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Xeque-mate
Céu azul, areia branca, águas cristalinas. No rio Rubão, em São Vicente (SP), na Baixada Santista, um menino negro, alto e magricela diverte-se com os amigos da comunidade do Jardim Rio Branco. Na primeira cidade histórica brasileira, a periferia não chega ao mar. As casas ficam à margem de córregos, em ruas de terra batida. Mas Robinho não liga. Prefere o rio Rubão. Sobe com agilidade na encosta e se exibe, com saltos habilidosos de quem é íntimo do lugar. É o mais corajoso. Sorriso estampado no rosto, nem parece aquele jovem que a equipe de educadores conheceu perambulando pelas ruas do centro de São Paulo (SP).
São Paulo, novembro de 2005. Aos 15 anos, Robinho vagueia com uma manta esburacada. De semelhança com o menino do rio, apenas os pés descalços, resquício da cultura caiçara. Escolhe como moradia a porta de um estabelecimento comercial que vende produtos pagos em muitas prestações. Pede dinheiro na loja da rede de fast food mais famosa do mundo.
Principal tarefa dos educadores: construir uma relação sincera com o menino. Só assim ele se sentiria à vontade para falar de sua vida, suas dificuldades, seus sonhos. Entre muitas partidas de futebol, demos o primeiro drible certeiro nesse santista roxo. Robinho se abriu. Contou que foi campeão de xadrez na escola e que era louco por música. Menos por rock, é bom que se diga.
Por que saiu de casa? Conflito com a família. Filho mais velho dos cinco que moram com seu Arnaldo - os outros dois vivem em outros lares -, Robinho não se dispunha muito a ajudar nos afazeres domésticos que dividia com a madrasta, nem conseguia se adaptar à insistência dela em freqüentar assiduamente a igreja. Sentia falta do apoio do pai na garantia de seus direitos fundamentais, como fazer a matrícula da escola e tirar documentos para trabalhar. Preferiu se refugiar na próspera São Paulo, onde conseguir dinheiro é "fácil", mas a vida é difícil e solitária.
"Tá molhado?" "Tá fazendo muito frio?" "Tem muita intervenção da polícia?" É hora de voltar para casa. Robinho já está com saudades da família, dos amigos, do rio Rubão.
Fevereiro de 2006. Primeiro retorno de Robinho à família. Acompanhamos o adolescente até o litoral. Casa de alvenaria. Estreita. O ambiente mais amplo - na parte da frente da casa - é destinado à igreja, tocada pela família. Dois dormitórios: um para o casal - dona Vânia e seu Arnaldo - e outro para os cinco meninos. A cozinha é improvisada no corredor. Seu Arnaldo, pedreiro, encanador, pintor, eletricista e pastor, mostra com orgulho a reforma que pretende fazer na casa, assim que a hanseníase der uma trégua e ele conseguir um emprego fixo.
Com as preocupações pessoais e econômicas, sobra pouco tempo do pai para Robinho. Adolescente, o jovem se impacienta com os rearranjos conjugais e a cobrança por ajudar em casa. Dona Vânia entrega os pontos: "Só Jesus salva." Mas seu coração amolece quando relatamos o que Robinho disse dela: "Considero-a como minha mãe." Num primeiro contato, ouvimos bastante e sempre procuramos ponderar as reclamações com o reconhecimento das qualidades de Robinho e dos potenciais da família. Para reaproximar o menino da comunidade, ele mesmo sugere sua inclusão numa escolinha de futebol mantida pela prefeitura da cidade. Com a participação de Vânia e Robinho, conseguimos efetuar a matrícula.
Dois meses depois... trombamos novamente com Robinho vagando pelas ruas da capital paulista. É a rotina da maioria dos meninos e meninas em situação de rua. Quando o conflito em casa começa a pesar, eles saem novamente. Como exercício de protagonismo juvenil, incentivamos Robinho a traçar seu caminho. A escolha: ir para um abrigo.
Com base no artigo 19 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a equipe de educadores problematizou a questão. Como ele poderia ficar num abrigo, se tinha família? Era preciso apenas que a convivência familiar e comunitária desse jovem fosse efetivamente assegurada. Robinho tinha fome de cidadania, de mais respeito às suas opiniões, desejos e necessidades, não só de comida, roupa e abrigo.
Percebemos então a importância de um acompanhamento mais intensivo por parte da equipe, mesmo tendo como dificuldades a distância da residência do menino e encontrar parceiros em São Vicente que continuassem um atendimento centrado no respeito à autonomia de Robinho e na identidade intra-familiar. As freqüentes visitas, sempre com o objetivo de reaproximar a família, renderam frutos: Robinho começou a se interessar pelo trabalho do pai. Seu Arnaldo passou a apoiar o filho em seu projeto de vida.
Hoje, aos 16 anos, Robinho voltou a estudar. Está na sétima série, fortalecendo cada vez mais seus vínculos comunitários. As relações em casa melhoraram. "Comecei a gostar mais da minha família. Antes, por qualquer coisa, já saía de casa", diz ele. Sonhos, ele tem de monte: tocar violão, teclado, formar uma banda, trabalhar com computação. O menino também está inserido na era digital. Tem 17 fãs no Orkut, aquela comunidade virtual.
Neste caso, o ECA mostrou-se um importante instrumento de legitimação da família como o primeiro e mais importante núcleo social das crianças e adolescentes. Robinho percebeu isso. E sua família passou a respeitá-lo como sujeito de direito à liberdade de opinião, quereres, necessidades. O acompanhamento regular à família pela equipe de educadores e o apoio do programa esportivo de São Vicente proporcionaram um atendimento que valorizou a família como detentora de saberes.
Sua história, Robinho, está apenas começando. Como bom jogador de xadrez, você sabe que, para conseguir atravessar todo o tabuleiro com o peão, a peça mais vulnerável, e resgatar qualquer outra peça retida pelo adversário, é necessário empenho. A primeira casa certamente você já avançou. Suas características na comunidade virtual não deixam dúvidas: "Moro com meus pais." Agora queremos ver você dar xeque-mate, rapaz!
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