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Causos do ECA
14/07/2005

Confira quem são os vencedores do Concurso - Karina quer voar

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Karina sonha voar


Marcionila Teixeira de Siqueira
Paulista, PE



Karina Vale Ramalho tinha apenas 7 anos de idade quando começou a fazer serviços domésticos na casa dos "tios". Na verdade, tios por consideração, não de sangue. É que a menina foi criada naquela casa em um bairro periférico do Recife, Pernambuco, onde sua mãe trabalhava como empregada doméstica. Enquanto era pequena, foi "poupada" pelos tios de entrar na mesma sina da mãe. Mas bastou completar 7 anos para começar a exploração.

A menina começava sua rotina às 6h30 da manhã. Eram pilhas de pratos do café da manhã para lavar, roupas para engomar, faxina na casa de dois andares para fazer e até sujeira de cachorro sobrava para a criança limpar. O serviço acabava às 15h, porque Karina seguia para a escola. "Minha tia queria que eu voltasse para o serviço, mas eu dizia que não dava, mentia, dizia que precisava estudar para uma prova. Não agüentava porque era muito cansativo", lembra ela.

O que mais revoltava Karina era o fato de que, na casa dos "tios", existiam vários adultos que não faziam nada, as filhas dos "tios", consideradas por ela própria como "irmãs": "Elas ficavam no sofá, deitadas, mandando eu fazer tudo ao mesmo tempo. Achava errado tudo aquilo".
"O que mais revoltava Karina era o fato de que, existiam vários adultos que não faziam nada"

Nessa casa, a mãe de Karina recebia somente 40 reais por mês para trabalhar de segunda a sábado. Dos 7 aos 14 anos, a menina trabalhou no lugar da mãe, uma mulher de 25 anos que começou a trabalhar como doméstica aos 14. Até que esta encontrou um emprego que pagava um salário mínimo, e saiu da casa. Assim como a mãe, Karina recebia R$ 40,00 por mês para trabalhar a semana toda, folgando apenas no domingo.

Criada naquele ambiente que lhe era apresentado como "familiar", Karina crescia e repetia a sina da mãe: explorada desde cedo no trabalho infantil doméstico. Um dia, na escola pública onde estudava, a menina foi informada de que poderia deixar o trabalho na casa dos "tios" para integrar o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), do Governo Federal, e que sua família receberia uma ajuda de custo mensalmente. Na mesma escola, ela soube que poderia participar de um projeto da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com o Centro Dom Hélder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec), uma organização não-governamental do Recife que busca retirar meninas e meninos do trabalho infantil doméstico.

Depois de cinco anos trabalhando, Karina descobriu que o que fazia era ilegal e que, sendo criança, tinha direito de brincar e estudar. De empregada doméstica, a menina passou a ser agente de prevenção e erradicação do trabalho infantil com outras 39 jovens. A partir daí, a garota desenvolveu trabalhos de conscientização com outras crianças e adolescentes da comunidade onde morava, chegando a elaborar um projeto na área de direitos humanos para crianças e adolescentes.

"Quero virar aeromoça e estudar. Nunca mais quero trabalhar na casa dos outros"
A mudança no rumo da vida de Karina aconteceu em 2002. Três anos depois, ela ainda guarda um exemplar do Estatuto da Criança e do Adolescente em sua casa para consultar quando precisa. Foi considerada uma das melhores agentes multiplicadoras do Cendhec e será convidada a integrar outro projeto da ONG como
monitora de agentes multiplicadores: "Quero virar aeromoça e estudar. Nunca mais quero trabalhar na casa dos outros", diz com firmeza. Para isso, a menina de 13 anos já entrou num curso preparatório para ingressar na Aeronáutica e realizar seu maior sonho.

O trabalho doméstico pode ser exercido somente a partir dos 16 anos e, ainda assim, sem que haja prejuízo das garantias de proteção legal, devendo ser compatível ao desenvolvimento físico, mental e psicológico, em horário adequado, sem prejuízo da atividade escolar e assegurando os direitos trabalhistas vigentes.

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