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Causos do ECA
18/09/2007

Mãos que acariciam não batem. Vale a pena acreditar - Finalista do 3º Concurso Causos do ECA

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Categoria "ECA na Escola"

Mirian Gomes da Silva Andrade
São Paulo (SP)

Professora

Mãos que acariciam não batem. Vale a pena acreditar

Quando criança, aprendi que precisamos respeitar para sermos respeitados. O tempo passou, cresci e continuo acreditando nessa verdade. Hoje trabalho com crianças pequenas de até quatro anos, e tento ensiná-la a meus alunos.

Era uma tarde tão linda! O sol batia na vidraça da janela da sala de aula quando nos sentamos, eu e meus alunos, para o momento mágico que é nossa roda de conversa. Chamo de mágico, pois nele descobrimos maravilhas uns sobre os outros e aprendemos juntos.

Ana contou que viu sua avó.

Gilmar disse:

- Brinquei de carrinho.

Maria olhou bem nos meus olhos e contou:

- Minha mãe me bateu.

- Por que ela fez isso? - indaguei surpresa.

- Ela me bateu com a cinta - continuou Maria.

- Como é? - perguntei de novo.

- Eu chorei. Queria meu pai, mas ele não estava em casa.

Quando dei por mim, aquele momento mágico tinha tomado um rumo inesperado. Ou talvez nem tanto. Outras crianças começaram a contar que seus pais também batiam nelas com o chinelo, com a cinta e com a mão... Essa conversa me encheu de tristeza. Observações que eu costumava fazer na classe sobre agressividade começavam a aparecer também na fala das crianças. No fundo do coração, eu sinto, eu sei que a criança representa o que há de melhor em nós. Se lhe oferecermos amor, ela aprenderá amor. Se lhe oferecermos violência, ela aprenderá violência. Sei disso, pois comigo e meus filhos sempre foi e continua sendo assim.

A criança representa o que há de melhor em nós. Se lhe oferecermos amor, ela aprenderá amor

Essa questão começava a me deixar angustiada, com um sentimento de impotência que me lembrava das dificuldades de minha infância, da falta de meus pais, da vida no orfanato. De uma coisa, porém, eu tinha certeza: nunca apanhei. Mesmo no orfanato, tudo se resolvia por meio de uma boa conversa, do diálogo constante e da valorização do ser humano.

Quando pequena, fui privada de vários direitos que toda criança tem e que precisa exercer para viver dignamente. Só para ilustrar, minha mãe abandonou a mim e meus irmãos ainda muito pequenos. Eu era a caçula e tinha quase três anos, na época. Aos oito, depois de viver com meu pai em todas as favelas de São Paulo, ficando sozinha em casa sem a supervisão de um adulto, fui morar num orfanato, onde permaneci até completar 20 anos. Foi lá - isso mesmo, no orfanato - que aprendi a me conhecer, a exigir, a lutar e a fazer valer meus direitos. Lá também fui muito amada e aprendi a amar. Respeitaram-me e aprendi a respeitar. Acreditaram em mim e me valorizaram como ser humano. Cresci, estudei e encontrei meu caminho pela educação.

Por que, então, nossas crianças, tão pequenas, inocentes, indefesas, apanham de seus pais? Que pais são esses que num momento dizem "Eu te amo", e logo depois batem nos filhos com suas mãos que deveriam acariciá-los? Esse sentimento tomava conta do meu coração. Era madrugada quando acordei e pensei: "Vamos trabalhar com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) na escola." Fui, então, imaginando como desenvolver esse assunto com os pequeninos, pois precisávamos envolver todos. Corri para o computador e escrevi.

No dia seguinte, cheguei ao trabalho com uma folha digitada na mão, sentei-me com a coordenadora pedagógica e despejei minhas idéias. Ela me olhava atenta, concordava que poderia ser interessante, mas que era preciso conversar com as outras professoras. Minha ansiedade era tanta que eu estava pronta para sair dividindo aquele meu querer com todos que encontrasse e espalhando o assunto aos quatros canto do mundo.

Feita a reunião com todas as educadoras da escola, percebi que minha angústia era também a de minhas colegas. Todas queríamos gritar ao mundo: "Não batam em seus filhos! Eduquem!" Assim nasceu um projeto chamado Não à violência, pois toda criança tem direitos. Onde estão? Também nas Artes.

Cada família deixou registrada sua mensagem sobre o ECA, relacionando-a com a necessidade de mudar comportamento e atitudes

Passamos a desenvolver atividades sobre os direitos fundamentais de uma criança: educação, respeito, proteção, amor, lazer, saúde, cidadania, paz, alimentação, convivência familiar e comunitária. Utilizamos a arte como forma de expressão e de protesto, ou melhor, como pedido de socorro. Cada dia era uma aventura. O envolvimento das crianças no projeto foi impressionante. Elas traziam e levavam informações da escola para casa, de casa para a escola, expressando seus sentimentos por meio de canções, poemas, desenhos. Foi muito gostoso notar mudanças no comportamento delas e nas falas de seus pais. Falamos muito sobre as funções de nossas mãos. Elas criam maravilhas. Elas expressam a paz. Elas acariciam.

Marcamos um sábado de maio para comemorar o Dia da Família na escola, no lugar do Dia das Mães. Convidamos os familiares dos alunos para tomarem café da manhã conosco e com seus filhos num centro de Educação Infantil. Juntos assistimos a um DVD que contava o desenvolvimento do projeto. Havia mensagens sobre o ECA espalhadas nas paredes do centro, feitas por todas as nossas crianças. Dramatizamos uma situação de conflito familiar vivida por um adolescente e seus pais, em que a falta de respeito era bastante gritante. Sentíamos a necessidade de mexer com essas famílias. Embora a situação dramatizada fosse triste, foi um momento muito lindo, seguido do depoimento de uma mãe que, com lágrimas nos olhos, revelou ter vivido muitas vezes aquela cena quando adolescente, mostrando-se preocupada com a educação de seus próprios filhos.

Foi um sábado maravilhoso. No final, convidamos todos a participarem da confecção de um grafite no muro do centro. Ficamos felizes com a presença das famílias e da comunidade. O grafite completou nosso pedido de socorro àqueles pais. Nas paredes, cada família deixou registrada sua mensagem sobre o ECA, relacionando-a com a necessidade de mudar comportamento e atitudes. As crianças ficaram radiantes de ver seus desenhos estampados no muro, mais ainda porque eles tinham sido feitos com seus familiares.

Hoje, amanhã e sempre desejamos falar mais sobre o ECA, pois esse projeto está mudando a vida de nossas crianças, de nossos educadores e, aos poucos, de nossa comunidade. Mas a sementinha que plantamos ainda precisará de muitos cuidados para que possamos continuar colhendo frutos.



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