Eu já tinha virado a casa de pernas para o ar! Se alguém chegasse naquele instante, talvez pensasse que alguma espécie de tsunami havia passado por lá.
- Amor, você viu onde está? - perguntei ao meu marido, enquanto me sentia meio "atolada" com tantos papéis espalhados pela sala.
- Onde está o quê?
- Aquele seu livro. Como se chama mesmo? O Estatuto... Aquele que você ganhou naquele curso... Epa! Acho que sei onde está! É claro, por que não lembrei antes?
Eu mesma havia guardado o exemplar novinho, que meu esposo recebera num curso para educadores, oferecido meses antes, na cidade do Rio de Janeiro. E lá estava ele o tempo todo, junto com os outros livros separados para levar à escola. É bem verdade que era uma publicação pequena, letras miúdas, encadernação simples e sem o requinte de alguns best-sellers; mas, quando o folheei, eu buscava ansiosamente as respostas para um grave problema que estava enfrentando.
Eu era professora da primeira série (atual segundo ano) do Ensino Fundamental de uma turma de crianças numa pequena escola localizada em Tanguá, um dos muitos municípios pobres do Estado do Rio de Janeiro. Na classe de 30 alunos, aquele menino gordinho, baixinho, pretinho e de olhar inteligente se destacava.
| Soube pelos alunos que aquele menino de olhar inteligente estava envolvido com pequenos furtos e que ele roubava basicamente para se alimentar |
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Kadu, com seus dez anos que pareciam menos, filho de mãe alcoólatra e pai desconhecido, já repetia pela terceira vez a primeira série. Não dominava a escrita nem a leitura, contudo surpreendia a maneira como ele prestava atenção às aulas, sua rapidez nos cálculos mentais e a forma terna com que se referia a mim. Ternura que, por sinal, ele só dispensava para a "tia" da escola, pois quando era provocado pelo outros alunos, urrava como um pequeno leão.
Assim os dias iam passando, e Kadu não progredia e nem era promovido de série. O motivo podia ser explicado, à primeira vista, como desinteresse, pois o menino sempre abandonava a escola quase na metade do ano letivo.
Naquele ano não foi diferente.
- Crianças, onde está o Kadu?
- Ah, tia, o Kadu não vem mais não!
- O quê? O que aconteceu?
- Sabe tia, o Kadu...
Assim eu soube pelos alunos que aquele menino de olhar inteligente estava envolvido com pequenos furtos, que não recebia apoio em casa, que as outras mães não gostavam que ele brincasse com seus filhos e que ele roubava basicamente para se alimentar! E o pior de tudo: ele já havia decidido que sua freqüência à escola naquele ano já havia mais uma vez se encerrado (e olha que mal havíamos dado início ao segundo bimestre!).
Aquilo não podia mais continuar. Eu sabia da existência do Conselho Tutelar. Procurei a diretora da escola e expliquei o caso a ela, em busca de seu apoio para resolvermos o caso juntas.
- Professora, você está louca? Esse negócio de encaminhar problema da escola para Conselho Tutelar não é bom negócio. Expõe alunos e funcionários desnecessariamente. Querida, Conselho Tutelar é, na verdade, um tipo de "delegacia para crianças", só que disfarçada com outro nome. Meu amor, esquece isso. Esse menino daqui a pouco estará de volta à escola. Todo ano é a mesma coisa. E tem mais, você sabia que a mãe dele tem amantes? E também que blá, blá, blá, blá, blá...
| Era a primeira vez que alguém buscava o Conselho Tutelar para dizer que o garoto era inteligente e que deveria voltar à escola |
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Eu mal podia ouvir. Cada palavra dita naquele dia pela diretora da minha escola era como um pequeno dardo envenenado, atirado pela força da ignorância. Saí da escola com a cabeça pegando fogo, disposta a tomar uma atitude. Foi assim que me lembrei da edição do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que meu marido havia ganhado no curso.
Ao manusear o ECA, encontrei logo de cara um artigo que desmentia minha "sábia" diretora. Era o que informava qual é o papel do Conselho Tutelar. E não tinha nada a ver com aquele papo de delegacia. Outro artigo que me saltou aos olhos foi o 56, que determinava que as faltas injustificadas e a evasão escolar dos alunos fossem comunicadas prontamente.
Assim, mesmo sem o apoio da direção da escola e sem conseguir convencer outra professora a me acompanhar até a sede do Conselho Tutelar de Tanguá, fui até lá e fiz a denúncia do caso.
O conselheiro relatou que já tinha conhecimento sobre Kadu, porém era a primeira vez que alguém buscava aquele órgão para dizer que o garoto era inteligente e que deveria voltar à escola. Até então, só haviam chegado ao Conselho Tutelar reclamações sobre seu mau hábito de se apoderar das coisas alheias sem autorização...
Kadu foi procurado em casa. Foi então constatada a negligência de seus responsáveis e a deterioração do ambiente familiar, e ele foi levado para um abrigo. Foi matriculado em uma escola próxima ao local onde estava vivendo e pela primeira vez conseguiu completar o ano letivo. Foi aprovado!
Quanto à minha diretora, contei para ela o que fiz, o que aprendi no ECA e lhe disse que, a partir daquele dia, em qualquer caso relacionado a faltas ou maus-tratos de crianças e adolescentes da escola, eu iria novamente procurar o Conselho Tutelar da cidade. Ela abriu a boca, mas não falou nada. Acho que entendeu que não tinha jeito mesmo...
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