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12/08/2005

Ao contrário do pensamento comum, jovens também têm atuação social

Fernando Sucupira sob a coordenação ANDI*

"O que você vai ser quando crescer?". Essa pergunta, infinitamente repetida a crianças e adolescentes, passa a idéia de que eles ainda são pessoas incompletas, na sala de espera da vida adulta. No entanto, cada vez mais os jovens mostram que não querem ser apenas espectadores do mundo e buscam formas de interferir na realidade em que vivem. Multiplicam-se pelo país grupos e organizações juvenis que se dedicam a diferentes temas, desde os religiosos e culturais, que aparecem em grande quantidade, passando por aqueles ligados apenas à juventude em si, até os de educação, sexualidade, esportes, cultura de paz, política etc.

Dentro dessa diversidade, há em comum a vontade de fazer alguma coisa pelo mundo em que vivem, pelas pessoas que os rodeiam e por eles mesmos. "Todo mundo busca um espaço para ser acolhido, um grupo para estar junto, brincar e trabalhar. É importante para entender desde cedo o lugar onde moramos e sentir que temos um papel importante nele", explica Ísis Soares Lima, 18 anos, uma das fundadoras da organização não-governamental (ONG) Cala Boca Já Morreu, de São Paulo. No projeto de educação, que já completa dez anos, as crianças e adolescentes produzem conteúdo para os diferentes meios de comunicação. Uma pesquisa realizada em 2003, pela Coordenadoria da Juventude da cidade de São Paulo, mostra que Ísis e sua organização não são um caso à parte. Só na capital paulista foram identificados cerca de 1.600 grupos juvenis, com a participação de mais de 300 mil jovens.

"O protagonismo juvenil leva os jovens a participarem do enfrentamento de problemas reais na escola e na comunidade, como parte da solução, e não do problema", afirma o professor Antonio Carlos Gomes da Costa, um dos autores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Alguns começam bem cedo, normalmente em atividades assistenciais ou escolares. Esse é o caso de Felipe Rabello, 18 anos, que desde pequeno, em Brasília, participava de gincanas, visitas a asilos e arrecadação de alimentos. Aos 12 anos, junto a amigos de uma turma de escoteiros, ajudou a fundar o Grupo Interagir, que se iniciou como um portal na Internet. Hoje, o Interagir é uma ONG que fomenta e articula o protagonismo juvenil, realizando ações em áreas como meio ambiente e tecnologia da informação.

Em alguns casos, os jovens ocupam espaços considerados estritamente dos adultos. Em Fortaleza, no Ceará, centenas de integrantes de grupos juvenis, coordenados pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente, desde 2003, vêm influenciando nas políticas públicas da cidade. No ano passado, foram
"O protagonismo juvenil leva os jovens a participarem do enfrentamento de problemas reais na escola e na comunidade, como parte da solução, e não do problema"
 
aprovadas, para o orçamento de 2005, nove emendas elaboradas pelos jovens, totalizando quase R$ 2 milhões, que serão destinados a projetos de atendimento às vítimas de exploração sexual, atividades físicas para portadores de deficiência, e informática nas escolas, entre outros. Os jovens acompanharam de perto as sessões de votação na Câmara e nesse ano estão monitorando a execução de suas emendas. Para Aline Moura, de 16 anos, que faz parte do grupo Jovens a Caminho da Cidadania (JOC), foi uma grande vitória. "Conseguimos mostrar que o adolescente pode lidar com política, que ele tem voz e força de vontade para exigir seus direitos. É importante sabermos o que está sendo feito com o nosso dinheiro", avalia a adolescente .

Mas não é só nos grandes centros urbanos que crianças e adolescentes vêm se organizando e participando dessas atividades. Diversos grupos agem, muitas vezes de forma isolada, no sertão nordestino ou no interior da Amazônia. Aos poucos eles estão se articulando regional e nacionalmente por meio de encontros, redes e fóruns temáticos que se difundem a cada dia. "Assim aprendo coisas que a escola não ensina. Estou me formando não só em gramática e física, mas também como um cidadão e um jovem consciente", conclui Felipe.


Fernanda Sucupira é repórter da Agência Carta Maior e Jornalista Amiga da Criança desde 2005

Leia também:
Análise estatística do Ilanud sobre a participação juvenil na sociedade


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