Adolescente que evita comer em público. Criança que observa o corpo várias vezes ao dia e se acha gorda. Menino ou menina que passa mal quando termina de se alimentar e corre para o banheiro ou falta à aula porque está sempre doente. Atenção! Pais e professores devem ficar em alerta porque os sinais são de um distúrbio alimentar.
O problema é mais comum entre os adolescentes e adultos jovens, mas não é raro uma criança de 10 a 12 anos, por exemplo, já apresentar sinais de bulimia nervosa, anorexia nervosa e transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP), os distúrbios alimentares mais comuns, segundo os endocrinologistas e pesquisadores. Também já foi diagnosticada a doença em crianças com menos de seis anos de idade.
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"A comunidade escolar deve estar preparada para encaminhar ao atendimento especializado de saúde, sem esquecer a conscientização dos familiares"
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Na opinião da médica Isabela Bussad, pesquisadora e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a escola tem a responsabilidade social de prevenir e identificar os distúrbios alimentares entre as crianças e adolescentes. "Os meninos e meninas passam a maior parte do seu tempo na escola. Então é lá que pode ser observado se eles têm algum tipo de distúrbio. Para isso, a comunidade escolar deve estar preparada, inclusive sobre como fazer o encaminhamento ao atendimento especializado de saúde, sem esquecer a conscientização dos familiares", diz.
Para a médica endocrinologista, a atenção da escola com relação aos distúrbios alimentares não é diferente se a unidade de ensino é da rede pública ou particular. Não se pode dizer que uma esteja mais preparada do que a outra. "Há excelentes escolas na rede privada como também na rede pública, e não se pode generalizar. Existem aquelas que procuram esclarecer estas questões para alunos e familiares e também as que não têm tanto cuidado", declarou.
Os Ministérios da Saúde e da Educação não disponibilizam, nas escolas públicas, serviços especializados para o atendimento aos distúrbios alimentares. Mas a coordenadora geral do Programa Nacional de Alimentação Escolar - mais conhecido como Merenda Escolar -, Albaneide Peixoto, diz ser recomendado às unidades escolares um cardápio rico em micronutrientes como ferro, cálcio, magnésio e zinco, além dos macronutrientes como as proteínas e carboidratos. "Em média, o lanche escolar servido aos estudantes de Ensino Fundamental possui 300 quilocalorias", diz Albaneide, acrescentando ainda que os nutricionistas ficam atentos às possíveis intolerâncias alimentares e patologias, a fim de encaminhar os casos para um especialista.
A coordenadora do Merenda Escolar lembra que uma cartilha confeccionada pelo MEC e Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social é distribuída na escola com informações sobre nutrição, obesidade e alimentos saudáveis. E foi observando a alimentação dos seus alunos que a professora Silvana Farias, diretora do Colégio Estadual Justiniano de Serpa, um dos mais antigos do Ceará, ficou preocupada com o comportamento de duas alunas adolescentes. "Elas nunca comiam direito. Evitavam a alimentação. Foram encaminhadas para o Serviço de Orientação Psicopedagógica e depois para um atendimento especializado", conta.
"O primeiro trabalho é com o professor que orienta os alunos sobre uma alimentação saudável. Na nossa cantina também não oferecemos alimentos fritos com alto teor de gordura", informa a psicóloga Lidiane Araújo, do Colégio Ari de Sá, da rede particular em Fortaleza. Lidiane diz que são promovidos ciclos de palestras com os alunos, professores e pais, em que são enfocados os distúrbios alimentares e suas conseqüências.
Números
A estimativa é de que, no Brasil, um em cada 250 adolescentes e adultos jovens tem anorexia. Nos Estados Unidos, essa relação é de um para 100. A doença atinge, principalmente, mulheres na faixa etária entre 11 e 18 anos, e a maioria pertence às classes média e alta. Quanto à bulimia, é mais freqüente entre pessoas de 16 a 20 anos, sendo 90% do sexo feminino. Entre os que buscam tratamento, metade se recupera completamente, um terço alcança cura parcial e o restante não responde ao tratamento, chegando até a morte.
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Psiquiatra aconselha pais e professores a orientarem seus filhos para terem uma alimentação saudável
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No caso da bulimia nervosa, 90% dos pacientes recorrem ao vômito como um mecanismo de purgação, o que pode causar sérias alterações no organismo, segundo alerta do psiquiatra Fábio Gomes de Matos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenador do Centro de Tratamento de Transtorno Alimentar (Cetrata). O psiquiatra aconselha pais e professores a orientarem seus filhos para terem uma alimentação saudável.
