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26/05/2006

Escolas sentem falta de capacitação para lidar com jovens em liberdade assistida

26 de maio de 2006
sob a coordenação da
Agência de Notícias dos Direitos da Infância
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A privação de liberdade é a medida socioeducativa mais conhecida pela sociedade, principalmente por causa do destaque na mídia de instituições como a Febem paulista. Mas é apenas uma das alternativas previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para o trato com os jovens autores de ato infracional. A liberdade assistida é uma das outras opções de medida socioeducativa e consiste no acompanhamento e orientação do jovem em meio aberto . Para cumprir o caráter educativo da ação, o encaminhamento do adolescente a uma escola é parte fundamental do processo, como prevê o art. 119 da lei. Mais de 18 mil adolescentes cumprem esse tipo de medida no país, de acordo com dados de 2004 da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH).

Nas medidas de liberdade assistida, além da família e do programa de atendimento que executa a ação, a equipe da escola tem um papel muito relevante. O problema é que nem sempre os corpos docentes e funcionários sabem lidar com meninos e meninas que se encontram em tal situação. Como conseqüência, um dos maiores desafios enfrentados por esses profissionais é justamente garantir a permanência do adolescente nos bancos escolares.

Com o ingresso de um jovem em cumprimento de medida socioeducativa na escola, fica a critério da direção do estabelecimento definir quem tomará conhecimento de sua condição. Geralmente apenas os professores são avisados, por serem as pessoas que irão recebê-lo. Mas diversas vezes o histórico do adolescente já é conhecido por todos da comunidade. Por conta disso, ele passa muitas vezes a ser estigmatizado. E o preconceito não vem apenas dos colegas, mas inclusive dos próprios educadores e diretores, resultando em segregação e dificuldades para dar continuidade aos estudos.

"A escola favorece a evasão porque não sabe lidar com o adolescente. A instituição não desenvolve um processo de conquista e acolhimento e os professores não estão predispostos a isso", avalia a pedagoga Ana Márcia Mendonça, coordenadora do programa de liberdade assistida da cidade de Barueri, em São Paulo.

Segundo a especialista, algumas escolas, em vez de facilitarem a adaptação do jovem, costumam colocar obstáculos para que isso ocorra. Eles vão desde a total falta de tolerância para com atrasos desses estudantes até a solicitação, por parte de diretores, de plantão de viatura policial na porta da instituição. Alguns chegam a chamar a polícia para retirar o adolescente de dentro da sala-de-aula quando enfrentam dificuldades com ele. Às vezes, o constrangimento chega a tal ponto que muitos meninos não vêm outra alternativa senão desistir de estudar.


Escolas não têm apoio


Nas entrevistas com especialistas, diretores e pessoas que trabalham com liberdade assistida, constata-se que uma das causas da dificuldade no trato com adolescentes em conflito com a lei é a falta de cooperação entre as entidades responsáveis pelos programas e os estabelecimentos de ensino. Geralmente, os representantes dessas instituições só aparecem uma vez por mês nas escolas para saber como está o jovem, e às vezes não conseguem encontrar diretores e coordenadores pedagógicos para discutir o caso. Em virtude do pouco contato, os educadores afirmam sentir falta de orientação e capacitação específica para trabalharem com os garotos.

Para a professora de psicologia social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Maria de Lourdes Trassi Teixeira, autora do livro "As histórias de Ana e Ivan, boas experiências em liberdade assistida", é importante que os educadores conheçam o ECA, sobretudo sua concepção do adolescente
"A escola favorece a evasão porque não sabe lidar com o adolescente. A instituição não desenvolve um processo de conquista e acolhimento e os professores não estão predispostos a isso"
como sujeito de direitos. Ela considera que as escolas deveriam trabalhar melhor com suas equipes os preconceitos, os estigmas e o conceito de ato infracional. "Eles também precisam conhecer um pouco da realidade do menino, suas condições de existência e de cumprimento da medida", defende.

Na visão da pedagoga Ana Márcia Mendonça, a orientação das secretarias de educação não deveria se restringir aos conteúdos programáticos, mas também tratar de questões transversais como sexualidade, drogas e violência. Tais assuntos têm grande importância na vida tanto dos adolescentes que não cometeram ato infracional quanto os dos jovens em cumprimento de medida socioeducativa - boa parte deles com passagens por estabelecimentos de privação de liberdade. No caso dos adolescentes que cometeram ato infracional, esses temas, muitas vezes se relacionam com o próprio ato.

As boas experiências, segundo especialistas e diretores de escolas paulistas, são possíveis e devem-se a uma série de fatores. O diálogo bastante próximo com o adolescente, buscando conhecer sua história, suas dificuldades e seus interesses, pode contribuir muito para a permanência do estudante. O envolvimento dos familiares com os problemas do jovem e com as questões escolares se constitui em outro elemento significativo. "Quando a família está ativa, dá mais certo. Mas alguns pais só fazem a matrícula e não querem mais saber", relata uma das diretoras consultadas. O ambiente de acolhimento e segurança que a escola pode oferecer e o contato constante de diretores e professores com os profissionais do programa que executa a medida também podem ser determinantes para um processo de integração social bem sucedido.


Sinase

A prioridade na aplicação das medidas de meio aberto - dentre as quais está a liberdade assistida - em detrimento da privação de liberdade é uma das principais diretrizes do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase). O texto final do plano está sendo fechado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), após ampla consulta a governos estaduais e municipais e à sociedade civil. O Sinase pretende estabelecer parâmetros para reordenar o atendimento aos adolescentes autores de ato infracional, num modelo que atenda às determinações do ECA. Também prevê a municipalização da execução das medidas em meio aberto. Ele será publicado como uma resolução do Conanda, encaminhado ao Ministério da Casa Civil e então seguirá ao Congresso Nacional como projeto de lei.

 

* Jornalistas Amigos da Criança é um projeto da ANDI
Autora do texto: Fernanda Sucupira, repórter da editoria de direitos humanos da Agência Carta Maior, foi diplomado Jornalista Amigo da Criança em 2005

Veja também:
Confira a íntegra da proposta de execução de medida socioeducativa revista pelo Conanda


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