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Em 2006 o governo paulista implantou a jornada de período integral em pouco mais de 500 escolas estaduais do sistema de ensino.Com a medida, as crianças passaram a ficar oito horas no colégio, ao invés de apenas quatro. Para incentivar a implantação do novo modelo foi criado o prêmio "Escola de tempo integral em São Paulo: referências de gestão e liderança". Passado um ano desde então, os diretores de cinco das sete escolas premiadas – cada um agraciado com uma viagem de estudo e turismo de 10 dias pela Espanha – lembram as dificuldades enfrentadas para conseguir tirar o projeto do papel e colocá-lo em prática.
Os administradores dos colégios souberam da intenção da Secretaria Estadual de Educação (SEE) de ampliar a carga horária dos estudantes da 1 a 4ª série no final de 2005. Tiveram pouco tempo, até o início do novo ano letivo de 2006, para fazer contas, reformar e adaptar as salas de aula. Alguns problemas comuns foram encontrados pela maioria das escolas, como a falta de espaço para a implantação das oficinas de dança, música, informática, inglês ou de equipamentos necessários como quadras ou piscinas, além de verba curta e a necessidade de dobrar a carga horária dos funcionários.
Mutirão motivou alunos
"Como alimentar as crianças se nunca servimos almoço na escola?", perguntava-se, na época, a diretora Sirlei Aparecida de Fátima Zambon Oliveira, da Escola Estadual Elza Pirro Viana, de Jales. A diretora, então, resolveu pedir ajuda ao prefeito, o qual conseguiu que a companhia vencedora do certame topasse fornecer também o almoço. "Mas no início não foi fácil. Tive de correr na cidade para pegar mais comida junto a empresas e o comércio local até eles acertarem na quantidade", conta. Dessa forma, a diretora conseguiu pôr o alimento na mesa. O prato sempre tem arroz, feijão, macarrão, sopa, carne ou frango e salada. Hoje, com a situação regularizada, o estado manda um complemento alimentar para o lanche da manhã e da tarde. A cada três meses um caminhão pára na porta da escola para descarregar biscoitos, pudim, sucos, bolachas e leite .
| Com o problema da falta de dinheiro para a alimentação resolvido, foi preciso arregaçar as mangas para solucionar outro entrave. "Quando as aulas recomeçaram, o primeiro momento foi um caos. O serviço de todo o mundo dobrou, os pedagogos contratados de última hora para administrar as oficinas à tarde não tinham o preparo de que necessitávamos |
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"Os pais perceberam nosso envolvimento e a felicidade de seus filhos com as aulas de informática e inglês, por exemplo, que não poderiam ter fora da escola"
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e as crianças ficavam indisciplinadas depois de tanto tempo na escola", enumera Sirlei. A própria diretora e seus assistentes colocaram, literalmente, a mão na massa. Foram para a cozinha ajudar no que fosse preciso e até limpavam a escola. Sirlei também fez um trabalho de convencimento junto aos funcionários que tiveram a carga horária dobrada. "Eu expliquei a eles que era o melhor a ser feito para os alunos e acabaram se conscientizando disso", diz. "As crianças também se acostumaram a ficar mais tempo no colégio. Envolvidas nas atividades, elas foram se concentrando cada dia mais", explica.
Após todos os esforços, Sirlei comemora os resultados. "Os pais perceberam nosso envolvimento e a felicidade de seus filhos com as aulas de informática e inglês, por exemplo, que não poderiam ter fora da escola", afirma. A diretora conta que hoje as salas estão lotadas, a procura por vagas é enorme e já foram iniciadas as obras para uma quadra de esportes.
Colaboração dos órgãos municipais ajudou a superar dificuldades
Na EE Manoel dos Santos, de Magda, região de Fernandópolis, foi necessário atrasar o horário da entrada dos estudantes para agradar os pais receosos com a novidade. "Uma boa parte dos alunos mora na área rural e os ônibus escolares passavam muito cedo nos sítios para buscá-los", relata a diretora Ednéia Aparecida Cardoso. Com a ampliação da carga horária, o jeito encontrado para resolver a falta de espaço e desenvolver as atividades extracurriculares foi ganhar as ruas da cidade com a ajuda dos órgãos do poder público. "Muitas oficinas da tarde são realizadas na biblioteca pública, no ginásio municipal de esportes ou em praças próximas. Hoje todos querem sair das salas", observa. A diretora conta que um canto de leitura embaixo de duas grandes árvores foi adaptado pelos próprios alunos e, com tantas novidades, eles ficaram menos tímidos e mais participativos. “ As atividades por si só serviram para deixá-los mais entrosados e sociáveis. Claro que as oficinas de teatro e os jogos em grupo colaboraram para aumentar a auto-estima dos mais retraídos, fazendo com que se soltassem mais”, constatou Ednéia.
Como na cidade a temperatura é bastante alta na maior parte do ano, por volta de 25 a 27 graus , os alunos reivindicaram aulas de natação entre as atividades esportivas. "Tínhamos uma única piscina pública no município que estava desativada", lembra. A solução encontrada por Ednéia também foi buscar apoio dos órgãos municipais. Ela conseguiu que a piscina fosse reformada e que os alunos passassem por exames médicos gratuitos no Centro de Saúde Municipal.
