25 de junho de 2007
sob a coordenação da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI)*
Nem dá mais para comparar a alegre calmaria das manhãs de domingo movidas a basquete, dança de rua e oficina de remédios caseiros com os tumultuados dias em que os camburões da polícia tinham passagem obrigatória por ali. Isso porque, há mais de 13 anos abrindo as portas à sua comunidade nos fins de semana, a Escola Municipal Israel Pinheiro, na região leste de Belo Horizonte (MG), enterrou de vez um passado de medo no pátio e desinteresse na sala de aula.
A transformação começou muito antes da recente implantação política de abrir as escolas aos sábados e domingos. Em meados da década de 1990, os professores da unidade resolveram “dar um basta” no cotidiano de desrespeito e agressões. A paz só chegou à sala de aula quando eles optaram por manter os portões da escola sempre abertos.
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A paz só chegou à sala de aula quando optaram por manter os portões da escola sempre abertos
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Sempre, mesmo. Os finais de semana prolongados costumam começar já na noite de sexta-feira, se as diferentes igrejas precisarem de um local para a vigília religiosa. As chaves do colégio são entregues aos líderes comunitários, que se responsabilizam pela acolhida ao público e o zelo pelo patrimônio que não é mais da Prefeitura de Belo Horizonte, mas da comunidade do Alto Vera Cruz, conglomerado de favelas da capital mineira. Se é véspera do Festival de Bandas da Escola Municipal Israel Pinheiro, que acontece anualmente, as chaves aterrissam em mãos recém-saídas da adolescência, mas responsáveis o suficiente para assumir a guarda da escola enquanto os acordes invadem a madrugada do morro.
Sem dúvida uma das pioneiras na arte de estar sempre à disposição da comunidade, a EM Israel Pinheiro não é a única. Assim como ela, pelo menos 1.711 escolas públicas – dos Ensinos Fundamental e Médio das regiões metropolitanas com alto índice de vulnerabilidade social de 22 estados –, aprenderam a abrir as portas no fim de semana. Esses colégios participam de um programa batizado de Escola Aberta, desenvolvido pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). O projeto existe desde 2004 e atende, mensalmente, cerca de dois milhões de pessoas.
Escolas mais acolhedoras e mais preservadas
Em breve, Unesco e MEC divulgarão um estudo sobre os impactos do programa Escola Aberta nos colégios participantes. Mas algumas constatações já foram feitas. “Maior preservação dos prédios, diminuição da evasão escolar e melhoria da qualidade do ensino, além da redução de alguns aspectos da violência como vandalismo, agressões e furtos”, destaca a coordenadora da área de Ciências Humanas e Sociais da Unesco no Brasil, Marlova Novelo.
Com um orçamento de R$ 60 milhões, que começou a ser executado em outubro de 2004 e deve cobrir suas despesas até fevereiro de 2008, o projeto teve origem em outra idéia desenvolvida pela Unesco em 2000, nos estados do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco: o AbrindoEspaços.
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A edição 2006 do Mapa da Violência: Os Jovens do Brasil pode ser conferida na Sala de Leitura do Portal Pró-menino.
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A iniciativa pioneira nasceu como resposta ao Mapa da Violência: os Jovens do Brasil, estudo realizado a partir de 1997 de uma parceria entre o Ministério da Justiça e o Instituto Ayrton Senna. “O mapa indicou que os jovens são os que mais se envolvem em atos violentos e são as principais vítimas, sobretudo os negros e pobres.
E a maior parte dos incidentes ocorria nos fins de semana, já que eles se ressentiam pela falta de oportunidades de acesso a equipamentos esportivos e atividades culturais”, explica Marlova. Também foi possível constatar que o chamado índice de vitimização juvenil crescia 80% aos sábados e domingos. O diagnóstico: o tempo de ócio estimulava a violência.
Se o impacto do Escola Aberta se assemelhar ao que o Abrindo Espaços conseguiu no Rio de Janeiro e em Pernambuco entre os anos de 2000 e 2002, será sinal de que o caminho é o correto. Em relação ao vandalismo ou depredação da escola, no Rio, essas práticas foram reduzidas entre os participantes do programa em 48,1%, enquanto que nos colégios não participantes a redução foi de apenas 34%. A avaliação do projeto também aponta para a importância de as ações serem desenvolvidas em médio e longo prazos. As escolas que começaram a abrir as portas aos fins de semana no ano 2000 tiveram melhor desempenho em relação àquelas que adotaram a prática mais tarde. Em Pernambuco, os casos de pichação diminuíram 83,3% entre os colégios ingressantes em 2000, e de 50% nos que iniciaram em 2002.
