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Causos do ECA
16/06/2005

Conheça os semi-finalistas do Concurso - Uma sociedade solidária é uma sociedade salva

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Uma sociedade solidária é uma sociedade salva


Luciana Ribeiro Barros
Matias Barbosa, MG



Treze de janeiro de 2003 nunca sairá do "meu" calendário. Conheci um empresário jovem, de sucesso, de decisões rápidas, de fala objetiva, corajoso como a maioria e solidário como nem tantos... Ah, um detalhe: apaixonado pela Educação e completamente consciente do poder de mudança e de inclusão que uma boa escola tem na vida de qualquer pessoa.

Ele me encomendou um projeto educacional: montar e dirigir uma escola de elite gratuita aos filhos de famílias de baixa renda da comunidade e ligadas a empresas clientes.

Uso o termo "uma escola de elite" porque a referência de escola desejada é a escola de seus próprios filhos, uma das mais caras e mais bem conceituadas do Rio de Janeiro. Pensamos então nesta escola bilíngüe (inicialmente com Inglês a partir da Educação Infantil e Espanhol a partir da 5ª série), de horário integral com atividades de teatro, dança, música, artes, além do currículo comum da Educação Infantil dentro do Sistema Montessori.

Batizamos essa deliciosa idéia de Escola Internacional Pangea, internacional pelo padrão e método de escolas internacionais e Pangea pelo sentido global e multiculturalismo que o termo traz, advindo da hipótese de Alfred Wagner: a de nosso continente ter sido há 250 milhões de anos um continente único.

Fomos mãos à obra à seleção das crianças, aliás, das famílias que hoje fazem parte dessa história. No contexto dessa comunidade não há escola pública de 0 a 6 anos, muitas mães necessitam trabalhar e não têm com quem deixar os filhos, como a maioria por todos os cantos do Brasil.

Fizemos o levantamento das famílias mais necessitadas na comunidade por meio do Serviço Social da Prefeitura de Matias Barbosa. Para os colaboradores de empresas, pedimos aos responsáveis de Recursos Humanos um levantamento daqueles que recebiam até dois salários mínimos e que tivessem filhos entre três e quatro anos de idade. Definimos esta faixa etária para a primeira turma em função do perfil dos recursos humanos disponíveis, espaço físico e experiência com o bilingüismo para um grupo com restrições socioeconômicas.

Formada a equipe, fizemos a leitura dos questionários socioeconômicos das famílias interessadas, nos dividimos e fomos até suas casas. Recordo-me como eles nos olhavam desconfiados, principalmente as famílias da comunidade, não ligadas a empresas, que não tinham qualquer informação prévia sobre nós.

Numa determinada casa, em meio ao nosso bate-papo, o pai da criança cochichou com a esposa: "Isso está parecendo pegadinha do Faustão".

Falávamos de algo a ser construído, de uma idéia que se rascunhava ainda no papel e fazíamos um convite que eles participassem e acreditassem, o que ficava ainda mais difícil quando dizíamos que a escola seria totalmente gratuita aos seus filhos. A reação de
"A reação de algumas famílias era de apatia. Eles simplesmente não acreditavam"
algumas famílias era de apatia. Eles simplesmente não acreditavam.

Também escutamos de uma mãe: "Mas esse é meu único filho, que me faz companhia. Um dia inteiro de escola é muito tempo, não é não?".

Em outra casa, é como se víssemos um bilhete premiado de loteria sendo rasgado quando a mãe agradeceu nossa visita e justificou sua recusa a participar do projeto: "¬Não posso ficar sem ela (se referindo à filha de quatro anos que estava sentada no chão da cozinha). Ela é quem brinca e olha a mais nova, de dois anos". Perplexa, me senti impotente remando contra a descrença na Educação e na possibilidade de mudança. A responsabilidade que já carrega a criança de quatro anos, sua chance roubada. Como explicar os diferentes rumos que aquela vida poderia ter? Em minha mente vinham flashes daquela criança e de sua família dali a 20 anos. Percebi com a conversa que não conseguiria convencê-la, algumas horas de atenção e esclarecimento contra anos de exclusão.

"Diziam algumas pessoas que fossem crianças 'bem inteligentes'. Então, caso de deficiência seria uma ameaça ao sucesso do projeto ou um 'desperdício' do investimento na escola"
Ao longo do processo seletivo ouvi mais de uma vez alguns conselhos e sugestões de que eu avaliasse as crianças, pois um projeto tão custoso merecia retorno dessas crianças no futuro... Melhor, diziam algumas pessoas que fossem crianças "bem inteligentes". Então, caso de deficiência seria uma ameaça ao sucesso do projeto ou um "desperdício" do investimento na escola.

Tivemos que pensar em um critério de seleção, uma vez que o número de vagas é bem menor do que a
demanda e sendo um projeto de longo prazo - pelo menos dez anos de ensino para cada criança - é desejável atuar com famílias que contribuam para a permanência da criança na escola.

Caminhando tranqüila com minha consciência em consonância com a legislação, que dizem surgir quando falta bom senso ao homem, busquei selecionar famílias que acreditassem na educação assim como o autor desse projeto crê, famílias com alto nível de resiliência* e que pelo menos um membro dessa família amasse muito essa criança que caminha conosco agora.

Atrelado a essa idéia de seleção está a concepção de escola como pequena amostra da teia social: heterogênea, devendo, portanto abraçar a diversidade no seu papel de educar a humanidade para uma sociedade inclusiva.

Após um ano e nove meses de trabalho com as vinte e cinco crianças, posso dizer que a que mais nos ensina é a criança com deficiência. Que duas crianças no grupo se destacam pelo alto nível de inteligência em todas as áreas. Que algumas se identificam muito com a música, outras com a matemática e outras com outras disciplinas. Podemos dizer que todas estão
"Podemos dizer que todas estão imensamente felizes e salvas, pois são crianças amadas, interessadas e que têm suas potencialidades desenvolvidas"
imensamente felizes e salvas, pois são crianças amadas, interessadas e que têm suas potencialidades desenvolvidas.

É função da escola, da família e da sociedade despertar interesse nas crianças. Como dizia Dra. Maria Montessori e atualmente a Professora Celma Perry, "uma criança interessada é uma criança salva", assim como - vislumbrando a ampliação e multiplicação de nossa escola - podemos dizer que "uma sociedade solidária é uma sociedade salva".


* Resiliência é um termo da Física, significando resistência. Aplicado às Ciências Sociais diz da capacidade de percebermos soluções em meio à crise, enfrentar o problema como momento de mudança e usar a mudança para sua melhoria.




Você gostou desta história? Acha que os jurados podem ter escolhido para ser publicada em livro? Quem são os seus candidatos? .


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