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Causos do ECA
18/09/2007

Bendito seja Benedito! - Finalista do 3º Concurso Causos do ECA

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Categoria "ECA na Escola"

Sônia Regina Santos de Lucca Fugagnoli
Limeira (SP)

Professora

Bendito seja Benedito!

- O que aconteceu de tão ruim para que uma criança não queira falar com ninguém no ambiente escolar?

Foi essa a pergunta que fiz quando conheci Benedito - o Dito. Um garoto que fazia questão de manter uma expressão sempre fechada, menino bravo, que pouco se comunicava. Uma coordenadora especial, preocupada com as faltas consecutivas de Dito, me propôs um atendimento diferenciado. Ela não omitiu nada: explicou que era um caso difícil, que várias tentativas tinham sido feitas, mas nenhuma delas mostrara resultados positivos. Dito foi encaminhado a avaliações psicológicas e neurológicas em Centros de Atendimento Especializado, mas nenhum dos exames acusou qualquer tipo de "deficiência" que justificasse suas dificuldades escolares e de relacionamento.

Quanto mais ele tentava ajudá-la, mais absurdos ela fazia com a pipa, até que eles começaram a conversar

Benedito ia completar 15 anos e ainda não estava alfabetizado. O mais interessante é que a coordenadora me deixou à vontade para responder sim ou não. E, é, claro, como adoro desafios, eu disse sim. A proposta inicial combinada foi a de que ele viria a nossos encontros três vezes por semana, somente por uma hora e meia. Em parceria com o Departamento de Educação e Cultura, um motorista iria buscá-lo de perua escolar e o levaria de volta. Ele teria direito a lanche, uniforme e material escolar.

Como eu sabia que nossa comunicação seria restrita, planejei iniciar nosso primeiro contato com a confecção de uma pipa. Eu, como professora, interpretaria uma personagem que não sabia nem por onde começar e necessitaria da ajuda constante de Benedito. Em pouco tempo, ele foi obrigado a olhar para ela. Quanto mais ele tentava ajudá-la, mais absurdos ela fazia com a pipa, até que eles começaram a conversar.

Benedito não freqüentava a escola havia algum tempo. Fazia questão de enfatizar que não queria estudar e que ninguém o obrigaria a ficar na escola. Combinamos que desenvolveríamos um trabalho diferente de tudo o que ele conhecia. Escolheríamos juntos temas que fossem de seu interesse para serem abordados.

Como Dito mora num assentamento e seu dia-a-dia é repleto de tarefas com animais, inicialmente surgiu interesse por pássaros coleirinhos, cavalos e pipas. Como o ambiente escolar não poderia se restringir a lápis e papel, experimentei utilizar um computador, para pesquisar na Internet e usar CDs educativos. O resultado foi muito bom! Houve receptividade de Dito para todas as propostas apresentadas. Ele só resistia a atividades que necessitavam de leitura e escrita em papel.

Durante os atendimentos individuais inserimos, gradualmente, pessoas diferentes nas relações de Dito: outra professora, a coordenadora, os colegas e até mesmo a cozinheira. Benedito era temperamental. Quando falavam com ele, sua resposta era a mais curta e grossa possível. Isso quando se dignava a responder. Se o motorista não fosse o de costume, ele reclamava durante todo o atendimento e se recusava a fazer qualquer atividade naquele dia, tornando-se agressivo verbalmente.

Apesar dos contratempos, houve avanços, porém, nossa maior preocupação era com o período de férias e seu retorno. A coordenadora especial novamente deu um jeitinho e conseguiu outra coordenadora ainda mais especial. Nesse momento fui transferida, para garantir a continuidade do trabalho. Assim iniciamos 2007, com atendimentos psicopedagógicos individualizados no Centro de Atendimento Psicopedagógico (CAP) Prof. Jerson Benedito Pio. A proposta era a mesma, porém agora tínhamos uma sala própria, um cantinho mais sossegado. Os avanços do garoto se intensificaram.

Sua alfabetização foi um marco para Dito e sua família e seu sucesso escolar deu-se por meio da solidariedade de muita gente

Atualmente Benedito aceita passar por consultas médicas sem resmungar tanto. Cumprimenta alguns funcionários do CAP, aceita tirar fotografias, comenta sobre os fatos de sua rotina diária e até sorri!

Para nossa alegria, ele topou iniciar um curso profissionalizante no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) que começará em agosto. Até já assinou o termo de responsabilidade e sua mãe efetuou a matrícula.

Estamos pensando em reinseri-lo, até o final deste ano, no Ensino Fundamental, se possível, na quinta série. Na consulta com a médica e na entrevista com a assistente social, a mãe de Benedito relatou, satisfeita, que seu filho agora lê! Sua alfabetização foi um marco para Dito e sua família. Seu sucesso escolar deu-se por meio da solidariedade de muita gente.

O conselheiro tutelar da cidade acompanha e orienta a família, não medindo esforços para alcançar seus objetivos. Graças a esse trabalho entrosado, um histórico foi levantado e o problema de Dito, entendido.

A insatisfação tinha, sim, justificativa. Seu pai havia abandonado a família quando ele tinha apenas dois anos; sua mãe juntou-se com um senhor que é um amor quando está sóbrio, mas quando bebe... Até fogo na casa já pôs.

Os casos registrados no Conselho Tutelar e na Vara da Infância e Juventude são vários. A miséria, as agressões verbais e físicas são fatos do cotidiano de adolescentes como Dito. O que mudou para ele? Acredito que foi o apoio de todos os que conseguiram ver com outros olhos as dificuldades desse garoto e sua família e os auxiliaram com alimentos, roupas, utensílios domésticos e muito amor. Essa história aconteceu numa pequena cidade - Cordeirópolis (SP) - que contava com aproximadamente 19 mil habitantes no Censo de 2004. A união, o amor e a preocupação de todos fizeram muita diferença!

Para Dito, valeu a pena aprender a ler e a escrever em 2007!

Para nós, valeu a pena acreditar que, apesar de suas dificuldades, ele teve respeitado o seu direito de estudar!


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