Categoria ECA como instrumento de transformação
Viver para representar!
Peterson Xavier do Nascimento
São Paulo, SP
Dia 25 de janeiro de 2000, cabeça baixa na viatura, de repente um portão de ferro assusta-me depois de ter sido fechado com brutalidade:
– Escuta aí, ladrão, daqui pra frente você só escuta, mantenha a cabeça baixa e responda ‘ sim, senhor’ ou ‘ não, senhor’. Entendeu, Zé?
Foi a primeira coisa que ouvi ainda na porta de uma unidade da Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem). Quando entrei, o que eu pensava era que há pouco eu estava na rua, depois olhava para o lado e via todos olhando diferente. Não via mais um sorriso amigo. Apenas rostos angustiados, olhares de medo e sem esperança. Isso foi o que mais me chocou: um monte de meninos de cabeça baixa, sem expectativa de vida, sem um objetivo. Para todos, a vida tinha acabado. Para mim também.
A capacidade era de aproximadamente 70 jovens, mas havia pelo menos 350 dividindo aquele espaço e eu dormia no corredor num colchão com mais adolescentes. Fiquei dois dias nessa unidade e fui transferido para o Cadeião, uma cadeia de verdade. Olhava para os lados e só via grade, grade, grade. Também tinha o problema de superlotação. Fiquei dois meses no Cadeião e foi aí |
"Isso foi o que mais me chocou: um monte de meninos de cabeça baixa, sem expectativa de vida, sem um objetivo" |
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que perdi a esperança mesmo. Foi um longo tempo sem receber visita nem carta. Naquele momento, cercado de grades, percebi que realmente havia feito tudo errado.
Passado algum tempo, chamaram meu nome para visita. Era meu pai e foi nesse instante que percebi o tamanho do meu pecado. Doeu muito vê-lo. “O que fiz da minha vida?”, pensava, sem conseguir uma resposta. Uma semana depois, fui transferido para a unidade de internação e só então pude voltar a sonhar. Em todas as unidades pelas quais já tinha passado, não havia feito nada além de terapia ocupacional. Novamente, o contato com a família, que passou a me visitar, conferiu-me forças para tentar mudar de vida.
Com uma estrutura melhor, ficava em contato com atividades diversas, fiz o possível para participar de tudo. Comecei com aulas de cavaquinho, depois passei para o curso profissionalizante, jogava no time de futebol e voltei a estudar. Mais tarde, fui ver o que pegava nas aulas de teatro. Nas outras unidades, não tinha isso, era apenas “eu mando e você obedece”. Era muito legal fazer teatro, fazia exercício de improvisação de cenas da vida, tinha toda uma história, todo um contexto, uma existência, toda uma experiência, um exemplo.
Mais tarde, outras unidades foram incorporadas e o projeto tornou-se um só. A coordenadora de teatro da Febem tinha o objetivo de integrar todas as atividades culturais num único espetáculo. E foi assim que surgiu a idéia de encenar Dom Quixote de La Mancha. A característica física fez com que eu fosse chamado para ler o texto do protagonista. “Era rígido de aparência, seco de carnes, enxuto de rosto”. Li o texto de
"Todos estavam felizes de fazer algo novo e de estar livres por alguns momentos: subir no palco e sentir-se livre" |
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forma simples, mas com boa interpretação. Ganhei o papel e achei legal, muita gente falava que eu estava enlouquecendo, porque falava sozinho com um cabo de vassoura na mão. Incorporei mesmo, porque eu via no Dom Quixote muito dos meninos da Febem. O que passa na cabeça de todo mundo ali são sonhos, sonhos, sonhos... Que não se realizam por falta de caminhos ou |
por falta de estrutura.
Foram quatro meses de ensaio. A cada dia, aumentava a ansiedade. Não havia mais espaço no coração de cada um para subir definitivamente no palco e eu parecia o mais eufórico. Então, chegou o dia de felicidade. A demora aumentava a agonia, mas era preciso esperar a escolta e o ônibus, que nos levariam para o Memorial da América Latina. O dia era 11 de outubro de 2000. Todos estavam eufóricos por fazer algo diferente. Eu lembrava do personagem, a luta pelos sonhos... Todos que estão na Febem passam por isso. Todos estavam felizes de fazer algo novo e de estar livres por alguns momentos: subir no palco e sentir-se livre.
Depois de pouco mais de um mês, recebi a liberdade assistida e voltei para casa. Quando saí, já tinha uma proposta para outra apresentação e faltavam apenas duas semanas. No dia seguinte, eu estava na Febem para ensaiar. Em casa, ninguém entendia por que eu voltava para aquele lugar. Ensaiei todos os dias, mas, na véspera da apresentação, não consegui dinheiro para ir ao ensaio, o que preocupou a todos. Porém, no dia seguinte, lá estava eu novamente no palco e isso modificou para sempre minha vida.
Fiquei seis meses desempregado e afastado do que eu tinha aprendido lá dentro, contatei algumas pessoas que conheci na Febem. Valéria Di Pietro, diretora e coordenadora de teatro na Febem, conseguiu para mim um cargo de assistente de
educador. Foi assim que voltei novamente a ter contato com aquilo que mudou minha vida: o teatro. Quando conheci a Valéria lá dentro, fiz a mesma imagem que todos os internos. Ninguém acredita que as pessoas fazem as coisas para ajudar. Pensava que era um trabalho de política, falso e enganador. Mas quando saí e comecei a conhecer as pessoas fora, percebi os |
"Tenho muitos sonhos na minha vida. Só quando fui para a Febem tive oportunidade de ser alguém e fazer alguma coisa" |
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benefícios que elas levavam para lá, principalmente a Valéria. Então pensei: “Tenho muitos sonhos na minha vida. Só quando fui para a Febem tive oportunidade de ser alguém e fazer alguma coisa”. Comecei a perceber que, no teatro, eu podia ajudar os outros da mesma forma que me ajudaram. Por que não passar isso para frente? Tornei-me ator e educador, dei aulas de teatro durante três anos na Febem e tive a oportunidade de partilhar minhas experiências.
Hoje, mais de cinco anos depois desse fato sofrido e dessa fase de crescimento, não sinto vergonha nenhuma em dizer que fui interno da Febem e que sou um vencedor. Sou ator, educador e diretor cultural no Instituto Religare, onde continuo meu sonho, agora maior que em outras épocas: trabalho com crianças e adolescentes em situação de risco e egressos da Febem e deixo sempre uma frase no fim de cada aula para esses jovens:
– Nunca abaixem a cabeça para as pessoas e as dificuldades que possam encontrar pelo caminho. Foi assim que mudei minha vida e vocês podem mudar a de vocês!
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