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Causos do ECA
16/06/2005

Conheça os semi-finalistas do Concurso - A hora e a vez de uma estrela brilhar

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A hora e vez de uma estrela brilhar


Rosa Maria Pessota
Fernandópolis, SP


Era um dia chuvoso, abril de 1995. Acordava cedo, tomava seu café preto, arrumava-se e ia para a escola. O sinal toca uma, duas vezes. A sala de aula. Chamada.

- Professora Florinda, o Elias José faltou de novo!

- É verdade. Preciso comunicar a direção da escola. Algo errado deve estar acontecendo. Será que a mãe dele sabe que está faltando tanto?

Acabada a aula, conversou com a diretora e explicou o problema das faltas do aluno Elias. Ambas decidiram procurar a família para saber o que estava acontecendo. Ao chegar à casa do menino, a mãe não estava. Não tinha ninguém lá. Bateram à porta de uma das vizinhas e perguntaram onde estava a mãe do menino. A mulher respondeu que trabalhava como doméstica numa cidade vizinha e que só voltava à noite, com o ônibus da prefeitura. Nada resolvido.

Foram procurar o menino. Encontraram-no jogando pedras nas pombas que habitavam o telhado de algumas casas da rua, próxima à pracinha da cidade. Chamaram Elias e conversaram com ele. Queriam saber o motivo de não ter ido à escola por três dias. A criança respondeu que estava faltando sem sua mãe saber porque alguns colegas estavam tirando "sarro" dele por não ter um tênis para ir à escola e, quando isso acontecia, agredia-os e também não iria para lá, pois tinha medo dos maiores baterem nele. A professora Florinda explicou que isso não podia acontecer, pois havia leis que o protegiam disso. Explicaram a ele que, quando isso ocorresse, deveria procurar um adulto para orientá-lo e ajudá-lo. Também explicaram que era melhor que fosse para a escola, pois lá poderia estudar e se alimentar, já que sua mãe ficava fora o dia todo. Elias tinha apenas nove anos...

No dia seguinte, a professora chegou à escola, encontrou-se com a diretora e esta lhe pediu que entregasse a Elias umas sacolas, depois da aula. Ao final da aula, depois que todas as crianças saíram, a professora chama Elias de volta e lhe dá os pacotes, diz que ali ele pode contar com a ajuda de todos e será bem recebido, cuidado e amado. Mas o que ninguém
"Mas o que ninguém sabia era que o menino jogava futebol todos os dias no campinho com uma bola de plástico quase murcha"
sabia era que o menino, mesmo sem tênis, jogava futebol todos os dias no campinho com uma bola de plástico quase murcha. Dona Florinda, que morava tão pertinho dali, se encantou com a maneira do menino Elias jogar a bola para cima e para baixo, fazendo embaixadinhas. Ela pensou em ajudar mais um pouco, mas de outra forma: procurou o prefeito, conversou com ele sobre Elias e outros meninos que ficavam sozinhos em casa, sem as mães, brigando nas ruas e realizando até pequenos furtos.

Algum tempo depois, criou-se na cidade uma escolinha de futebol para crianças de oito a doze anos, com treinador, uniformes, meiões, caneleiras e até chuteiras de verdade para cada novo jogador. Elias foi um dos primeiros a se cadastrar. O menino não ficava mais na rua, não perdia as aulas, comia na escola e jogava bola todas as tardes.

Este pequeno garoto, que tinha todos os motivos para seguir caminhos tortuosos tornou-se o maior orgulho da cidade: hoje é conhecidíssimo por todo o Brasil, foi jogador de um time baiano, da Seleção Brasileira Sub-20 e agora é jogador titular de um time português. Ele comparece duas vezes por ano à sua cidade natal. Da última vez, encontrou sua ex-professora Florinda. Contou sobre sua vida, riu e, brincando, disse-lhe: "olha só no que me transformei, professora!". Ela respondeu-lhe, com os olhos rasos d'água: "Eu tenho o maior orgulho de ter feito parte desta transformação, meu querido!". Ambos se abraçaram, felizes.

E assim é a vida do educador: ensinar, educar, apoiar, aprender, mesmo que o fruto que semeou demore em brotar, crescer, transformar. Mesmo que, para isso, esqueça, às vezes, até de si e dos seus para que estes frutos renasçam, floresçam mais fortes e com a perspectiva de uma vida mais digna, de esperança, mesmo por que não dizer "brilhante como uma estrela!".




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