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Causos do ECA
14/07/2005

Confira quem são os premiados do Concurso - Gabriel

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Gabriel


Roberto Nogueira de Souza
Rio de Janeiro, RJ


"Desperta, menino, já é tarde! Passaste a noite a fazer poesias, sonhando com o nada, que perda de tempo!". Em seus parcos 14 anos, Gabriel já contestava, compondo seus versos, ora tristes, tenebrosos, poucas vezes alegres. Talvez retratassem as penúrias diárias, num pranto incontido, presente nas linhas escritas com letras, ainda malfeitas, mas plenas de luz e poder pueril.

Escrevia episódios diversos, com a grandeza de um sábio, com jovial esperança, como a julgar que dali, de tantos rabiscos, pudessem surgir soluções mais profundas, capazes de erguê-lo, não só a si mesmo, mas a todos em sua volta, esperançosos ou não de viver de forma mais saudável.

Assumia, por vezes, o papel principal nos poemas escritos, alguns deles até premiados em concursos, como o do grupo escolar que freqüentava, onde se destacava.
Evidenciava incríveis propósitos de atingir novos rumos, caminhos melhores, como no poema a seguir:

"Num belo dia, feliz desperta Gabriel,
Jovem imberbe, quatorze anos, esperançoso,
Ouviu dizer, numa nota radiofônica,
Que abriram vagas numa escola. Que colosso!
Dizia ele: ‘Agora, vou subir até o céu,
Aprenderei computação, falarei inglês.
É minha chance de me tornar um bom burguês!’ ".
Descrevia também os sombrios espaços que o envolviam:
"Incerteza cresce,
Dúvidas aparecem,
Meu Deus,
Até onde vou chegar,
Com essa ânsia constante
Que dilacera, a todo instante,
Meus momentos de viver?".

Verve de poeta, tugia frases emocionadas, repletas da esperança de um dia alcançar venerável posição entre os magos da escrita. Sua têmpera adornava um estilo intrépido, doce em alguns momentos, áspero em muitos outros.
"Verve de poeta, tugia frases emocionadas, repletas da esperança"

Gabriel, meu aluno e representante da turma de oitava série, sempre em contato comigo, professor-¬conselheiro, mostrava-me suas maviosas composições. Aceitando sugestões, enfim, esculpia aquela coletânea que, a cada dia, atingia melhor qualidade, evidenciando um belo futuro literário.

Fim de curso, oitava série concluída, formatura: lá estava Gabriel, exuberante, no pequeno auditório da escola municipal, a proferir o discurso de despedida, orador escolhido pelos colegas formandos.

Com invulgar aptidão na oratória, declinava seu discurso com excepcional arrojo, entremeando poesias repletas de tristeza e que se tornavam mais belas ao serem mescladas com a triunfante alegria inerente aos baluartes que conseguem vitórias em meio a profundas dificuldades.

Seu brilho transformava-o num artista. O pequeno palco tornava-se grandioso, similar ao dos maiores teatros do mundo. Pérolas sublimes eram proferidas como se deslizassem pelas lágrimas que desciam de seus olhos. Aquele mágico momento conseguia contagiar os presentes que, ao término de suas palavras, ovacionaram-no, reafirmando a magnitude de um jovem de quem muito se aguardava dali em diante.

"Estacionei num beco estreito, onde brancas pombas, assustadas, esvoaçaram, enquanto Gabriel, aos prantos, me abraçava"
Dois anos se passaram até que, numa fria tarde de inverno, estava eu dirigindo numa movimentada alameda. Ao parar num sinal, avistei um rapaz descalço, vestes surradas, olhar cansado e carcomido como o de um ancião, rodopiando, imitando passos de mestre-sala, entremeando malabarismos com alguns limões nas mãos. Era Gabriel, que, ao me avistar, permaneceu estático por alguns segundos. O sinal abriu e, de
imediato, sinalizei para que ele seguisse meu carro, virando na próxima entrada. Estacionei num beco estreito, onde brancas pombas, assustadas, esvoaçaram, enquanto Gabriel, aos prantos, me abraçava. Contou-me que sua família havia sido dizimada por traficantes, pois não aceitava servir ao tráfico. Havia escapado por milagre. Minutos antes, saíra para um mercado próximo, não retornando para casa, temeroso de ser também aniquilado.

Coloquei-o em meu carro e me dirigi ao Conselho Tutelar, onde solicitei sua guarda provisória. Graças ao Estatuto da Criança e do Adolescente, Gabriel passou a conviver com minha família. Hoje, está cursando o primeiro ano do curso de letras em uma universidade pública. Gabriel é o filho que não tive, o irmão que sempre desejei, o amigo de todas as horas.

Esgarça, Gabriel, as amarras da pungente desigualdade social! Mostra, com teu arrojo, que a persistência sempre conduz à vitória, quando erigimos nosso âmago para conquistar o que almejamos.

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