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Causos do ECA
14/07/2005

Confira quem são premiados do Concurso - Jovem que não pinta vive a juventude em preto-e-branco

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Jovem que não pinta vive a juventude em preto-e-branco


Josimar Manoel Matias
São Paulo, SP



Ler... Sentir... Compreender... Mover o olhar... Mudar... Humanizar-se. Tudo o que eu estava construindo era um modo de ampliar minhas possibilidades de ver e sentir o mundo.

Comecei a pensar que o ser humano, a partir do momento em que toma consciência de sua individualidade, sente necessidade de expressar seu universo interior. E foi isso o que realmente aconteceu comigo: me libertei com a arte, e ela me ofereceu outra visão, novos conhecimentos e o desejo de ser feliz. Fui um adolescente que se sentia excluído na sociedade, sempre ia mal no colégio e não acreditava em um mundo melhor.

Por morar numa favela, não tinha esperança alguma de sair da vida em preto-e-branco e mudar para o mundo do arco-íris. A cada dia que passava, me distanciava do meu potencial. Era revoltado e ao mesmo tempo tinha a "síndrome do coitadinho": nasci assim, vou morrer assim.

Todas essas situações me deixavam muito mal, comecei a ficar doente. Entrei em depressão, pois não conseguia ver as coisas acontecerem na minha vida. Já enfrentava a exclusão social, e algo que me machucava profundamente era ver que as pessoas não acreditavam
"Entrei em depressão, pois não conseguia ver as coisas acontecerem na minha vida"
em mim, ninguém tinha a esperança de que um dia eu pudesse sair dessa gaiola e voar como uma águia.

Eu sonhava, como qualquer adolescente sonha, mas não conseguia encaixar as minhas dificuldades em um processo que me influenciasse e me fizesse acreditar nos meus sonhos. Em minha cabeça, passavam mil pensamentos, eu vivia em um lugar de miséria, violência, roubos e drogas, pensava que mais tarde eu poderia virar um viciado e até mesmo um marginal. Assim, eu só pensava em dois caminhos: o cemitério ou a cadeia.

Mas, graças à ação de uma artista plástica do projeto Integrarte no meu bairro, que invadiu aquele mundo preto-e-branco quando eu tinha apenas 14 anos, recebi uma porção essencial do colorido para a minha vida e a possibilidade de conquistar.

Quando o projeto chegou na periferia, não dei a menor importância, não quis saber do que se tratava e muito menos quais as informações que queriam me passar. Mas, mesmo assim, me matriculei no curso de desenho e pintura. Entrei com a idéia de que aquilo ali seria apenas um passatempo. Mas, não! Tudo era um sonho para mim. O curso foi como um empurrão para que eu conquistasse meus sonhos.

Eu já tinha ouvido falar em arte, mas não conhecia e jamais passaria em minha mente que fosse capaz de colorir e dar liberdade à minha vida e à de minha família.

Fui aprendendo o senso da vida. Tudo o que fazia era uma surpresa, não só pra mim como também para a minha família. Comecei a acreditar que eu era capaz de fazer as coisas acontecerem na minha vida, e percebi que eu nasci para dar certo.

Passei por um processo de seleção: esquecer tudo aquilo que vivi no passado, aprender a lidar com o presente e me preparar para desafiar o futuro. Então, notei que o tempo não pára, pois, quando você se abre para viver, sente que é capaz de conquistar e compreender as novidades da Terra.

"Conheci o mundo colorido e apaguei o preto-e-branco em que vivia"
Desse modo, conheci o mundo colorido e apaguei o preto-e-branco em que vivia. Dei liberdade à arte e vi que cada cor tem uma função em minha vida. A arte me deu a capacidade de mudar o olhar e enxergar o mundo
de outra forma. e então, fui acreditando no meu potencial.

As portas se abriram. Antes, eu vivia uma vida depressiva e agora vivo a arte e a arte vive em mim. A arte me ensinou a ser persistente e nunca desistir daquilo que é o sonho, daquilo que é o desejo do coração. Ela me influenciou na leitura, comecei a gostar mais de ler e buscar aquilo que ainda não conhecia. Isso fez com que meu desempenho escolar melhorasse completamente. Todos em minha casa começaram a acreditar em mim e viram que eu já era uma estrela e precisava deles para que cada dia brilhasse mais e mais.

A partir daí, mais confiante, começava a dar certo. Fiz um curso profissionalizante e, com 16 anos, consegui emprego na função de aprendiz de assistente administrativo em um escritório de advocacia. Dobrei minhas horas de estudo, pois algo que nunca tinha passado em minha mente estava a caminho de se realizar: uma faculdade.

Resolvi me preparar para o vestibular, fiz o cursinho da Poli, quebrei de vez com aquela exclusão social, senti a liberdade e a força para buscar aquilo que tinha direito na sociedade. Prestei um dos vestibulares mais concorridos do Brasil, a Fuvest. Não consegui fazer a pontuação exigida, mas só pelo fato de estar ali, já me fez vitorioso.
Hoje, continuo trabalhando, ajudo em casa e, se não tivesse conhecido o caminho da arte, minha vida familiar estaria completamente falida e derrotada. Posso afirmar que um dos meus sonhos já se realizou e sou um ponto de referência em minha casa e também na própria comunidade.

Vivo a vida da maneira que tem que ser vivida: é preciso batalhar e vencer. O mundo colorido existe, basta acreditar e se abrir para ele. Atualmente, colaboro voluntariamente na Associação Cultural Constelação, criando produtos artesanais nos fins de semana. Meu objetivo é levar o que aprendi para toda as estrelinhas que não têm a oportunidade de conhecer seu próprio brilho.

Minha história fez com que meus amigos mudassem seus pensamentos e se abrissem para viver a vida também. Minha família tem hoje o desejo de sair da periferia e acredita que somos capazes de viver numa condição melhor.

Agora eu te pergunto: vida colorida ou em preto-e-branco?

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