A realidade da periferia paulista
Futebol e liberdade
Gol de placa
A realidade da perifeira paulista
A Capela do Socorro se transformou em um dos principais pólos de surgimento de loteamentos clandestinos. É lá que se verifica uma das maiores concentrações de favelas do Município de São Paulo, apesar de ser uma área de proteção manancial. A conseqüência destas irregularidades reflete-se na vida das pessoas que vivem por ali; a realidade é de profunda exclusão social, marcando a região com altos índices de violência e compondo parte do ciclo vicioso de uma complexidade de fatores: desemprego, narcotráfico, crime organizado, impunidade, violência policial, escassez na oferta de serviços públicos (notadamente saúde e educação), entre outros. Em um ambiente tal, não raro crianças e adolescentes integram o quadro de violência, cometendo delitos. Diante desta situação, o CEDECA Interlagos passou a acompanhar, em atendimento direto, adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto na região (Liberdade Assistida e Prestação de Serviços à Comunidade).
A experiência e as reflexões feitas a partir desta realidade mostraram a necessidade de se lançar novos desafios e um olhar diferenciado a esses jovens, diante da questão da reincidência e do desinteresse e descumprimento da medida socioeducativa. Durante o trabalho com os adolescentes que se envolveram em atos infracionais, detectou-se que o atendimento ficava aquém de suas reais necessidades enquanto sujeitos e que não cumpria a tarefa da reinserção social de maneira efetiva.
Enquanto grupo de educadores permanentemente inquietos, o CEDECA Interlagos procurou aproximar os seus saberes acumulados no conjunto de sua equipe multidisciplinar, contando inclusive com um educador formado em psicologia do esporte, para uma nova proposta que pudesse contemplar os processos socioeducativos com uma linguagem próxima aos desejos levantados pelos adolescentes.
O futebol, que é uma paixão de tantos brasileiros, passou a servir como ferramenta neste trabalho, uma vez que nas entrevistas iniciais ele aparecia como a atividade que os adolescentes mais gostavam de fazer aos finais de semana e no tempo livre. Diante deste desejo e com o potencial educativo do esporte, o CEDECA Interlagos começou a trabalhar de uma forma alternativa o paradigma da política pedagógica do atendimento direto destes adolescentes.
Ao olharmos a realidade da criança e do adolescente que moram na periferia de São Paulo percebemos a ineficácia do sistema educacional que o Estado Democrático de Direito Brasileiro tem promovido. As crises sociais têm se agravado muito devido às relações injustas de poder que o modo de produção capitalista impõe sobre as camadas ditas "populares", tornando-as de certo modo confinadas e fadadas a uma vida com pouquíssimas perspectivas, sem permitir o acesso a uma educação crítica e transformadora.
Segundo o entendimento dos profissionais do CEDECA Interlagos, a mera luta pela sobrevivência, sem perspectivas de um projeto de vida com dignidade, leva a criança e o adolescente da periferia a uma acentuada dificuldade em lidar com as questões e conflitos surgidas no cotidiano e a incapacidade de ler e interpretar, não as palavras, mas a sua própria realidade.
Por esses motivos, é que o CEDECA Interlagos aceitou o desafio lançado por Antonio Carlos Gomes da Costa " É preciso reordenar o sistema de atendimento, introduzindo em seu funcionamento mudanças verdadeiramente amplas e profundas, em termos de conteúdo, método e gestão. É preciso melhorar radicalmente as formas de atenção direta, mudando as maneiras de ver, entender e agir de todos os que atuam na implementação das medidas socioeducativas."(COSTA, 1999.)
A realidade do desemprego, miséria, falta de moradia adequada e saúde, situação de violência, (deficiências provocadas pela falta de uma rede de serviços a partir de políticas públicas com participação popular), faz com que a criança e o adolescente sem muito discernimento e referencial corra o risco de ultrapassar limites, cometendo atos infracionais que venham a prejudicar o seu desenvolvimento. Mas após o adolescente ter cometido o ato infracional, o que pode ser oferecido a ela para resgatar seu processo de socialização? Como é possível intervir de uma maneira transformadora?
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Futebol e liberdade
O sistema legal, implantado pelo ECA, vê o adolescente como sujeito de direitos e de responsabilidades oferecendo amplos mecanismos de responsabilização em caso de envolvimento com atos infracionais.
