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Causos do ECA
16/06/2005

Conheça os semi-finalistas do Concurso - A festa de Bele



A Festa de Bele


Débora Matoso Costa
Belo Horizonte, MG


Essa é uma peculiar história a respeito do encontro de uma jovem com sua medida socioeducativa e dos conseqüentes desdobramentos que essa descoberta pode proporcionar.

Na sala de espera havia duas garotas sentadas bem pertinho uma da outra. Seus trajes, muito parecidos, revelavam cumplicidade. Quando entrei na sala, os olhos das meninas grudaram em mim, acompanhando meus movimentos em direção a elas. Uma cochichou rapidamente no ouvido da outra. Sorrindo, pergunto quem é Cibele. A resposta dela é outro sorriso e um levantar ligeiro como se já soubesse o que aconteceria em seguida.

Entramos as duas em uma pequena sala. Já sentadas, vejo em minha frente uma jovem de cabelos anelados mais escuros nas raízes do que nas pontas. Seu rabo de cavalo fazia realçar ainda mais os grandes brincos que usava. O desenho arredondado de seu rosto marcava as sobrancelhas finas e olhos apertados. As roupas coloridas deixavam seu corpo tatuado e o piercing à mostra. Antes de qualquer palavra, Cibele pergunta quando será a próxima festa do Liberdade Assistida. "Festa... que festa?", pergunto. Outro sorriso em seu rosto e ela continua: "A Festa de Natal". Algo pareceu descompassado. Aquele era nosso primeiro encontro. Era janeiro, precisamente dia 13. Deveria estar havendo algum engano já que a festa aconteceu em dezembro.

Não era engano. Cibele se coloca prontamente a explicar: Francine, aquela sua amiga lá da sala de espera, a convidou para a Festa de Natal do Liberdade Assistida. E ainda engata outra explicação: "Eu e Francine somos inseparáveis". A técnica que acompanhava Francine no cumprimento de sua medida a chamou para comemorar o Natal junto aos outros jovens, orientadores sociais, enfim, todos do Programa. É lá que Cibele conhece um outro lado das medidas socioeducativas: a Festa e Ricardo.

Como a medida socioeducativa vem depois de uma infração, talvez tenha sido essa a lógica que encadeou o pensamento de Cibele ao pular do assunto da Festa para o crime. Ela fala sobre certas atividades que desempenhava com bastante destreza e competência. Mas aos 16 anos ela ainda não conhecia o momento da
"As duas amigas foram apreendidas. E mais, Cibele ainda possuía um outro agravante: o seu namorado"

apreensão de duas jovens com todo o viço da juventude colorindo seus corpos. As duas amigas foram apreendidas. E mais, Cibele ainda possuía um outro agravante: o seu namorado. Já estavam juntos há quase quatro anos. Ela não poupava detalhes para descrever todo o poder dele. Poder esse que parece tê-la fisgado, levado Cibele a seguir à risca a direção dada por ele de dentro da delegacia em que cumpre pena, em relação às atividades que ela deveria desempenhar. Assim Cibele relata o trauma que viveu. Fala de sua vida, de suas angústias... até que o sorriso retorna ao seu rosto... volta a falar da Festa. Agora o sorriso está enorme... Cibele conta seu encontro com o amor! Cibele, ou melhor, Bele - mas vou deixar esta explicação da mudança de nome para depois, pois não gostaria de interromper ainda mais esta história - diz estar apaixonada, mas num piscar de olhos o sorriso se vai e uma interrogação aparece. Como encontrar Ricardo novamente? Não tinha seu endereço, telefone... nada. Só na próxima Festa poderia reencontrá-lo. E quando seria?

Então, Bele toma uma decisão: vai até o Juizado da Infância e Juventude para solicitar sua entrada no Programa. Francine já estava em cumprimento de sua medida, então ela também deveria estar. Esse era seu plano infalível para rever Ricardo. Estar em liberdade assistida era sua única chance de reencontrá-lo! A busca por Ricardo fez com que Bele tivesse um encontro com o juiz. Encontro que mexe com ela, fazendo-a ficar com as palavras dele em sua cabeça.
"Durante nossos encontros, um outro lado de Bele começa a aparecer. Surge a Bele cantora"
Assim, a partir do dia 13 de janeiro, Bele começa a freqüentar semanalmente o programa de Liberdade Assistida, sempre acompanhada por Francine. Durante nossos encontros, um outro lado de Bele começa a aparecer. Surge a Bele cantora. Ela agora empresta todo seu carisma e swing para os shows que faz à frente de
uma banda de rap. É com muito entusiasmo que ela vem conduzindo este projeto. Com muita simpatia e talento, vem mostrando a todos, principalmente a seus familiares, que "o rap é a voz da favela, não música de marginal". Nos raps, Bele busca traduzir a vida de uma comunidade que não tem a oportunidade de fazer ouvir sua voz. Ela logo acrescenta que também faz rap romântico, demonstrando todo o lirismo próprio aos jovens de sua idade.
Uma agenda de shows nos finais de semana a tem deixado cada vez mais ocupada. Mergulhada em seus afazeres, afastou-se da criminalidade. Essa novidade tem contagiado sua família, antes desacreditada de sua intenção de mudança, mesmo presenciando o término do namoro bandido. Bele conta eufórica que até sua mãe foi a um de seus shows. Sem saber que palavras usar, conta a sensação de subir num palco e cantar. Diz
"Uma agenda de shows nos finais de semana a tem deixado cada vez mais ocupada. Mergulhada em seus afazeres, afastou-se da criminalidade"
nem reconhecer a própria voz quando está diante de todas aquelas pessoas. Já está batalhando a gravação de um CD, que trará numa faixa o rap que conta a história das mudanças em sua vida e promete trazer para ouvirmos, avisando que na próxima Festa gostaria de se apresentar com sua banda. Surpresa, recebo a notícia de que nestes shows ela tem conhecido outros jovens que "estão em liberdade assistida e no movimento do rap".

Assim, semana após semana nos encontramos. Bele vai se descobrindo, se conhecendo... até que de novo na sala de espera vejo apenas um par de olhos. Não deixo de perceber que ela está sem a amiga e uma pergunta se precipita em minha boca. Bele antecipa que veio sem Francine e ainda chegou na hora! Nosso encontro segue sem muitos sorrisos, uma certa angústia enche seus olhos. Este é o encontro de Bele com ela mesma, por isso esta pontinha de dor. O encontro com a Festa, com a medida, principalmente com seu desejo, a fez perceber que só poderá trilhar seu caminho com seus próprios pés!

Ah, antes que termine esta história, tenho que contar o que prometi: Cibele é tratada por Bele por todos os seus amigos, por todos de quem ela gosta. Então me convida - entre um sorriso e outro ao longo de sua história de amor - a chamá-la de Bele. Convite ao qual aceito sem pestanejar, que foi condição de seguirmos nos encontrando e juntas desenhando os contornos da história de Bele!

 



Você gostou desta história? Acha que os jurados podem ter escolhido para ser publicada em livro? Quem são os seus candidatos?

 


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