos brinquedos para suprirem a sua ausência ou a falta de paciência, mas que são desnecessários. Ela diz que o importante é escolher o brinquedo certo, que não é necessariamente um objeto, mas pode ser o próprio corpo da criança. “Mas é fundamental que os pais brinquem com os filhos para que eles possam aprender, inclusive, como brincar com os objetos recebidos”, conclui.
Assim como Leila, a médica Ana Maia de Araújo, mãe de Lucas, de 10 anos, tem como principal tarefa fazer com que seu filho se interesse por brincadeiras diversas, longe do videogame e do computador. Nessa tentativa, investe em quebra-cabeças, dominó, dama, tentando um equilíbrio com os jogos eletrônicos. “Não posso excluí-lo do mundo dos games, senão ele seria um ET na escola, mas é preciso filtrar esse interesse”.
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“A criança brinca para ‘entrar’ na realidade; brinca de médico para saber o que é ser médico. Os brinquedos tendem a imitar o mundo adulto, justamente para que a criança possa se preparar para esse universo”
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Sociabilidade - A socióloga Fátima Cabral, pesquisadora e professora da Universidade Estadual Paulista, que fez um estudo sobre o papel que os jogos eletrônicos ocupam no processo de sociabilidade infanto-juvenil, explica que é por meio das brincadeiras, do faz-de-conta, que a criança “experimenta” o mundo, por isso o tema merece tanto atenção dos pais. “A criança brinca para ‘entrar’ na realidade; brinca de médico para saber o que é ser médico. Os brinquedos tendem a imitar o mundo adulto, justamente para que a criança possa se preparar para esse universo”, diz.
Fátima Cabral considera que a criança deve ter acesso aos mais variados estímulos: jogos de montar, de tabuleiro, brinquedos diversos, livros, jogos eletrônicos, mas privilegiando “atividades que favoreçam à criança a compreensão dos processos de construção, desconstrução, de transformação, de mudança”, complementa.
A socióloga acredita que a grande questão em torno dos brinquedos e jogos eletrônicos é que eles dificultam o conhecimento empírico. “Sua ‘natureza’ permanece algo insondável para a criança e, nesse sentido, ela não domina a brincadeira, é dominada por ela, torna-se expectadora (no caso de brinquedos eletrônicos) e, no caso dos jogos, deve reduzir seus movimentos e ação à estrutura pré-determinada pelo programador”.
Para ela, os pais precisam estar bem atentos à escolha das brincadeiras dos filhos. “Conhecer a personalidade do filho e o conteúdo dos jogos são os primeiros e indispensáveis critérios, o resto, o bom senso dirá, não há receita pronta, cada criança reagirá diferente, de acordo com os estímulos que recebe”, diz.
Com apenas 8 anos, para Beatriz de Souza tudo por enquanto parece bem mais simples. Ela, que garante gostar tanto dos jogos eletrônicos quanto de suas bonecas, além de passar parte do tempo de papo com amigas e primas no MSN, tem a sua definição para a celeuma entre brinquedos tradicionais e eletrônicos: “Não vejo diferença, para mim é tudo brincadeira”.
*Jornalistas Amigos da Criança é um projeto da ANDI.
Autora do texto: Nadja Vladi, editora do Caderno Dez! do Jornal A Tarde (BA), doutoranda do programa de pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea da UFBA, é Jornalista Amiga da Criança desde 1998.
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