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Do silêncio ao sorriso
Naqueles dias, durante uma "brincadeira" regada a álcool, o menino João, de 13 anos, órfão de pai, matou um colega com uma arma. Desde então, ele e sua família tiveram o rumo de suas vidas mudado para sempre. De menino agitado e travesso, João passou a ser tratado como um sujeito perigoso. Não saiu ileso ao julgamento social, feito à boca miúda, pelas calçadas, portas e praças da cidade pequena, revelando o medo de uma situação incomum, aliado à total descrença nos meios estatais para resolver conflitos e na capacidade de superação de uma criança.
Passou-se algum tempo até que João voltasse para a escola, cumprindo determinação judicial. Na sala dos professores, todos fomos avisados, e um silêncio cheio de dúvidas dominou o ambiente. Nunca a escola tinha lidado com alunos nessas circunstâncias. Mas era nosso papel acolher João.
Primeiro dia da volta. Vou para a classe entre confiante e sobressaltada, querendo fazer o meu melhor, mas duvidando da capacidade da escola e da própria justiça para conduzir o caso. Decidi agir naturalmente, procurando conversar com João. Tudo ficaria bem. Afinal, ele não era nem uma força da natureza, nem um ser sobrenatural ou inominável. Era apenas um menino.
Desde o primeiro dia, ele mostrou-se resistente a qualquer tentativa de aproximação. Brigas, confusões e palavrões passaram a fazer parte de nosso cotidiano escolar, agora permeado por insultos e lembranças da infração de João. O medo que os próprios colegas tinham dele só aumentava sua agressividade e incentivava seu isolamento. Para complicar, o garoto tinha duas irmãs menores, que estudavam na mesma escola e também sofriam com as circunstâncias. João era tratado como um problema pela sociedade, pelos colegas, pela família e pela escola. Mas não deixava de ser um menino.
Depois do grande julgamento público, dos olhares de reprovação, do afastamento, fez-se silêncio. João era agora "só mais um caso perdido". Todos pareciam saber qual seria seu futuro. Ninguém esperava muita coisa dele. E ele respondia com exatidão a essas expectativas.
Certo dia, a turma estava mais agitada do que de costume. Quantas vezes fui chamada pela secretaria? Quantas vezes parei a aula, conversei e reocupei aquela classe? Perdi as contas, mas nunca me saiu da memória o olhar de João quando, depois da milésima perturbação, o olhei e lhe disse: "Basta! Será que não basta?" Ele me olhou de volta em silêncio, como quem concorda, e repetiu: "Basta!" Pela primeira vez, senti que havia uma comunicação entre nós. Uma comunicação silenciosa, simples e que, apesar de frágil, foi capaz de resistir à algazarra de crianças que terminavam o dever, minutos antes do intervalo.
Tocou o sinal. A turma saiu, como sempre fazia. João me olhou mais uma vez e saiu. Eu também saí, mas já não era a mesma professora que entrara na sala de aula horas antes. Saía alguém que tinha dito: "Basta de silêncio!".
Vieram, então, as primeiras palavras: a coordenação da escola realizou reuniões, porque era preciso refletir, conversar, discutir, encontrar caminhos, mudar a forma de agir! O que mais a escola podia fazer? João, em liberdade assistida, já estava devidamente matriculado.
A escola cumpria a lei: enviava a freqüência e o aproveitamento escolar do garoto. Tudo direitinho, de acordo com o que prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Mas o que mais aquele livrinho poderia fazer por aquele menino? Garantia-lhe o direito de não ficar preso em estabelecimentos prisionais para maiores de 18 anos. No entanto, ele continuava preso ao estereótipo que a sociedade lhe impusera para mantê-lo longe.
Chegamos à conclusão de que enviar as listas de freqüência e aproveitamento não era suficiente. Já que queríamos cumprir o ECA, o faríamos integralmente. Que fosse cumprido o artigo 3º e déssemos todas as oportunidades e facilidades de que João precisava para se desenvolver física, mental, moral, espiritual e socialmente "em condições de liberdade e dignidade". Que se combatesse toda forma de discriminação, como prega o artigo 5º do ECA, também em relação a João. Que buscássemos maior participação de sua mãe, também professora, também confusa, também querendo ajudar o filho.
Assim foi feito: reuniões entre os próprios professores e coordenação, a fim de encontrar caminhos; reuniões com João e sua mãe; conversas e acompanhamentos do desenvolvimento dele, de seu comportamento em sala, de sua desenvoltura e relacionamento com os colegas. Principalmente nas aulas de Português e Redação, promovemos discussões sobre o preconceito e a discriminação em qualquer nível, a fim de combater o pensamento determinista sobre o futuro de alguém, a visão opressora e preconceituosa do coletivo. O afastamento e os insultos por parte dos colegas em relação a João e suas irmãs motivaram a aplicação de trabalhos em grupo e de atividades que buscassem a interação e o autoconhecimento.
Mais do que atenção, oferecemos a João amizade e compreensão. A comunicação já não acontecia apenas pelo olhar. Ela se consolidou e perdurou pelo sétimo e oitavo anos do Ensino Fundamental que João cursou naquela escola. Pudemos acompanhar, então, seu progresso lento, porém, seguro, e seu amadurecimento saudável. Nossa luta para que o Estatuto da Criança e do Adolescente não fosse apenas mais um punhado de palavras belas e mortas foi diária. O ECA concretizou-se na vida de João, ao contrário do que ainda acontece hoje com tantas vidas que mal se iniciaram e já são cerceadas pela negação de uma série de direitos.
Hoje João cursa o segundo ano do Ensino Médio, passou por acompanhamento com psicólogos, aprendeu a tocar instrumentos musicais e toca na banda de fanfarra do município. Fico feliz todas as vezes que seus atuais professores falam de seu comportamento e desempenho escolar. João acaba de cumprir medida socioeducativa de prestação de serviços à comunidade, prevista no artigo 117 do ECA, com realização de tarefas junto ao Conselho Tutelar do município. Assim ele vem contribuindo, ainda que indiretamente, para que outras crianças e adolescentes tenham respeitados seus direitos, na escola, na família e na sociedade.
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