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15/03/2006

Educação integral é possível no Brasil?

15 de março de 2006
sob a coordenação da
Agência de Notícias dos Direitos da Infância
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Quando se fala em educação em período integral, o atraso do Brasil em relação a alguns dos vizinhos americanos fica evidente. A Argentina pensou nisso há mais de 40 anos, o Chile há pelo menos 30 e até a Colômbia, que sofre há décadas com grandes conflitos internos, apresenta boa concepção pedagógica com projetos integrados às necessidades de cada região. A análise é da pesquisadora Bernardete Gatti, coordenadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas. Ela ressalta ainda que no País uma questão fundamental emperra qualquer programa educacional: a falta de fixação da equipe escolar. "Todo ano há remoção de diretores, transferência de professores e rescisão de trabalho de contratados, especialmente na periferia, o que prejudica a eficiência e a continuidade de qualquer atuação pedagógica", afirma.

Secretário da Educação Básica do Ministério da Educação, Francisco das Chagas Fernandes coloca a possibilidade de ver as crianças brasileiras na escola o dia inteiro mais longe ainda. "Nossas prioridades ainda são a universalização - colocar todas as crianças na escola; incluir a educação infantil e melhorar o ensino médio. Temos cerca de 160 mil escolas públicas de ensino fundamental e médio e há dificuldades em garantir pelo menos quatro horas e meia de aula já que muitas trabalham em três turnos", explica. O governo se apoia no "novo" Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) para mostrar avanços. "Aumentamos a participação federal na educação básica de R$ 450 milhões para R$ 4,5 bilhões gradativos nos próximos quatro anos", justifica Fernandes. O ministro Fernando Hadad assegura que o ministério está avaliando uma proposta da União nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) a respeito. "A sugestão é estabelecer na lei que regulamentará o Fundeb um valor per capita diferenciado para alunos de escola de tempo integral", afirma Hadad.

O que se espera é que isso estimule Estados e municípios a tornar a educação integral uma realidade. De qualquer forma, já contamos com algumas iniciativas. Em Belo Horizonte, Minas Gerais, há 57 unidades de ensino em tempo integral que atendem 2,8 mil alunos do fundamental e da educação infantil. Na proposta
"Nossas prioridades ainda são a universalização - colocar todas as crianças na escola; incluir a educação infantil e melhorar o ensino médio", diz o ministro da Educação
pedagógica mineira estão previstas atividades de escolha dos estudantes, trabalhos dentro e fora da sala de aula e investimentos em artes, teatro, música e saúde, envolvendo a comunidade e organizações civis. Em São Paulo, o governo estadual lançou em janeiro o seu projeto para 138,4 mil alunos de 500 escolas estaduais - cerca de 10% das unidades de ensino fundamental. Com jornada de nove horas, o aluno terá pela manhã as disciplinas curriculares e à tarde oficinas culturais, artísticas, esportivas, de orientação aos estudos, informática, educação ambiental e qualidade de vida, incluindo até meditação. "A participação de entidades civis é bem-vinda, mas na capacitação dos professores", esclarece Sônia Maria Silva, coordenadora de Estudos e Normas Pedagógicas da secretaria estadual de educação de São Paulo.

Nestes casos, a grande discussão é o que se entende por educação integral e qual a melhor forma de articulá-la. Principalmente porque a sociedade civil se adiantou às políticas públicas, criando organizações e espaços de complementação ao estudo formal. A maioria foi criada com fins de proteção social, mas acabou originando experiências eficientes para o desenvolvimento global do aluno. E a educação integral não pode ser entendida só como o aumento do tempo de permanência na escola. "É preciso ver a criança como corpo, mente e afeto. Perceber como pensa, aprende e se expressa emocionalmente", pontua Marta Scarpato, professora de didática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), de São Paulo, constatou a presença de cerca de 15 mil organizações não-governamentais que trabalham com programas no pós-turno escolar no País. O levantamento foi feito para o Prêmio Itau-Unicef, criado para dar visibilidade a essas ações. Grande parte dessas instituições mantêm parcerias com secretarias
"É preciso ver a criança como corpo, mente e afeto. Perceber como pensa, aprende e se expressa emocionalmente", diz professora de didática da PUC-SP
municipais e estaduais de educação. Na visão da pedagoga coordenação do Cenpec, é importante que a escola não seja compreendida como único espaço de formação. "Sempre há o risco de o mesmo padrão da educação formal se repetir. E a aprendizagem acontece em cada experiência com a qual a criança é confrontada", defende ela. "O aluno precisa de outras redes de convivência para se inserir e se formar como cidadão. O

preparo destas organizações civis ou de profissionais especializados é muito maior. Eles têm autonomia para ações muito mais criativas", completa.

Um exemplo de eficiência é a Associação Comunitária Monte Azul, várias vezes premiada pelo trabalho de complementação educacional que realiza na capital paulista há 27 anos, 12 deles em parceria com a prefeitura. O conceito que fundamenta todas as atividades é o desenvolvimento integral de crianças e jovens, por meio de educação, saúde, cultura e desenvolvimento social. Há intensa programação de teatro, música, dança e artes plásticas, inclusive com produções próprias, além de creches, reforço escolar e cursos profissionalizantes. Atualmente, a associação atende 1800 crianças e jovens, dos três meses de idade aos 18 anos, na área de educação e cultura, mais 2500 pessoas por mês nos ambulatórios médicos. "Trabalhamos com a pedagogia Waldorf, criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), que prioriza não só o desenvolvimento cognitivo da criança mas também o emocional, por meio da arte, e valoriza a realização pessoal com projetos concretos. Nosso modelo já inspirou outras iniciativas em todo o Brasil", relata Renate Keller Ignácio, uma das coordenadoras do projeto. Aí está um bom motivo para comemorar.

 

* Jornalistas Amigos da Criança é um projeto da ANDI
Autora do texto: Rita Moraes, repórter da revista IstoÉ, Jornalista Amiga da Criança diplomada em 1999.


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