
Era uma vez um menino chamado José e uma escola chamada Maria
Nadia Feliciano Pereira
Vinhedo, SP
Início de ano é sempre a mesma história... As escolas ainda se sintonizando para receber seus alunos, um público totalmente diversificado, que a cada instante muda o percurso de sua vida. Há aproximadamente três anos, nós, da Associação Vinhendense de Educação do Homem de Amanhã (AVEHA), uma organização não-governamental que promove o desenvolvimento pessoal e profissional de adolescentes de baixa renda na faixa etária de 16 a 18 anos, firmamos uma parceria com as escolas estaduais do município no intuito de desenvolver o trabalho de acompanhamento escolar dos adolescentes, o que possibilitaria ações mais efetivas para evitar o grande índice de evasão escolar.
Essa iniciativa começou em 2001, quando uma das diretoras da AVEHA procurou a delegacia de ensino apontando a dificuldade de atender os jovens de baixa renda. Em razão da inexistência de vagas no período noturno, essa dificuldade poderia resultar na perda da oportunidade do trabalho ou então no aumento da evasão escolar.
Depois de muita negociação, firmou-se um acordo com as escolas estaduais para que estas transferissem para o período noturno os adolescentes atendidos pela entidade que estavam iniciando as atividades no trabalho. Porém, excepcionalmente naquele ano, houve algumas mudanças nos horários de aulas das escolas, o que ocasionou grande demanda de adolescentes para o período noturno. Em função de muitos jovens trabalharem meio período, tendo disponível apenas o período da noite para estudar, houve superlotação das salas e inexistência de novas vagas.
Paralelamente a isso, José, um dos adolescentes acompanhados pela AVEHA, que até então não tinha nada a ver com essa história, inicia a mais importante fase da sua vida: o tão sonhando primeiro emprego. Filho de pais analfabetos vindos do Rio Grande do Norte, ele batalha, como muitos de sua idade, para concluir o |
"José inicia a mais importante fase da sua vida: o tão sonhando primeiro emprego" |
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programa inicial de capacitação desenvolvido pela entidade e conseguir um emprego remunerado com garantia de direitos trabalhistas: "Recebi a notícia de que havia conseguido um emprego quando cheguei em casa, no dia 14 de fevereiro. Fiquei muito feliz com a notícia. Então, logo me arrumei e providenciei todos os documentos necessários na AVEHA", comenta ele.
José fora selecionado por uma das maiores multinacionais da cidade, e se viu diante de um dilema: ficar sem estudar por conta da ausência de vagas no período noturno ou perder a tão esperada vaga na empresa: "Quando cheguei na escola, perguntei para a diretora se havia vaga, ela me respondeu que não e que não tinha como abrir uma exceção, pois já havia cinqüenta alunos na sala de aula. Fiquei chateado com essa notícia, mas não desisti. Procurei vaga em todas as escolas e em todas elas escutei as mesmas respostas: não há vagas, as classes estão lotadas". A história começa a se amarrar, não é? Mas como desatar os nós sem desmanchar a rede?
Uma das irmãs do garoto entrou em contato com a ONG para buscar ajuda, uma vez que a escola se mostrou resistente quanto à transferência de José para o período noturno, havendo somente a possibilidade de ele estudar em uma outra escola, bem distante de sua casa e do trabalho. Em função de um histórico e uma realidade assistencialista no município, as famílias esperam que a entidade resolva seus problemas, e aí está nosso grande desafio: educar, orientar e mostrar a essas pessoas que elas têm seus direitos, podem lutar por eles e, ainda, trabalhar como agentes de mudança.
A princípio, houve resistência da família do adolescente quando a AVEHA orientou no sentido de procurar o Conselho Tutelar. A equipe da entidade refletiu muito sobre seu papel como educadora, buscando contribuir para o desenvolvimento dos adolescentes, uma vez que há uma linha muito tênue no que diz respeito às ações sociais e ao assistencialismo. Para isso, nos pautamos no artigo 4 do ECA, entendendo que a primeira ação deve partir sempre da família. Por meio dessa ação e também pautado no ECA, o Conselho Tutelar pôde exigir que a escola de José tomasse as providências necessárias.
Alguns dias depois, fomos contatados pela escola, que nos solicitou ajuda para recorrer à delegacia de ensino na tentativa de abrir mais uma sala de aula no período noturno. Registramos, então, o número de adolescentes matriculados nessa escola, previstos para serem atendidos pela entidade durante esse ano, o que superou o número exigido pela delegacia de ensino para a abertura de mais uma sala.
"Talvez ele não tenha idéia de que contribuiu para a continuidade do sonho de outros adolescentes
como ele" |
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No prazo de um mês, o caso de José foi resolvido: "No dia seguinte, a escola me ligou avisando que eu havia conseguido vaga, fiquei muito feliz e agradecido pela sala que foi aberta e por poder estudar", afirma. Talvez ele não tenha idéia de que contribuiu para a continuidade do sonho de outros adolescentes como ele: "Com o passar dos dias, minha preocupação |
aumentava, pois eu sabia que, se ficasse sem estudar, perderia meu emprego, o emprego que tanto sonhei".
A ele, os direitos foram assegurados, e a nós, a felicidade de continuarmos a batalha por um povo que conheça o seu papel e não tenha medo de agir, fazendo a história, seja de sua própria família, de seu município ou, quem sabe, de nosso país.