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Causos do ECA
16/06/2005

Conheça os semi-finalistas do Concurso - Colcha de retalhos

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Colcha de retalhos


Débora Brenga
Sorocaba, SP


Gente grande é engraçada, vive com seu olhar crítico matando os sonhos de jovens e crianças, porém nem todas, felizmente! Lembro-me bem ao jogar, literalmente, o meu maior sonho numa lixeira: um troféu pelo melhor texto de teatro da escola onde eu estudava. É que o troféu não chegara em minhas mãos como eu pensava, porque do jeito que eu pensava, quer dizer, pelo júri do festival de teatro não dava pra ser: o júri não havia gostado do texto. Mentira, eu bem sabia. O que o júri não havia gostado, eram das verdades que uma adolescente apontava sobre uma sociedade hipócrita, o que incomodava. E como! Melhor dizer que não havia melhor texto. Uma mentirinha de nada, o que é que tem?

Então, a professora Maria me chamou lá ao palco e me deu o troféu, por sua conta e risco. Eu adorava aquela professora, muito! E para não chateá-la, aceitei, mas, lá dentro do meu coração de menina que queria por meio das palavras desbravar e desfraldar o mundo e suas verdades, não pude compactuar com aquela mentirinha. Eu pensei: vou jogar esse troféu no lixo, essas pessoas não merecem me ler. Assim fiz.

Isso foi lá na década de 70, talvez 73, por volta dos meus 15 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente ainda não existia, mas já existiam educadores provocadores, capazes de coibir atos constrangedores àqueles que, ainda, estavam em desenvolvimento.

Porém, o que eu não sabia é que, ao jogar o troféu no lixo, jogava todo o meu sonho de ser uma jornalista, de viver das minhas escrituras. E quando eu digo viver delas, não digo só no sentido material, não! Digo sim,
"Ao jogar o troféu no lixo, jogava todo o meu sonho de ser uma jornalista"
de viver da energia delas, das palavras que contagiam, impregnam, decifram e traduzem.

Mas voltando àquela noite fria de junho, o meu sonho foi parar em algum lixão.
Do troféu eu me lembro bem. Era danado de bonito! Da raiva, então, nem se fala!
Eu fiquei de luto sem saber que aquilo era luto, porque eu não tinha idéia de que, ao enterrar as palavras em meu coração, me fechava para o mundo. De lá pra cá muitas "palavráguas" rolaram, levando muito tempo para eu perceber o que eu havia feito comigo.

Um dia, na repartição pública, eu olhei para os móveis empoeirados e as pessoas tão cinzas e fiz uma poesia. E fiz mais outra e outra... Lembrei do troféu jogado no lixo e revi o sonho morto. Quis resgatá-lo, mas tentei pela cabeça, porém os sonhos vivem no coração, e assim, continuei enlutada, sem ter consciência disso.

Mais tarde, tornei-me professora de educação infantil. Era década de 90, ano de 93. Duas décadas haviam se passado e apesar do luto fui ouvindo as histórias das minhas crianças.

Foram elas, as histórias e as crianças, que muito lentamente, me fizeram perceber o que eu fazia comigo. Eu não ouvia, com o coração, a minha própria história. Eu só a ouvia com a cabeça, dizendo o tempo todo, que um dia um júri roubara o meu sonho de menina.

As minhas crianças foram as luzinhas daquele coração enlutado. Enquanto eu ouvia as histórias que vinham delas, resgatava a minha própria. "Desenlutei" aquele coração, sem me dar conta disso. Fiz com elas o que a Maria fez comigo.

Um dia, soube que uma garotinha desejava saber para onde é que a palavra vai, ao ser apagada. Também quis saber e inventei a Rita-Cabrita: uma menina muito perguntadeira, que descobriu a Cidade dos Erros. Só que eu não conseguia chegar até lá. De 1998 a 2002, a história ficou engavetada como, até então, fazia com todos os meus escritos.

Eu só fui acessar o portal dessa cidade, ao descobrir que o meu maior erro fora entregar o meu sonho de menina nas mãos de homens por demais engravatados e, quando pedi socorro aos pequenos de pés descalços, pude resgatar o velho sonho de garota boba. Criei coragem e lhes apresentei a Rita-Cabrita com seu tio Artur Cara-de-Abajur.

Que coisa boa sentir a energia que vinha daquelas crianças! Logo se tornaram amigas dos meus amigos ficcionais e foram elas que me ajudaram a entrar à Cidade dos Erros, porque o sonho era meu e só em minhas mãos poderia estar.

E a história que eu pensava ser só minha, passou a ser de todos, pois toda a turma me ajudou em sua construção. Outros personagens, não tão ficcionais assim, quiseram participar dessa festa: Thomas Alva Edison veio sussurrar ao pé de nossos ouvidos que um erro leva-nos ao acerto. Por isso, três mil tentativas até inventar a lâmpada, foram apenas descobertas de como não se faz a lâmpada.

Drummond apareceu com a pedra no caminho, interpretada como um desafio necessário para quem quer se aventurar ao sabor da vida.

Nascia, assim, o livro infantil "No meio do caminho tinha uma luz", que foi editado por uma comissão julgadora da minha cidade, em um processo que teve seu início em 2003. E não é que a minha ex-professora Maria fazia parte dela?

"Todas as luzes desse caminho tortuoso se acenderam. O coração enlutado se abriu"
Aí, todas as luzes desse caminho tortuoso se acenderam. O coração enlutado se abriu, escancarou a janela para que o sol lhe invadisse todas as manhãs. Um ciclo se fechava para se abrir outro cheio de histórias bonitas e gostosas de se contar.

As crianças adoram a Rita e nas tardes de autógrafo, das quais tenho participado como autora de meu sonho, sinto-me grata, quando elas me procuram para dizer que gostam sim da história, que aprendem muito com a Rita e a Cidade dos Erros.

Hoje eu sei que não basta criar histórias para crianças. Porque as histórias devem vir delas. Eu as ouço com os ouvidos de meu coração e, depois, transformo, o que elas me dizem, em histórias que são delas, porque faço com elas e não, apenas, para elas. Nessas histórias somos todos autores, personagens, leitores, pois são enredos tecidos com as histórias que saem de nós.

Hoje eu sei que este causo que eu conto agora é a minha história, toda feita com pequenos pedacinhos coloridos de Gustavos, Rafaelas, Marianas, Moniques, Ednilsons, Larissas, Claras... Déboras, Ritas-Cabritas e Marias, onde o ponto de chegada foi, também, o meu ponto de partida.




Você gostou desta história? Acha que os jurados podem ter escolhido para ser publicada em livro? Quem são os seus candidatos? .


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