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"Os jovens se ressentiam pela falta de oportunidades de acesso a equipamentos esportivos e atividades culturais”
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O desafio, ainda, é vencer delitos mais graves, como o tráfico de drogas dentro da escola, cujos índices de redução foram de apenas 11,7% no Rio de Janeiro e de 19,7% em Pernambuco, muito próximos dos resultados verificados entre as escolas não participantes.
Segundo o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, Renato Alves, isso não pode ser apontado como um fracasso. “É muita inocência acreditar que a simples abertura da escola aos finais de semana pode enfrentar um problema tão drástico quanto o tráfico de drogas. Mas é preciso considerar que, ao acolher o jovem, a instituição aberta oferece uma oportunidade que ele não tinha antes. Conjugada a outras ações de segurança, é, sim, uma experiência importante”, ressalta.
Reduzir a violência exige espaço para diálogo
Apesar do forte viés de prevenção à violência, esse não é o principal foco do programa Escola Aberta. “Na verdade, ele é pensado para a inclusão social. O jovem tem direito à cultura, ao lazer, ao esporte. Mas o que se observa é que, na maioria das periferias brasileiras, não existem equipamentos para essas atividades. E a escola está presente em todos esses locais. Por isso, a idéia é que, numa ação transdisciplinar, todas as políticas públicas sejam articuladas para garantir esses direitos aos jovens, usando o espaço físico escolar”, explica Marlova.
No bairro periférico de Ouro Preto, região semi-rural de Olinda (PE), não há praça, nem quadra, nem campinho. Somente a Escola Municipal Maria Emília Romeiro Estelita oferece algum tipo de lazer para os jovens das sete favelas que a circundam. O estabelecimento atende a quase 1,4 mil estudantes em três turnos e, desde 2002, desenvolve o projeto Do Risco à Inclusão, em parceria com o Conselho Tutelar da cidade. Isso garante finais de semana “com menos confusão e mais amor pela vida”, nas palavras da diretora Sara Alves da Silva.
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"O grande mérito da abertura das escolas aos finais de semana está em proporcionar um espaço de sociabilidade maior para a população"
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O colégio, que era todo pichado, foi restaurado em um mutirão realizado em 2001 e, a partir de então, se mantém livre das depredações. Mãe de dois alunos adolescentes, Josineide Maria Gomes Dourado conta por que participou da mobilização e passa os finais de semana ajudando na cozinha e até na catalogação de livros na biblioteca: “Este bairro é carente de tudo. Não tem uma praça para os jovens se socializarem. Agora eles vêm para a escola e podem se encontrar”, avalia.
Para o pesquisador do Núcleo de Estudos em Violência da USP, Renato Alves, desse “encontro” pode nascer uma cultura da paz. “O grande mérito da abertura das escolas aos finais de semana está em proporcionar um espaço de sociabilidade maior para a população de regiões que não contam com equipamentos públicos de recreação”, ressalta. “Com esse ambiente legítimo de convivência, diminui o medo da ‘turma da rua de cima’ ou a resistência gratuita ‘à turma da rua de baixo’. Ou seja, se constrói uma relação social menos violenta, mais saudável, e os jovens aprendem a viver com os diferentes”, completa.
Para Maria do Pilar Lacerda, presidente da União dos Dirigentes Municipais de Ensino (Undime), a aproximação da escola com a comunidade é tão importante quanto a redução da violência. “É triste dizer isso, mas muitas escolas não conhecem suas comunidades. Professores e funcionários cumprem seus horários e sequer sabem o que se passa no local. Abrindo aos finais de semana, essa relação é desburocratizada”, afirma.
São reações como essa que, na avaliação de Marlova Novelo, traduzem o real sentido de se manter os colégios abertos nos fins de semana. “Claro que é importante proteger os jovens da violência, mas um programa como esse vai além. Certa vez, um professor de educação física de uma dessas escolas me disse que, quando se dá uma bola para um menino, suscita-se nele um sentido e uma direção, porque o esporte não significa apenas inclusão social, mas também valores, auto-estima, interação com um grupo. Desenvolve um sentimento de pertencimento à comunidade e ensina o respeito às regras. É isso que a abertura das escolas aos fins de semana ajuda a fazer”, destaca.
*Jornalistas Amigos da Criança é um projeto da ANDI.
Autora do texto: Tacyana Arce é coordenadora de jornalismo
da Rádio UFMG Educativa e Jornalista Amiga da Criança desde 1998
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