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Causos do ECA
19/09/2007

Entre Luiz e o mundo - Finalista do 3º Concurso Causos do ECA

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Categoria "ECA como Instrumento de Transformação"
Angélica Garcia Juns
São Paulo (SP)

Estudante de Terapia Ocupacional

Entre Luiz e o mundo

Ele começou a andar quando os meninos da sua idade começavam a ler. Tenho a impressão de que, quando deu seus primeiros passos, a terra tremeu em algum lugar do outro lado do mundo e então alguns livros despencaram de suas prateleiras do lado do planeta que não conhecia o menino.

Luiz tem 16 anos e mora na comunidade do Conjunto Habitacional (COHAB) Raposo Tavares, em São Paulo (SP), onde estuda e brinca na rua, entre outras coisas que faz, mas que não me contou ou eu não vi. Mora numa casa pequena, que tem, na frente, um portãozinho azul de ferro com a pintura descascada. A mãe dele acorda cedinho pra fazer comida e cuidar da roupa, sai pro trabalho e só volta tarde da noite. Luiz tem um irmão mais velho, que não estuda e está desempregado, e uma irmã mais nova, que não conheci.

Seus amigos dizem que, no recreio da escola, ele gosta de brincar de pega-pega e de correr atrás das meninas, enquanto elas fogem gritando, dizendo que ele é um monstro que vai pegá-las. Bem, o que mais? Não posso deixar de situar este causo na comunidade: lá tem mais gente do que emprego, mais gente do que vaga na escola, mais gente do que linhas na agenda do médico, tem casa que tem mais gente do que cama... Enfim, uma comunidade que cresceu mais do que as reformas sociais.

Eu era estagiária de Terapia Ocupacional da Unidade Básica de Saúde que atende essa região, esse território, essa gente. O trabalho acontece com as crianças da comunidade de sexta à tarde e se chama Brincando. É um espaço produzido pelas terapeutas ocupacionais, que surgiu como uma forma de afirmar os direitos da criança e do adolescente na comunidade. O objetivo é justamente promover a participação de pais, familiares, educadores e das próprias crianças e adolescentes nas ações direcionadas à infância e adolescência. Mas, e cabe explicar bem, são as crianças e adolescentes que produzem muito do que significa esse espaço, que fazem o Brincando acontecer. A equipe de saúde só precisa ir à comunidade, juntar a turma e brincar. Só isso, mas um "só" que faz a diferença naquele dia, já que é uma tarde em que a comunidade muda de cor, o som das ruas é outro e os olhares brilham juntinhos na brincadeira de roda.

Ao chegar na COHAB em meu primeiro dia no Brincando, fui buscar Luiz em sua casa. Saí do centro comunitário acompanhada de mais uma estagiária e seguimos pelo bairro, andando e conversando. De vez em quando, ouvia-se um "Boa tarde!" durante a caminhada de uns três minutinhos. Então o dono da vendinha de doces observou:

- Chegaram as meninas do posto de saúde que vão buscar aquele menino na casa dele.

"Tap tap tap" e ninguém apareceu no portão. Novamente bati palmas e então Luiz nos olhou da porta da cozinha, voltou pra dentro de casa, vestiu os sapatos e saiu, enquanto Bob, seu cachorro, preso pela coleira no fundo do quintal, ladrava sem parar. O menino passou pelo portão nos observando e seus olhos se moviam como se ele mirasse uma bolinha de ping-pong no último jogo do campeonato mundial. Sua face modificou-se lentamente, surgindo um menino que tinha os sonhos maiores do que as pernas e queria alcançá-los todos num só passo.

De repente, apareceu um sorriso acompanhado de um breve aceno com uma das mãos, gesto que, por alguns segundos, pensei ser proposital, mas logo percebi que era causado pelo esforço que Luiz fazia para chegar mais rápido até nós. Me apresentei e o convidei para participar comigo no Brincando daquele dia, como ele já fazia há alguns anos, tendo sido acompanhado por outras estagiárias. Ele me deu a mão e seguimos.

Era difícil entender por que Luiz sempre saía andando de perto de mim, ele se irritava com meu jeito de tratá-lo como criança
Foi uma caixa de bombons vazia, amassada e jogada na calçada, que surpreendentemente se transformou no fio condutor entre os meus pensamentos e os dele. Andávamos juntos, eu chutava a caixa, dávamos alguns passos em direção a ela e era então a vez dele chutar. Depois de dois passos pro lado pra alcançar a caixa, um chute que me fez pisar nela ao invés de movimentá-la. Risadas... Assim seguimos, aos chutes e passos, até que chegamos ao centro comunitário. Quando Luiz viu os outros meninos, imediatamente largou minha mão. Peguei a caixa de bombons do chão e fui jogá-la no lixo.

Assim estivemos juntos por quatro meses, nessa nossa relação terapeuta-paciente e companheiros de brincadeiras. Era difícil entender por que Luiz sempre saía andando de perto de mim, ele se irritava com meu jeito de tratá-lo como criança. Só quando finalmente percebi que ele era um adolescente e que assim queria ser visto e tratado, independente do que minha cegueira de preconceito me proporcionara, é que entendi como era grande a distância entre minha intenção e minha prática.

Quando penso que não podia compreender Luiz simplesmente porque a realidade dele era muito distante da minha, vejo que estávamos de lados opostos do mundo. Quando ele deu seus primeiros passos, tudo o que eu sabia daquele menino estava nas páginas amassadas dos meus livros caídos no chão: portador de encefalopatia crônica não-progressiva da infância, quadro clínico mais conhecido como paralisia cerebral, que incapacita, impossibilita e limita ações de um ser humano. Nós dois, porém, pudemos ir muito além disso, atravessando o mundo para descobrir de onde vêm os terremotos e para derrubar as fronteiras que se instalam entre nossos pensamentos.

Do tempo em que acompanhei Luiz, me orgulho do esforço da comunidade em garantir seu direito à convivência, sem discriminação, com dignidade, liberdade e respeito. No Espaço Brincando, vi formar-se uma nova imagem de cada criança e adolescente, imagem que revelava identidades, autonomias, valores e idéias, diferentes opiniões e meios de expressão. Ver, ouvir ou falar tudo isso fez com que nós, adultos, profissionais, pacientes, crianças e adolescentes, com ou sem deficiência, alimentados ou não, vestindo chinelos ou descalços, João, José ou Luiz, brincássemos e estivéssemos no mesmo mundo.


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