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Causos do ECA
19/09/2007

O anel que tu me destes - Finalista do 3º Concurso Causos do ECA

Categoria "ECA como Instrumento de Transformação"
Andréa Nunes Faria da Silva
Ourinhos (SP)

Conselheira tutelar e educadora
 

O anel que tu me destes

Janeiro de 2002. O trabalho exaustivo do dia está praticamente no final. Arrumo minhas coisas com aquela sensação de dever cumprido, repasso mentalmente as atividades da noite e me lembro de que hoje é dia de plantão! Então, apesar do fim do horário comercial, sei que ainda poderei ser chamada para algum atendimento. Quando estamos perto das 17h30, Maria, nossa secretária, me chama, pedindo que eu atenda aquela criança.

"Aquela criança" é um menino de 14 anos chamado Anderson, que vem até o Conselho Tutelar pedir ajuda para sua irmã: Flávia, de apenas 13 anos, vítima de violência sexual dentro de casa. O adolescente, muito assustado, me pede sigilo e começa a contar sua história...

O pai é alcoólatra e a mãe reside com um companheiro. Este mantém diariamente relações com sua irmãzinha, uma menina que entrega seu corpo sem ter a mínima noção das conseqüências; uma adolescente que quer apenas brincar, mas não pode; quer ir para o colégio, mas não pode; quer ter amigos, mas não pode. Não pode porque seu padrasto, seu Antenor, se acha dono de seu corpo, de seus pensamentos e de suas ações. Não pode porque sua mãe, dona Nadir, tem de trabalhar para sustentar a casa e acha muito normal a filha ser "namorada" do marido. Não pode porque violam seus direitos fundamentais.

Ouço o relato dolorido de Anderson e tento, desesperadamente, entendê-lo e pensar na forma adequada de fazer com que cessem imediatamente as violações de direitos sofridas por Flávia. Despeço-me dele depois de tranqüilizá-lo e me dirijo à residência da família, que fica num bairro da periferia de Ourinhos (SP). Chegando lá, Flávia atende a porta. Percebo que marcas vermelhas, grandes, ferem seu corpinho miúdo, magro... Meu coração se contorce dentro do peito, as lágrimas chegam à porta dos meus olhos, porém a razão controla a emoção naquele momento e consigo realizar meu atendimento.

 
 
A cada relato daquela adolescente, percebia-se que seu coração sangrava. Tudo o que ela dizia era que queria brincar, ir para a escola, porém "ele" tinha muito ciúme
 
 
Na casa, ninguém nega. Tanto seu Antenor quanto Flávia falam do assunto normalmente. Apenas aqueles que têm sensibilidade para perceber dor, amargura e desespero, como o Anderson, notam a agonia pela qual passa nossa personagem. Assim como eles, ajo tranqüilamente, para que meu trabalho tenha o final desejado. Peço então que eles me acompanhem até um local onde essa situação irregular possa ser formalizada. Prontamente seu Antenor se veste e nos acompanha.

Dirigimos-nos a uma delegacia especializada na defesa da mulher. Ali seu Antenor entende que, na verdade, a regulamentação da situação tem outro nome. Nesse momento, ele se torna violento. Peço então reforço a um policial, que controla seu Antenor e lhe pede que dê apenas esclarecimentos.

Assim aconteceu. Fizemos um boletim de ocorrência. A cada relato daquela adolescente, percebia-se que seu coração sangrava. Tudo o que ela dizia era que queria brincar, ir para a escola, porém "ele" tinha muito ciúme. Seu padrasto dava-lhe muitos presentes. Um de que ela havia gostado era um anel, "daqueles que têm uma pedra que brilha em cima", dizia ela. Flávia relatou minuciosamente aquilo que acontecia há mais ou menos seis meses em sua casa.

Terminada a parte legal, foi minha vez de agir. Comuniquei à Flavia que ela não voltaria para casa. Seu rosto se abriu em um largo sorriso; eu não conseguia identificar se era um sorriso de alegria ou apenas um sorriso de alívio, mas o fato é que, depois de quatro horas junto com Flávia, eu a vi sorrir. Meu coração também sorriu e demonstrei isso dando-lhe um longo abraço.

Antes, porém, de terminar meu dia, eu teria de encontrar Anderson, pois não poderia entregá-lo nas mãos daquela família, que estaria certamente em crise durante a noite. Fui novamente à casa de seu Antenor e dona Nadir. Ao chegar lá, agradeci silenciosamente a Deus, pois foi exatamente Anderson quem me abriu a porta. Pedi que ele viesse comigo. Dentro do carro, conversamos longamente sobre tudo o que aconteceu e lhe perguntei se ele queria vir conosco para o abrigo. Imediatamente ele concordou. Nesse momento, os dois irmãos se abraçaram e choraram muito. Juntei-me a eles. Não consegui controlar meu coração, por tudo aquilo que tinha visto e ouvido!

No outro dia, pude conversar mais calmamente com aqueles dois irmãos. Eu os havia colocado num abrigo, a salvo de qualquer violação de seus direitos! Fiquei muito feliz em constatar que Anderson tomou coragem para denunciar seu padrasto depois de ouvir uma palestra, em sua escola, sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ministrada por mim! Isso me mostrou que todos os nossos atos são importantes, mesmo que não estejam diretamente relacionados às nossas funções.

Depois de cumpridas todas as formalidades de praxe, os abusadores foram presos, situação em que se encontram até hoje. Atualmente, tanto Anderson quanto Flávia vivem tranqüilos. Um já tem 18 anos completos e a outra é adolescente aprendiz no município. Ambos fizeram a diferença no meio a que pertencem; ele, na casa de uma tia, e ela, no abrigo, enquanto aguarda sua maioridade. Com o dinheiro que juntaram, estão sendo auxiliados pelas entidades de nossa cidade a construirem sua própria casa, onde poderão viver juntos em paz e harmonia.

 

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