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16/08/2006

Grêmios podem ser arma contra violência

16 de agosto de 2006
sob a coordenação da
Agência de Notícias dos Direitos da Infância
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Alma do movimento estudantil, os grêmios têm ganhado novo papel nas periferias de cidades brasileiras: o de arma contra a violência. E não por acaso. Além de envolver os jovens - as maiores vítimas da criminalidade -, eles ocupam os únicos equipamentos públicos hoje presentes em quase todos os municípios: as escolas. E são ferramentas valiosas, segundo especialistas, para ensinar aos alunos práticas fundamentais para toda a vida. Democratizam o ambiente escolar e colocam os estudantes para lutar, lado a lado, com professores, funcionários e direção por projetos de melhoria da qualidade de vida da comunidade. 

"O processo de formação de um grêmio é muito importante porque começa a despertar os jovens para a participação política e a solução de conflitos de maneira pacífica, com diálogo em vez de briga", confirma Melina Risso, do
Instituto Sou da Paz - entidade que de 2001 a 2005 desenvolveu o projeto Grêmio em Forma, para formação de grêmios em escolas públicas. Para Melina, as agremiações valorizam as lideranças positivas. "Na periferia, o cara bacana, admirado, muitas vezes é o que anda armado, trabalha no tráfico. O grêmio é chance de quebrar isso", afirma. Sua importância também é ressaltada em leis federais, incluindo o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/96).

Depois de ajudar a formar 65 grêmios em escolas públicas de São Paulo e promover oficinas, cursos e publicações com essa finalidade - como o
Guia Grêmio em Forma, para educadores, e o Caderno Grêmio em Forma, para estudantes -, o Sou da Paz avaliou experiências em 28 colégios e descobriu dados reveladores: 87,5% dos alunos atribuíam maior importância à escola após participar do grêmio, 78,6% sentiam-se mais preparados para encarar desafios e, para 20% deles, aumentou a importância do diálogo.

"Para serem eficazes, os grêmios precisam ser reconhecidos como entidades legítimas e autônomas pelas escolas, o que nem sempre acontece"
"O jovem às vezes não dá ouvidos aos mais velhos, mas se vê outro jovem participando pensa: se ele faz, também posso", explica Mayra Soares, de 18 anos. Moradora da zona sul de São Paulo, ela participou do grêmio de uma escola estadual no Jardim Ipê. "Lá parecia um Carandiru, com corredores trancados, grades, bomba quase todo dia. Até morte de aluno já tinha tido", diz. Um panorama que não é exclusivo da região. Enquanto o total de homicídios registrados no Brasil cresceu 62,3% entre 1993 e 2002, entre os jovens de 15 a 24 anos o aumento foi de 88,6%, segundo o Mapa da Violência IV, da Unesco. Mayra lembra, porém, que o grêmio sinalizou mudanças e, em sua gestão, ocorreu a única festa junina da história da escola e um passeio ao Sesc Itaquera. "Na época acalmou bem. Meninos que sempre iam armados passaram a arrumar menos briga. O problema é que era tudo desligado da diretoria e acabou durando só três meses."


Autonomia

Regra de ouro: para serem eficazes, os grêmios precisam ser reconhecidos como entidades legítimas e autônomas pelas escolas, o que nem sempre acontece. No terceiro ano do ensino médio, Maurício do Amaral, de 19 anos, montou com Diego Barbosa, de 18, e mais cinco colegas da Escola Estadual Gilberto Freire, de Taboão da Serra, uma chapa para formação de um grêmio. Entre as propostas, cortinas nas salas de aula, suco no intervalo e música no recreio. Venceram a eleição e gostam de lembrar das novas amizades que fizeram e do respeito que conquistaram com a turma. Mas também esbarraram na falta de apoio do colégio. Com o tempo, a mobilização foi se esvaindo e a única promessa cumprida foi a instalação do som. Com bingos e venda de doces e salgados, eles ainda conseguiram fazer uma excursão ao Parque do Ibirapuera e a um centro de diversões da capital paulista, mas sobrou certa frustração. "A gente pedia, mas a diretoria não levava a sério", lamenta Diego. "Ficou chato porque o pessoal cobrava e a gente não tinha o que dizer".

A boa notícia é que já existem, porém, mais e mais profissionais da educação apostando nos grêmios. "Sempre digo a outros diretores: não há o que temer. Quando os alunos começam a entender o mecanismo de trabalhar em equipe, dão o melhor de si", diz Solange Leite, diretora da José Lins do Rego, escola estadual com dois mil alunos no Jardim Ângela, zona sul paulistana. "O bairro onde estamos já foi considerado um dos mais perigosos do mundo, mas tem uma comunidade bastante atuante. Quando entrei, em 2002, a escola já tinha grêmio, mas não tão voltado à cidadania", conta.

A escola implantou então um projeto pedagógico calcado na educação cidadã. Na prática, isso significou relacionar tudo o que é ensinado nas matérias ao exercício da cidadania, seja matemática, história, geografia, ciências, português. A partir da 5ª série, os professores discutem com os alunos porque é importante que aprendam tal assunto e como é possível utilizá-lo no dia-a-dia. A partir do projeto, a participação estudantil também ganhou força. Os alunos passaram a atuar em fóruns de discussão, como os do Sou da Paz e da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes), em entidades e passeatas, e a formar chapas para disputar a eleição anual - realizada em três turnos, com votação eletrônica na sala de informática.

Hoje nada se estabelece no colégio sem conversar com o grêmio. E os resultados compensam, segundo Solange. "Sempre tive ideal de formar alunos para cidadania e fico feliz em ver não só que temos boa aprovação em vestibular, mas que eles são tremendamente argumentadores". Não estranha, portanto, a escolha do lema grafitado bem na entrada da escola: "Todos juntos somos fortes."

 

* Jornalistas Amigos da Criança é um projeto da ANDI
Autora do texto: Luciana Garbin, pauteira do caderno Metrópole do jornal O Estado de S.Paulo, Jornalista Amiga da Criança desde 2001

 


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