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Causos do ECA
03/07/2006

Um pequeno médico e o grande Estatuto - Premiado do 2º Concurso "Causos" do ECA

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Categoria ECA como instrumento de transformação

Um pequeno médico e o grande Estatuto

Rosane Pacheco Pereira
Gravataí, RS

Era junho ou julho, não me lembro bem... Foi uma temporada bem difícil para nós que trabalhamos na área da saúde. Parecia que a bactéria da pneumonia e o vírus da diarréia estavam à solta por toda a pequena cidade da grande Porto Alegre. A pediatria do hospital local já estava com seus 25 leitos ocupados. A demanda de crianças era tão grande que foram colocados mais dez leitos extras. De um lado, as bactérias. Do outro, os vírus. No meio, o pessoal da enfermagem, que circulava de máscaras e luvas em zonas restritas. Quem cuidasse dos pacientes com vírus não ficava com os pacientes com bactérias. Eram necessárias medidas de prevenção.

A emergência não estava diferente. O número de crianças era tão grande que deixava de ser lotação, passava a ser uma superlotação. Havia macas por todo o corredor com crianças chorosas acompanhadas de suas mães aflitas. Nós da enfermagem não sabíamos para onde ir nem qual queixa atender primeiro. Alguns funcionários foram chamados em casa, pois, naquele dia em especial, havia uma quantidade muito maior de crianças doentes que de funcionários disponíveis. Não tínhamos nem mesmo material suficiente para atender todos que, naquela porta, batessem vomitando, febris ou convulsionando. Era uma verdadeira guerra contra o vírus e a bactéria.

O médico de plantão pediu ao rapaz da recepção para informar a quem procurasse o guichê que o atendimento tinha sido suspenso até diminuir o número de pacientes na emergência. Não tínhamos realmente condições físicas de atender mais ninguém. Foi nesse momento, em que o médico avisava o rapaz da recepção, que ouvimos a sirene da ambulância aproximar-se do hospital. Tenho certeza de que todos que ali estavam
"O atendimento tinha sido suspenso até diminuir o número de pacientes na emergência. Não tínhamos realmente condições físicas de atender mais ninguém"
sentiram o coração apertar. Sem perceber, minha colega soltou um suspiro alto:

– Tomara que não seja nenhuma criança.

Era a verdadeira visão de um hospital em guerra. E não deixava de ser uma guerra! A aflição de minha colega era a de todos nós. Infelizmente, era uma criança. Sem se dirigir ao guichê, a auxiliar que trazia a mãe e a criança entrou porta adentro com o tubo de oxigênio na mão e o soro na outra, avisando:

– É uma emergência!

Eu e minha colega olhamos uma para a outra e perguntamos mutuamente:

– Onde a colocaremos?

Quando o médico plantonista abriu a porta do consultório, mostramos com um gesto a maca. O estado da criança que era trazida naquela manhã de guerra era muito triste. O médico examinou o menino e, ligeiramente, foi montada uma pequena Unidade de Terapia Intensiva (UTI) naquela minúscula sala. A criança precisava ser transferida porque no nosso hospital não havia UTI. Depois que acomodou a criança, o médico pediu à enfermeira uma auxiliar somente para ela. Eis que eu fui designada a ficar com o garotinho, que precisava de cuidados constantes. Qualquer descuido poderia ser fatal. O médico foi para a recepção telefonar para todos os hospitais de Porto Alegre e da Grande Porto Alegre, mas em nenhum havia leitos disponíveis. A mãe da criança chorava desesperadamente, mas não deixava de acariciar a mão do pequenino, que parecia estar dando seus últimos respiros.

A manhã passou voando. Tínhamos agora instalada outra guerra, desta vez contra o tempo. Às 13 horas trocou o plantão. Entrou um médico bem novinho. Tinha aparência de um jovem recém-formado. A mãe da criança aproximou-se de mim e perguntou baixinho:

– Este é o médico?

– Sim - respondi enquanto ajeitava as sondas do paciente.

– Mas ele já é formado?

O médico, que examinava toda a ficha da criança, falou delicadamente:

– Sou formado, sim, mãe. Não se preocupe, teu filho está em boas mãos.

– É que o senhor é tão novo...

– Mas o que vou fazer não precisa nem de faculdade de medicina – respondeu ele, dirigindo-se ao telefone.

A mãe olhou-me buscando uma resposta e eu também não lhe soube dizer. Ficamos apenas esperando a atitude daquele jovem doutor, que a pouca gente convenceria ser médico. Ele simplesmente pediu uma ligação para a secretaria de saúde do município e
"O médico foi para a recepção telefonar para todos os hospitais de Porto Alegre e da Grande Porto Alegre, mas em nenhum havia leitos disponíveis"
exigiu, em tom autoritário (quem estivesse do outro lado da linha pensaria ser um homem alto, forte e muito “brabo”), falar com o secretário. Levou alguns instantes para este ser localizado. Ainda na linha, o jovem doutor mais uma vez identificou-se e expôs ao secretário a situação caótica em que se encontrava a emergência do hospital e o caso da criança que morreria se não conseguisse vaga numa UTI. Depois de alguns
segundos para respirar, ele disse com segurança:

– Preciso, eu, lembrar o senhor do Estatuto da Criança e do Adolescente, que diz claramente que toda criança tem o direito à saúde e ao atendimento especializado caso necessite? Está na lei. Mas isso – disse ele educadamente, piscando os olhos para a mãe que assistia a tudo perplexa – eu não preciso informar, não é? A criança necessita de uma UTI em uma hora, caso contrário o município e o estado serão os responsáveis pelo seu óbito.

O jovem doutor escutou mais alguns segundos. Desligou o telefone e disse para a mãe:

– Não se preocupe, mãe. Agora tudo será resolvido.

Minutos mais tarde, recebíamos a notícia de que um leito estava nos esperando no Hospital Santo Antônio. A mãe, num instinto, abraçou em lágrimas o pequeno e jovem médico. A criança foi imediatamente transferida e, meses mais tarde, retornou ao hospital saudável para agradecer ao jovem e inteligente doutor. Assim, uma vida foi salva graças ao médico que fez valer o Estatuto que protegia a criança.

 



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