Categoria ECA na Escola
Sorrisos de Marina
Luciana Ribeiro Barros
Juiz de Fora, MG
A escola onde atuo está situada no município de Matias Barbosa, pequena cidade próxima a Juiz de Fora. Trata-se de um projeto social de uma empresa, que trabalha há quase três anos com 25 crianças de famílias de baixa renda em horário integral, numa ação de inclusão social.
Semana passada, a mãe de Marina, aluna da escola, telefonou justificando que não poderia ir à reunião porque o teto de sua cozinha estava com risco de desabamento e teria que desocupar o local. Perguntei se ela já havia solicitado auxílio na prefeitura. Ela disse que sim, mas que não havia previsão de nenhuma obra ou ajuda. Continuei os meus trabalhos, mas, volta e meia, pegava-me pensando na situação da família.
A empresa que mantém a escola tem atividades no ramo de construção, o que me levou a tomar a iniciativa de perguntar se poderiam verificar as condições da casa desta família e de executar alguma reforma. Para adiantar o processo, me ofereci a ir até a casa e tirar fotos do local para registrar os riscos da estrutura daquela moradia.
No início da escola, três anos atrás, eu já havia visitado algumas famílias para o processo de seleção, mas desta vez foi diferente. Para explicar essa diferença, meu "causo" tem que mudar de forma literária. Acho que também mudei de alguma forma. Em casa, à noite, depois das fotos, com uma chuvinha fina lá fora, não conseguia dormir e fui escrever para me entender, para relaxar, para desabafar:
Sorrisos de Marina
Sei que toda vez que chover
Vai inundar minha mente
As rachaduras
Daquele teto
Daquela parede
Daquela gente
Sei que toda vez que chover...
Apertarei-me em meus braços
Atados na memória dos fios
Virarei curto, circuito, embaraço.
Retorcerei longo, desespero, cansaço.
Nós de fios, no teto, queimados.
Em teia, em gato, esgarçados.
E se chover forte?
A porta cedeu à violência
Descascou parede,
Transformou o pai
Molhou o chão.
A coberta agasalhava a janela,
Só moldura, só rangia - de medo, raiva e frio.
Eu só olhava,
Fotografava e...
Molhava
A vista patinava
Nos pés dos móveis destruídos nos meus pés
Na ferrugem, no lodo.
Era mais fácil sair
Era mais fácil fugir
Era mais fácil fingir
Mas aqueles fios!
Apertados de gordura, de tempo (Que tempo? Quanto tempo?)
Apertados os nós
Apertados os corpos
Mal cuidados, mal nutridos, mal deitados.
Apertados os fios de vontade
De banho quente
De ferro de passar
De luz elétrica
De outras histórias para contar...
Uma trégua!
A chuva cessa.
Vou uma légua pra fora do barraco
Espio as nuvens que costumam trazer sonhos...
Nós de fios elétricos bem que podiam ser laços de fita
Fitas largas, brilhosas, deslizantes!
Laços coloridos, de cintura de vestido novo!
Vestido pra ir à festa!
Pra dançar!
Pra embrulhar docinhos em sua barra!
Pra cantar!
Pra lambuzar de molho, de doce, de fantasia!
Pra simplesmente, rodopiar!
Vestido pra combinar com tiara, com brinco, com pulseira.
Podia ser estampado de rosa
Combinar com batom
Daquele tom,
Que colore sorrisos!
Sorrisos em longo convívio
São cada vez mais procurados
Mais provocados
Carinhosamente cultivados
De tanto sorrirem,
Balançam, aquecem, conquistam
Ganham brilho, cor, nome...
Viram sorrisos de Marina!
Sorrisos assim trazem saberes de além dos livros para as linhas do coração. Sorrisos assim mudam o sentido dos dados estatísticos, dão vida aos estatutos.
Ao entrar no barracão de Marina, vi que lá não cabia minha "neutralidade". Senti que não sou forte se " força" significar o meu escudo. Por causa de Marina, tive a exata noção do valor guardado em todos os outros barracões sob a tempestade que rega nossa querida Terra. Senti-me impotente, com todos os meus sentimentos secando minha boca. Virei-me para despedir de Marina. Deparei com seu sorriso... O que ajudava a mover aquele sorriso, embora tímido, sobre um corpo frágil e receoso, abrigado dentro daquele barraco?
Quando nos abraçamos, não me senti mais tão impotente assim... Senti que o que também ajuda a mover o sorriso de Marina é uma ponta de alegria, equilibrada num traço de esperança fincado na palma da minha mão.
No momento, a empresa está doando o material de construção para a família de Marina e já conseguimos uma porta. Parceria com a prefeitura está sendo feita para a mão-de-obra da casa de Marina e a chuva já não me incomoda tanto!
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