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Causos do ECA
19/09/2007

Caminhos do Paraíso - Finalista do 3º Concurso Causos do ECA

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Categoria "ECA como Instrumento de Transformação"
Felipe Domingos de Mello
São Paulo (SP)

Comunicador social

Caminhos do Paraíso

Quem disse que os caminhos do Paraíso não existem ou estão longe de nosso alcance? A natureza humana tende a camuflar os acessos para tais caminhos, protegendo-nos dos riscos de embarcarmos em vias de felicidade. Não existiriam guichês de informação capazes de iluminar nosso senso de direção, colocando-nos no rumo e no prumo?

Os caminhos do Paraíso existem e estão mais próximos de nós do que podemos supor. São de grande valia os citados guichês de informação e referência, que se apresentam de várias formas, entre elas como pessoas, navegantes exemplares da vida, condutoras de barcos emocionantes e emocionados, interessados e interessantes.

Meu comandante foi um garoto de aproximadamente 12 anos. Rebento de palavras ágeis e mãos coordenadas para o desenho, ele conquistou minha atenção e admiração durante o tempo em que o visitei, nas dependências de um hospital público em São Paulo (SP). Eu atuava como o Dr. Raviolli Bem-te-vi, meu personagem no trabalho voluntário dos Doutores Cidadãos, um grupo de palhaços hospitalares. Ele, com motivação e fome de vida transbordantes. Eu, saudável e disposto a ajudar, naquilo que possível, a amenizar as dores, angústias e indefinições dos lúdicos pensamentos de meu comandante. Ele, potência de felicidade, lutando contra um câncer.

Durante meses, visitei o quarto do jovem mestre, sempre na torcida e na expectativa de uma possível resolução positiva de seu problema. Não acompanhei clinicamente seu estado de saúde, mas baseei-me em sua disposição e nos tímidos esboços de sorriso de sua benevolente e apaixonada mãe. Em algumas visitas, tive a certeza de que ele estava melhorando, dando golpes de vida em seu adversário, o cadafalso de um brilhante futuro. Uma tarde, porém, minha certeza desmoronou.

Transitando pelos corredores e leitos hospitalares, percebi que estava diante da porta do quarto do jovem. Onde estaria ele? Para onde teria ido? As perguntas se repetiam. Não busquei informações sobre seu paradeiro e passei alguns dias na dúvida: teria meu timoneiro perdido a batalha para as revoltas águas do câncer?

Dois dias se passaram. Eu retornava de uma reunião de trabalho pelas ruas do Paraíso - um bairro da capital paulista - para chegar ao meu destino. Fazia muito calor e o trânsito, alto escalão da tirania metropolitana, contribuía para que minha paciência fosse embora. O trânsito de São Paulo não é terreno fértil para cultivar os valiosos e necessários sentimentos de solidariedade e fraternidade. Seria só isso mesmo? Balela!

Os fatos que se sucederam provaram que a minha irritação provavelmente vinha de alguma insatisfação leviana, mas que me aborrecia um bocado. Foi preciso um choque inspirador para que eu reconhecesse e avaliasse aquilo que realmente merece o irrecuperável desgaste.

Não busquei informações sobre seu paradeiro e passei alguns dias na dúvida: teria meu timoneiro perdido a batalha para as revoltas águas do câncer?
Num dos intermináveis semáforos - acredite, eles são infinitos -, olhei para o lado. Vi um garoto careca, uma senhora de meia idade e um jovem senhor rindo em alto e bom som. Risadas que criavam um cenário paradoxal: dezenas de pessoas, naquele quarteirão, dentro de seus automóveis, lutavam incessantemente pela conquista de alguns metros de asfalto, desafiando quem ousasse ocupar parte de seu caminho. Era certamente um paradoxo, se comparássemos o caminhar leve daquelas três pessoas na calçada com o humor carregado daqueles que se corroíam dentro dos seus veículos.

Olhei novamente para o grupo que passava. Era o meu querido garoto do hospital, acompanhado por sua mãe e padrasto. Um misto de alegria e preocupação confundiu meus pensamentos. Movido pela dúvida, gritei seu nome. Pude perceber que ele olhou em minha direção, buscando reconhecer quem o chamava. Eu queria fazer contato visual com o garoto. Passaram-se dois segundos e veio a primeira leva de buzinas. Como ele caminhava em direção contrária, pude ver pelo retrovisor que o grupo se afastava. Decidi fazer a volta. Ignorei os gestos de reprovação e rapidamente alcancei o grupo que continuava a caminhada na mesma felicidade. Encostei o carro e fui ao seu encontro.

Parei na frente deles com um sorriso explícito, pois via renascer aquela certeza da evolução do tratamento do garoto, perdida dias antes ao visualizar seu leito vazio no hospital. Senti uma grande decepção ao perceber que eles não tinham me reconhecido. Será possível que não se lembravam de mim? Por um instante fiquei triste, mas então me lembrei de que estava sem meu figurino de personagem. Ufa! Só poderia ser isso. Interrompi o turbilhão de considerações imaginárias e perguntei se eles se lembravam de mim.

A resposta foi a melhor retribuição pelos meses que me dediquei como voluntário em visitas ao garoto. Percebi que ele fitava meus olhos em profundidade. De um salto, me deu um abraço e exclamou: "Doutor Raviolli!" Pronto! Estava liquidada, com o sincero sorriso, a minha angústia. O garoto conseguira alta do hospital, uma vez que conquistara uma sonhada vaga numa organização de apoio a crianças com câncer e seus familiares, especialmente aqueles procedentes de localidades distantes da capital paulistana.

A saída do hospital representava uma grande conquista para aquele garoto, embora todos soubessem que a batalha ainda seria longa e de resultado indefinido. Mas que importava o crepúsculo, se os olhos daquela criança só conseguiam enxergar o raiar do sol, após meses num leito hospitalar? Raiar de vida, sopro de esperança, um dia após o outro.

A motivação de meu pequeno mestre para viver me fez e ainda me faz refletir, do alto de minha condição física, se eu teria realmente motivos para estragar meu dia. Após algumas reflexões, concluí e continuo concluindo que, felizmente, não os tenho. Confesso que, às vezes, empreendo esforços para criá-los. Quando isso acontece, paro tudo! Trago à minha memória a inesquecível imagem de meu jovem capitão, caminhando de cabeça erguida, abastecido pelo combustível da vida, pelos caminhos do Paraíso.


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