Estudantes aprendem noções de cidadania e ecologia
"Aqui não tem shopping nem cinema. Os estudantes são de regiões carentes. Então trouxemos toda a comunidade para dentro da escola", diz a diretora da Escola Estadual Lesbino de Souza Alkimin, Silvia Cristina da Silva Brassaloti, que transformou o colégio em tempo integral no grande entretenimento do município. Como? Ela realizou jantares, festas, bailes e quermesses. "Foi o jeito que encontrei para envolver pais, alunos, população e professores e ainda conseguir mais dinheiro para o projeto", afirma. Todos foram chamados a opinar sobre a destinação da verba arrecadada, que foi investida em melhorias no imóvel da escola, um pedido da comunidade. “Antes tinha muito mato por perto. Mandamos capinar tudo. O prédio era feio. Reformamos e mandamos pintá-lo", enumera Silvia . As próximas metas são construir uma cozinha e derrubar todo o muro que separa o colégio do bairro e colocar grade. "Parecia um cemitério. Ninguém sabia o que acontecia aqui dentro", diz.
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Oficinas passam a ser realizadas em outros espaços de aprendizagem, como na biblioteca pública e nas praças próximas da escola
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Após realizar as melhorias de infra-estrutura para deixar a comunidade mais próxima à escola, a diretora implantou o que chama de “cultura do pertencimento”: os pais puderam opinar em pesquisas sobre quais atividades gostariam que seus filhos tivessem. Além das oficinas tradicionais de |
arte, música, dança, informática, ginástica e jogos, outra ação pedagógica que diferenciou o colégio dos demais foi a implantação das oficinas ecológicas. "Como vivemos em um município rural, no período da tarde os alunos iam visitar os mananciais da região. Quem dava as aulas eram os donos das propriedades. Explicavam aos estudantes o que é mata ciliar e a importância do assoreamento para o meio-ambiente" exemplifica. O utra aula prática foi ministrada no período da tarde. Os alunos visitavam o comércio local após aprenderem, na sala de aula pela manhã, os custos da cesta básica. Em outra ocasião o foco era a importância dos alimentos para o equilíbrio alimentar e o combate à obesidade. "Eles foram até as farmácias da cidade, se pesaram e calcularam os índices de massa corporal", exemplifica Silvia.
Tempo integral afasta estudantes das ruas
Em Batatais, o que também levou o diretor Eurico Marcos Magni a abraçar a idéia de implantar o projeto na EE Geraldo Tristão de Lima foi a oportunidade de levar para dentro do colégio os estudantes que antes ficavam nas ruas após as aulas. Hoje, os 300 alunos do colégio estudam das 7h às 16h10. Eurico acredita que em regiões pobres essa é a melhor solução. "Além de ficar distantes da violência, eles têm a oportunidade de ter aulas que não teriam se freqüentassem escolas tradicionais", afirma. As atividades são diversificadas, o que ajuda a entreter os estudantes. Os alunos têm disponível uma estufa e uma horta onde plantam ervas medicinais e aprendem as propriedades de cada espécie . "Hoje a gente não educa apenas. Passa valores. Quais pais hoje em dia têm a oportunidade de permanecer nove horas com seus filhos?", questiona. "Aqui, além das atividades extracurriculares tradicionais como artes, dança e música, eles tem até oficinas para aprender a escovar os dentes corretamente e são introduzidos a noções de boas maneiras e bons hábitos que muitos desconheciam em casa", diz Magni. Para conseguir mais verbas além dos recursos injetados pelo governo, o diretor organizou campanhas e bazares.
95% dos pais apóiam a jornada ampliada
Em São José dos Campos, o diretor da EE Olímpio Catão, João Carlos de Almeida, primeiro reuniu a comunidade para saber dela se deveria transformar o colégio em tempo integral. "A aprovação foi unânime. Não se tratou de uma imposição. Ao contrário, foi uma opção", afirma ele, que garante ter o respaldo de 95% dos pais. “Os alunos do Olímpio Catão brincam uma hora no pátio livremente por dia, têm uma hora de leitura, aulas de espanhol, informática e noções de empreenderismo que começam pela administração de suas próprias casas", conta. As atividades da parte da tarde são complementadas com oficinas de arte e dança, e a partir deste ano os estudantes usarão os espaços das praças públicas para estudar a preservação do meio ambiente.
Segundo João Almeida, houve tropeços no início. Faltavam recursos humanos, financeiros e infra-estrutura porque o espaço era pequeno. Mas tudo isso foi aos poucos sendo sanado. "Ainda é uma luta diária. Como não tínhamos muito dinheiro o jeito foi buscar parceiros. A Polícia Militar, gratuitamente, ministra aulas de canto coral para nossos alunos, além de fanfarra, flauta doce e teclado. Outro colaborador é o Banco do Brasil local, que patrocina um grupo de terapia familiar com psicopedagogos para estudantes e seus pais que eventualmente venham a ter envolvimento com drogas", revela o diretor.
*Jornalistas Amigos da Criança é um projeto da ANDI.
Autora do texto: Luisa Alcalde, repórter do Diário de S. Paulo e Jornalista Amiga da Criança desde 2003.
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