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Causos do ECA
19/09/2007

Esperança que não se chama papelão - Finalista do 3º Concurso Causos do ECA

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Categoria "ECA como Instrumento de Transformação"
Juliana Inês Casa
Farroupilha (RS)

Assessora de imprensa e estudante de Jornalismo

Esperança que não se chama papelão

Manhã cinza na Serra Gaúcha. Não está frio. Bolinha salta o morro, desce numa esperteza daquelas... Oh! Bichinho faceiro da vida! Vem cheirar as pernas dos visitantes e acho que não detecta perigo, porque pára. Permanece quietinho, de orelha em pé. Atrás dele vem a dona Joana, dona do cachorro, dona da casa no morro em terra que não é sua, mas que vem sendo seu teto, do marido, dos quatro filhos, de um amigo da família e de dois cachorros. Todos moram numa construção feita pelo esposo de dona Joana, servente de pedreiro, e pelo filho mais velho, de 17 anos, que está em busca de emprego. Há dois anos que ela vive naquele cantinho escondido, mas diz que gosta do sossego e que sente proteção. Nem reclama do asfalto ao lado, um importante acesso à região.

- Sabe que aqui é bom? Para as crianças, é ótimo.

"Aqui" é o Bairro Industrial, em Farroupilha (RS). Não fosse a falta de água e luz, para Joana, este seria o local ideal. O que cansa são as caminhadas de duas ou três quadras para lavar roupa, apanhar a água do banho e do preparo da comida. Energia elétrica? Também não tem.

- Isso é o de menos, a água é que é problema mesmo - ela afirma.

Dona Joana conta que a vida ficou melhor depois que sua família passou a ser atendida pelo Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). Ela explica que recebe a ajuda desde 2005 e que agora o filho mais velho não precisa mais catar papelão, nem os menores precisaram aprender esse ofício. Pelo contrário, eles freqüentam a escola e o centro ocupacional do município.

- O importante é que os meninos estão estudando. Às vezes preciso de ajuda e peço para ficarem em casa, mas eles não faltam - ela conta, satisfeita.

Essa mãe simples pode não conhecer o ECA, mas compreende seu teor. Ela sabe mais ainda do seu papel de mãe, empenha-se para proporcionar aos filhos condições que talvez lhe tenham sido negadas
Essa mãe simples pode não conhecer o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas compreende seu teor. Sabe que é dever da família, da sociedade e do poder público assegurar os direitos à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à cultura e à dignidade para as crianças e adolescentes. Ela sabe mais ainda do seu papel de mãe, empenha-se para proporcionar aos filhos condições que talvez lhe tenham sido negadas.

A assistente social que acompanha a família diz que dona Joana participa de todas atividades do PETI e se destaca pelo entusiasmo e pela persistência. Afirma que ela é muito caprichosa, está sempre arrumada, preocupa-se com a higiene e o sustento da família. É uma jovem senhora de 46 anos que sonha com tempos melhores, embora água e luz não sejam o fundamental, "porque o que importa são as crianças na escola". Assim ela vai buscando alternativas.

- Minha vida mudou, ah, nossa! Faço coisas que eu não sabia fazer: sabão, pintura, doces, mantas, detergente líquido. É tão bom!

Joana freqüenta oficinas profissionalizantes e artesanais gratuitas e palestras de relacionamento familiar. São atividades para orientar os pais e assegurar o que está previsto no ECA, como a proibição de qualquer trabalho a menores de 14 anos, salvo na condição de aprendiz, na qual, de fato, o serviço de catar papelão não se enquadra. É considerada criança, ainda segundo o Estatuto, a pessoa até 12 anos incompletos, e adolescente aquela entre 12 e 18 anos.

Em meio à conversa, desponta, no alto, o pequeno de cinco anos, a reclamar a ausência da mãe. Veste uma camiseta da seleção brasileira. Espia quieto e volta para casa. Viu a mãe e ela logo entra. Mais tarde, um focinho aparece, e é dos grandes. Bem, se esse cachorro aos meus pés é Bolinha e seu nome for proporcional ao tamanho, aquele deve ser Bolão, outro morador da esperança, do canto sossegado no morro, perto do asfalto. Mas quem é que liga?

- Aqui é bom e as crianças estão longe das ruas - continua dona Joana.

Ela vai lavar roupa à tarde, aproveita que o tempo está agradável. A guarda da casa deve ficar com Bolão, porque Bolinha brinca demais. Aliás, ele e dona Joana combinam: saltam ágeis em meio aos buracos. Imagino como deve ser difícil subir a encosta quando chove e está úmido. Mas eles têm prática, por isso mesmo é que um pedaço de terra é pouco para ser o tudo da gente da esperança. Bolinha e Bolão brincam com o ar, com bolas de sabão, na manhã de inverno no morro.

Os dois garotos são bem educados, ativos, e estavam ansiosos pelas apresentações e pela comilança. Agora entendo o sorriso no rosto daquela mãe
Um dos meninos, Carlinhos, é loiro, um pouco mais falante. O outro, João, tem cabelos negros, lindos, pele escura. Visito os irmãos no centro ocupacional, também no Bairro Industrial, bem na festa de São João. A instituição atende 300 crianças e adolescentes e é mantida pela prefeitura. Os dois garotos são bem educados, ativos, e estavam ansiosos pelas apresentações e pela comilança. Agora entendo o sorriso no rosto daquela mãe.

João tem 14 anos e Carlinhos, 11. Dizem que gostam de tudo o que o Centro oferece. Jogam bola e querem ser profissionais. Morar numa casa sem água e luz, dizem eles, é difícil mesmo.

- Tem que puxar água de outro lugar, nos baldes - conta Carlinhos e o outro concorda, balançando a cabeça.

- E se vocês morassem numa casa com água, luz, conforto, mas sem estudar, o que achariam?

- Ah não, moça! Aí a gente não ia querer... - eles garantem, e eu, logo penso, que nem o ECA permitiria.

Faz frio nessa tarde em Farroupilha e fico aliviada de ver os dois bem agasalhados. Os olhares são de pura esperteza, não vejo incerteza neles. Lembro-me do dever de todos em velar pela dignidade da criança e do adolescente, de garantir, no processo educacional, o respeito aos valores culturais, artísticos e históricos de seu contexto social. Nessa instituição, ao menos, tudo está sendo aplicado. Outro alívio.

Os dois não coletavam papelão. Era o irmão mais velho que o fazia aos 13, 14 anos, mas se não fosse por esse programa que auxilia a família e exige as crianças na escola, agora certamente eles não estariam aqui, aguardando a chegada do pinhão, da pipoca e do amendoim. Talvez estivessem a vasculhá-los no lixo, em meio a restos, depois da festa, buscando papel e plástico para ser vendido. Então estariam sem água, sem luz, sem escola, recolhendo papelão como quem guarda a própria esperança, não para vendê-la, mas para tê-la, umas poucas vezes.


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