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16/06/2005

Conheça os semi-finalistas do Concurso - Em busca do sucesso: ser cidadão

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Em busca do sucesso: ser cidadão


Gladys Rosa Vereau Arevalo
Salvador, BA


Numa sociedade desigual, preconceituosa e injusta, onde a miséria se perpetua em cada canto, Tom, aos 11 anos de idade, morador de Salvador (BA), ousou sair pelas ruas da cidade no ano de 1994, fugindo da miséria, da fome e das agressões do bairro que antecipavam a sua maturidade. Pensou que as ruas seriam o melhor caminho para uma vida segura. Elas lhe pareceram a melhor solução para as suas revoltas, medos e angústias, na medida em que encontrou "amigos" que lhe ofereceram "proteção" - contra grupos que lhe passavam a sensação de ameaça - e conforto - ao oferecer drogas. No entanto, não foi preciso muito tempo para que o sonho da liberdade se tornasse um pesadelo. Nos momentos de profunda agonia, os papéis de coadjuvantes se inverteram: os "irmãos de rua" se tornaram seus piores inimigos.

Nosso protagonista da história real passou então a ser vítima de todos os tipos de violência, desde a moral até a sexual. Não havia escapatória. Percebeu que, ao viver num mundo sem regras não seria protegido pelas leis que ele mesmo abdicara ao abandonar a nossa sociedade da exclusão. Tome ressaltar que, ao me referir ao "mundo sem regras", não quero dizer que o adolescente era despido de qualquer proteção jurídico-legal ou mesmo de uma punição. Simplesmente, se a lei das ruas não fosse seguida, poderia haver uma punição diferente entre eles. E o que dizer então dos garantidores do cumprimento da Lei?

É realmente assustador pensar que estes "mocinhos" também vestem a carapuça de "bandido", visto que, se aproveitam da autoridade que possuem e fazem barbaridades com as nossas crianças e adolescentes na certeza de que não serão punidos. E é nesta circunstância que encontrei Tom desiludido, um jovem
"Encontrei Tom desiludido, sem qualquer perspectiva de vida a não ser o de acordar no dia seguinte"
sem esperanças, sem qualquer perspectiva de vida a não ser o de acordar no dia seguinte.

Ao tomar ciência de que ele se encontrava diariamente nas ruas de um ponto turístico de Salvador, passei a encontrá-lo com o objetivo de realizar um trabalho de iniciação do processo educativo e resgate da cidadania daquela criança. Resgate este que, como educadora do Centro Projeto Axé, requer um pouco de cautela ao iniciar a chamada paquera. Cabe aqui, abrirmos um parêntese a fim de descrever o papel social do Projeto Axé: uma sociedade sem fins lucrativos, reconhecida internacionalmente por sua atuação na educação na defesa dos direitos da criança e adolescentes excluídos, na formação ética e cultural de jovens trabalhadores da área social, e por outras ações que seguem o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990).

Iniciado, então, o diálogo sobre o seu histórico - as motivações que o levaram àquela situação -, ele disse que preferia a rua que morar em casa, já que nela, além não haver comida, roupa e nem brinquedos, sua mãe ainda batia nele cotidianamente. Outro fator diz respeito ao bairro onde morava, um local com vários pontos de venda de drogas, onde há grande circulação de traficantes e usuários, o que torna o bairro vulnerável a tiroteios em qualquer horário do dia e da noite, deixando os moradores em pânico. A criança contou também que os traficantes impõem autoridade sobre os moradores do bairro que são contrários a compactuar com o trafico de drogas. Eles os agrediam moral e fisicamente, invadiam as casas, impediam a circulação dos moradores, batiam e violentavam crianças e adolescentes. Em decorrência deste relato, encaminhei Tom a um abrigo temporário como medida de proteção até que fosse verificada a possibilidade de retorno para sua casa.

O passo seguinte foi visitar a família da criança e constatar a veracidade do seu relato. A mãe, desempregada e abandonada pelo marido, com dois filhos para criar, mostrou-se bastante preocupada e nervosa com a situação em que a família se encontrava, mas, ainda assim, não tinha a mínima idéia de como agir para ajudá-lo.

Desde então, Tom foi acolhido na bandaxé - atividade da unidade de música do Projeto Axé - e matriculado na rede estadual de ensino. Sempre assíduo e com bom comportamento, Tom se queixava da perseguição dos traficantes - que queriam introduzi-lo no comércio de drogas -, assim como da polícia. Já adolescente, teve sua casa arrombada por policiais e ficou preso durante 24 horas por conta de uma denúncia dos próprios traficantes que, por persegui-lo, afirmaram ser ele componente do bando que possuía a droga. Nada foi encontrado em poder do rapaz.

Após tantas ameaças e transtornos, seguidos de arrombamentos, apedrejamentos e até incêndios provocados em seu lar, a mãe resolveu abandonar a casa, entregou a guarda de seu outro filho para o pai e foi para as ruas sem qualquer perspectiva. Com muito esforço, mãe e filho finalmente puderam recomeçar suas vidas, construindo uma pequena casa em outro bairro, onde Tom trabalhou como pedreiro.

"O medo de morrer pelas mãos de 'alguns policiais' fez com que Tom lutasse pela sua vida"
O jovem permaneceu no projeto entre os anos de 1994 e 2000, passando, a partir daí, a ser integrante de uma oficina profissionalizante onde aprendeu a confeccionar instrumentos de percussão. O medo de morrer pelas mãos de "alguns policiais" que costumam perseguir muitos adolescentes que atingem a maioridade, fez com
que Tom lutasse pela sua vida, vida essa que era valiosa, principalmente para zelar pelo bem-estar de sua pequena filha.

Ele teve a oportunidade e a coragem de sair do seu bairro, de sua cidade, de seu país. Atualmente se encontra no Canadá, estudando e crescendo como um jovem cidadão planetário. À luz do Estatuto da Criança e do Adolescente, por meio do Projeto Axé, sinto-me realizada por contribuir no resgate de mais uma criança que estava prestes a desaparecer, sem ao menos ter tido a chance de mostrar o seu potencial a si e ao mundo.




Você gostou desta história? Acha que os jurados podem ter escolhido para ser publicada em livro? Quem são os seus candidatos? .


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