Colunistas
22/01/2009
Edivaldo
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Neide Duarte conta o caso de uma criança que se recuperou do estado de fome crônica
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Era março de 1999, a cidade era São José da Tapera, sertão de Alagoas. Seguíamos pelas estradas da caatinga, rios temporários que viraram estradas, ossadas de boi pelo caminho.
Chegamos à casa de Rosineide, casa pobre, de chão batido. No colo, um menino pequeno, mas que não tinha aparência de bebê.
Edivaldo tinha 2 anos , pesava 5 quilos e meio. Era menino, mas tinha olhar de homem feito. Pouco riso, nenhuma vontade. Olhava pro sertão, mas era como se olhasse pra bem longe dali.
A mãe dele dizia que durante toda a gravidez passou fome.
- Eu não comia de jeito nenhum, do jeito que amanhecia o fogo apagado...chegava a noite sem ter o que comer, sem ter o que botar no fogo, fiquei muito acabada, nem barriga eu fiz dele, minha barriga era bem miudinha, acabadinha mesmo.
Roseneide tinha outra filha, mais velha, que já sabia falar e pedir.
- Quando dá pra dar, eu dou, quando não dá é o dia da fome. Eles ficam o dia todo chorando pra comer.
Tem vez que ela fica doidinha aqui pra comer, fica no meu pé: quero comer, quero comer. Eu me aperreio, saio pra fora, faço que não estou nem escutando...
Fomos embora dali, sem ver sombra de solução para melhorar a vida de Edivaldo e da irmã dele.
Voltamos dois anos depois.
Da irmã nada mais soubemos, a mãe caiu no mundo e deixou Edivaldo para trás, ele passou a morar na casa dos avós paternos, no povoado do Espírito Santo.
Quando chegamos, o avô estava sentado no degrau da casa, que dava para a varanda da frente. A avó tinha ido para o mato pegar lenha, para acender o fogão e preparar a comida.
Edivaldo estava escondido atrás do avô. Assim que nos viu, correu. O avô estava paralisado, tinha tido um derrame e não podia andar.
Edivaldo não se mexia, apenas respirava. Queria passar despercebido. Como se estar no mundo fosse tarefa para os que conseguiram crescer.
Esquecer a mãe que ele nunca mais viu, aceitar a nova moradia, aceitar algum carinho.
O corpo pouco tinha mudado. Com quase quatro anos ele pesava apenas sete quilos, o peso de um bebê de seis meses.
Quando a avó voltou, de lenço na cabeça e força nos braços, carregados de lenha, foi logo dizendo:
- Por que ele não está com a mãe? Pruque a mãe não queria, o pai pra não ver judiar trouxe ele. Quando chegou aqui, podia botar ele sentado em cima de um saco, que passava o dia.
Edivaldo foi brincar no terreiro com a agente de saúde. De repente, ouviu o barulho de um caminhão que passou longe, na estrada, foi o suficiente para despertar o seu medo. Saiu correndo e foi se colocar atrás das costas do avô, onde sabia que teria proteção.
O medo caminhava junto com Edivaldo. Ele vestiu roupa nova e junto com uma prima, uma menina de 13 anos, foi para o Centro de Saúde de São José da Tapera.
E lá, ele e a prima ouviram do médico o diagnóstico:
- A imunidade dele está comprometida. Devido a esse estado de fome crônica que ele passou. Ele está bem equilibrado hoje, não apresenta sinais de infecção, não tem nenhuma alteração aparente, mas a qualquer momento esse equilíbrio pode ser quebrado e ele pode ter algum problema: uma diarréia, uma infecção respiratória aguda e até vir a falecer, assim, de repente.
A prima olhava para o médico com jeito de quem não tinha entendido direito o que ele dissera. Não falou nada e começou a vestir a blusinha em Edivaldo.
Edivaldo também não disse nada, mas assim que sentiu o aparelho metálico no peito, quando o médico foi auscultar seu pulmão, chorou com toda a força que ainda tinha, como um protesto doído, diante de tamanha profecia, dita assim, de repente, como a morte.
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