O perfil psicológico de um paciente com esse distúrbio, segundo o psiquiatra, é de uma pessoa perfeccionista, o tipo do estudante com desempenho escolar que chega à perfeição, exigente e com uma expectativa muito grande de atingir todos os objetivos.
"A predominância é das mulheres. Em cada 10 pacientes, nove são mulheres e um é homem", reafirma e faz um alerta: "Corpo bonito é o corpo saudável, e não desnutrido". Na opinião do médico, a comunidade escolar poderia ajudar muito na orientação, prevenção e encaminhamento para o tratamento dos transtornos alimentares. "Folhetos explicativos deveriam ser distribuídos com mais freqüência nas escolas. Orientações e palestras periódicas com a participação dos pais, professores e alunos e a presença de um profissional especializado na unidade escolar, para fazer o diagnóstico", são sugestões do psiquiatra.
Como identificar
A anorexia é uma doença em que o paciente se recusa a ingerir alimentos, chegando a ficar, em média, 15% abaixo do peso normal para a idade. São pessoas muito magras, mas que não se convencem de que enfrentam um desequilíbrio alimentar. Acreditam sempre que estão obesos. Por isso, fazem a dieta da inanição, praticam exercícios exagerados e tomam laxantes. Os portadores desse distúrbio alimentar têm ansiedade, anemia, diminuição respiratória, descontrole do ciclo menstrual, depressão e obsessão por contagem de calorias.
Foi nessa situação que a cearense Adriana Paula estava no auge dos seus 20 anos. "Não admitia que tinha algum tipo de distúrbio e cada vez aumentava a depressão. Não queria comer e perdi tanto peso que cheguei na faixa dos 30 quilos com altura de 1,62 metro", recorda. Com nível médio de escolaridade, ela diz que na escola pública onde estudou não havia serviço de atendimento. Em casa, fazia tudo para esconder. "Mas começaram a notar, e minha cunhada me trouxe para o Cetrata, onde estou há oito meses", completa.
A bulimia nervosa é um desequilíbrio alimentar psicológico e se caracteriza por episódios de compulsões periódicas de excesso alimentar, seguido de métodos inapropriados de controle de peso, como se livrar da comida que foi ingerida a qualquer custo.
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"A escola deve se preparar melhor, ter uma equipe multidisciplinar e ficar atenta aos sintomas dos distúrbios alimentares"
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Era dessa forma que agia a estudante de enfermagem Natália Crisóstomo, de Fortaleza. Com 12 anos, surgiram os sintomas da bulimia nervosa. "Tomava laxante e provocava o vômito. Morava com o meu pai e ele não sabia de nada. Uma vez, na sala de aula, estava conversando com uma amiga que também tinha distúrbio alimentar - mas era anorexia -, e a professora nos encaminhou à psicóloga. Ela apenas nos aconselhou a nos alimentarmos direito porque, caso contrário, a gente não teria forças para estudar. A conversa parou aí".
Natália faz tratamento há um ano e diz que o pai e o namorado, depois que perceberam a doença, ajudaram muito, apoiando e a levando para o atendimento especializado. "É difícil admitir, ainda mais quando se é uma criança ou um adolescente. Por isso acho que a escola deve se preparar melhor, ter uma equipe multidisciplinar e ficar atenta aos sintomas dos distúrbios alimentares".
Segundo os especialistas, não existe causa exata para o desenvolvimento da bulimia. A pesquisadora Isabela Bussad diz que pode ser uma predisposição biológica, relacionada também a pressões sociais e questões psíquicas. As pessoas portadoras de bulimia, geralmente, têm baixa auto-estima e uma sensação obsessiva de que estão gordos. O excesso de acidez gástrica e a sensibilidade ao frio e calor causam problemas dentários na pessoa com bulimia. Também sofre de inchaços e dor nas glândulas salivares, e podem ter úlcera estomacal, hérnias de estômago e esôfago, desequilíbrio na excreção, arritmia cardíaca e desidratação.
A médica Isabela Bussad diz que a adolescência é a faixa etária de maior risco e o diagnóstico pode ser difícil até mesmo para o profissional de saúde. Às vezes leva anos para que o transtorno seja identificado e isso ocorre geralmente quando aparecem as manifestações físicas como o baixo peso, a parada no crescimento, as olheiras, a pele e mãos ressecadas, as cáries em maior quantidade, as cólicas.
Ela informa que o tratamento de um transtorno alimentar não é fácil e demora anos. É feito em ambulatórios especializados ou grupos, por uma equipe multidisciplinar que inclui psiquiatra, endocrinologista e psicólogo. No primeiro ano, o paciente pode ter melhoras, mas corre o risco de ter recaídas. No caso da anorexia nervosa, por exemplo, metade dos casos se agrava de forma crônica.