Categoria ECA na Escola
Desculpe-me, filha!
Valdecir Gonçalves do Santos
Turmalina, MG
Joaninha é uma menina linda, muito meiga, de olhar triste e sabedoria invejável. Sendo a convivência familiar um dos mais importantes direitos das crianças e dos adolescentes, no Vale do Jequitinhonha, onde ela vive, nem sempre é assim.
Como Policial Militar, instrutor do Programa de Erradicação das Drogas (PROERD), liderado pela Corporação Militar do estado de Minas Gerais, lá estava eu, ávido por conhecer as crianças da quarta série que seriam contempladas com o Programa naquele semestre.
As aulas começaram a todo vapor. No canto esquerdo da sala estava Joaninha. Seu rostinho brilhava, apesar do olhar sombrio e triste. Com o tema "mudando as idéias sobre o uso de drogas", procurava colocar todo profissionalismo naquela aula.
Num passe de mágica, tornei-me verdadeiro malabarista. Prendi a atenção das crianças e percebi que algumas tinham cuidado até para se mover, tamanha concentração no assunto discutido. Dona Ney observava-me. O assunto chamava a atenção da professora e dos alunos. Como um poeta que declama com propriedade seus versos, eu gesticulava, afirmando que a droga é como um caminho que nos oferece apenas o portão de entrada e dificilmente a saída, roubando-nos as pessoas que amamos, deixando um vazio em nossas almas; por isso, muitos escritores denominam-na como o câncer do século.
Lembro-me como hoje. De repente, alguém quebrou o silêncio, roubou a cena e, com um suspiro forte, começou a chorar. Preocupado, vi que a professora, com um olhar profundo, procurava em mim a resposta para a atitude de Joaninha, que tremia muito e chorava.
Em segundos, passou um filme na minha mente. Havia me preparado, dedicado uma boa parte do meu tempo, planejado a aula daquela manhã. Teria atingido em cheio o emocional daquela criança? Onde havia errado? Teria acertado demais nas palavras? Tinha certeza de que algo havia acontecido. Precisava urgentemente descobrir o que era. Naquele instante Joaninha
|
"De repente, alguém quebrou o silêncio, roubou a cena e, com um suspiro forte, começou a chorar" |
|
levantou-se, com o olhar abatido, respiração acelerada e educadamente, com a mãozinha erguida, sussurrou entre lágrimas:
- Policial Silas, meu coração não suporta suas palavras. Estou sofrendo. Enquanto o senhor falava, fiquei pensando em minha história. Venho de uma família pobre e, mesmo pequena assim, tenho vontade de deixar de viver. Como o senhor sabe, o povo da minha região é marginalizado e considerado como o mais pobre do Brasil!
Confesso que fiquei inseguro. Sendo grande, me senti pequeno e impotente diante do relato que eu, a professora e os colegas ouvíamos, enquanto ela continuava sua fala:
- Hoje tenho 12 anos. Se o senhor classifica as drogas como câncer, esta doença já passou em minha casa. Não sei qual era a minha idade na época... Mas eu era pequena e me lembro. Não sei se era muita pobre, mas o único dinheiro que a mãe tinha, ela gastava com pinga e bebia até esquecer que era gente. Mesmo assim, eu a amava tanto e sempre pedia para que ela parasse de beber. Eu tinha muito medo de perdê-la. No fundo, eu já estava perdendo, pois ela já não penteava os seus lindos cabelos, não cuidava do seu corpo, os seus dentes estavam sujos. E eu sofria muito!
Fiquei olhando diretamente naqueles olhinhos tristes enquanto Joaninha me perguntava incansavelmente:
- Policial Silas, você está me entendendo? O senhor me entende?
E a minha resposta era:
- Sim, meu anjo!
Ela continuava:
- Foi aí que aconteceu. Mãe sentia fortes dores no peito e deitou pedindo um copo de água, completamente bêbada e não mais se levantou. Agora ficou um vazio, somente eu e o papai. Sinto saudades dela!
"Sendo educador, tenho a alegria de ter colaborado como instrumento transformador" |
|
Um silêncio novamente tomou conta da sala e ela continuou relatando que hoje seu pai também é alcoólatra.
Aquele momento ficou registrado. E os dias prosseguiam, porém, dentro de mim, a angústia acompanhava. A cada encontro naquela sala, eu |
procurava olhar diretamente nos olhos de Joaninha, tentando amenizar sua dor, recheando minhas aulas de afeto e atenção.
No final do ano, a direção da escola ficou surpresa com 100% da presença dos pais na reunião. Tudo transcorreu tranqüilamente e, no final, um senhor humilde pediu a palavra. Ele caminhou até o meio e um pouco inseguro começou a relatar:
- Pulicial, eu queria saber o que o sinhô fez com minha fia Joaninha, que ela mudou tanto! É cuidadosa cumigo, carinhosa, preocupa tanto que até me incomoda. Há poucos dias eu bati tanto nela, pois ela jogou minha pinga pelo ralo do tanque, e eu tinha ficado nervoso. Mas eu me arrependi... Hoje eu quero pedir discurpa pra todos os presentes aqui e pra minha Joaninha que num tá qui. Faz dia que não bebo, pois minha fia, através do que viu no sinhô, tem me ensinado a mudar de vida...
Em meio a soluços do senhor Venceslau, todos ficaram calados frente ao desabafo do pai.
Em nosso município, naquele ano, naquela escola, naquela sala, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) esteve presente. Todos queriam entender o ECA e o debate sobre os direitos da criança aconteceu. Nas reuniões, analisamos todo o Estatuto e observamos que esta lei constitui um avanço, considerando que sua base é a doutrina da proteção integral ao indivíduo, reconhecendo a criança e o adolescente como cidadãos, possuidores de todos os direitos dos adultos e de outros direitos específicos, por serem pessoas em processo de desenvolvimento.
Joaninha e seu pai Venceslau desfrutam hoje de vida nova.
Sendo educador, tenho a alegria de ter colaborado como instrumento transformador. Mais do que nunca, sei que nossas crianças têm direito à proteção, ao afeto e à amizade.
Minha preocupação com as crianças que participam do PROERD cresceu. Na perspectiva de "cuidar" desses seres indefesos, é que vislumbro, no meu trabalho, inesgotáveis possibilidades de, na prática educacional, rechear as aulas de afetividade, ética e amor, oportunizando interações entre os familiares e possibilitando a todos construir sua subjetividade, constituindo-se como sujeitos sociais, autônomos, escritores da história da vida.
Registro aqui então um convite, reafirmando meu compromisso e parafraseando nossa música brasileira: "Deixa o ECA te levar, ECA leva eu"...
Você gostou desta história? Quem são os seus candidatos a levar os prêmios? .
|