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O artigo 112 do ECA define as medidas socioeducativas como meios de intervenção na vida do adolescente autor de ato infracional com o objetivo de recuperação e ressocialização do mesmo na família, na comunidade e na sociedade, além é claro, do conteúdo punitivo existente.
O Projeto Futebol Libertário , como experiência inovadora no país, tem a finalidade de utilizar-se do futebol como agente transformador e instrumento metodológico de manifestação e resgate do ser humano. A prática esportiva como instrumento educacional visa o desenvolvimento integral dos adolescentes, capacita o sujeito a lidar com suas necessidades, desejos e expectativas, e com as necessidades, expectativas e desejos dos outros. O esporte como instrumento pedagógico é capaz de se integrar às finalidades gerais da educação, de desenvolvimento das individualidades, de formação para a cidadania e de orientação para a prática social. Este é um campo aberto para a exploração de novos sentidos/significados pelo socioeducando. Além de ampliar o campo experimental do indivíduo, cria obrigações, estimula a personalidade intelectual e física e oferece chances reais de integração social.
Na sua fase inicial, como um projeto piloto, realizado em 2003, atendeu 20 adolescentes de ambos os sexos, na faixa etária de 12 a 17 anos e 11 meses, inseridos(as) nas medidas socioeducativas em meio aberto. Os adolescentes passaram por um processo de seleção realizado pelos educadores responsáveis e deveriam estar inseridos na medida há pelo menos um mês, para que ao final do processo pudesse ser solicitado o encerramento da medida juntamente com o término do número de sessões/atendimentos. Buscou-se nesta seleção envolver vários tipos de atos infracionais para tornar o grupo heterogêneo.
Esse trabalho aconteceu com grupos fechados de adolescentes em atendimentos semanais. O CEDECA Interlagos fez uma parceria de concessão de espaço com o SESC Interlagos, a partir do qual os jovens passaram a utilizar os espaços físicos para a prática do futebol participativo educacional com alterações de regras, por um período de aproximadamente três horas.
Para cada sessão, foi estruturada uma série de atividades que procuravam respeitar as fases do grupo para: criação de vínculo, superação das crises e descoberta de objetivos comuns. Para cada uma foram observados os seguintes objetivos específicos:
Explorar o desejo e o potencial educativo do futebol;
Criar um ambiente para o processo de integração pessoal com a tomada de consciência de sua própria dignidade, auto-estima, consciência corporal, comunicação, responsabilidade, autonomia e exercício da cidadania;
Fortalecer a integração familiar com aceitação de sua família como ela é com a possibilidade de reconciliação, busca da segurança afetiva, fraternidade e colaboração entre todos;
Acompanhar e orientar os adolescentes cumprindo medida socioeducativa;
Criar um ambiente favorável à integração social do adolescente trabalhando com convivência, solidariedade, participação, consciência crítica, senso comunitário, cooperativismo;
Fomentar a sensibilidade para a transformação social e política a partir da sua própria atuação.
Para o atendimento, nesta metodologia, o projeto contou com 01 professor de Educação Física, 02 psicólogos do esporte e 01 educador social. Estes profissionais criaram a seguinte rotina de atendimento: roda inicial para informes gerais da atividade, cuidando da saúde com a freqüência cardíaca, aquecimento, jogos cooperativos e jogos adaptados e uma roda final com a avaliação dos protagonistas. Também são emitidos relatórios descritivos e avaliativos dos profissionais envolvidos. Todo o trabalho deste piloto foi filmado e gravado em K7, com os relatórios das atividades e reuniões.
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Gol de placa
Com essas ações inovadoras foi possível perceber que, com esse tipo de linguagem, mais próxima ao desejo desses jovens, todo o trabalho de acompanhamento ficou facilitado. Os adolescentes passaram a entender melhor o sentido reparador da medida a que foram submetidos: a lógica socioeducativa. Com isso procuraram superar seus obstáculos no sentido de um distanciamento do ato infracional.
Neste grupo, especificamente, foram utilizados os seguintes indicadores para avaliação: agressividade versus cooperação, assiduidade, pontualidade, envolvimento/participação e desenvolvimento do processo da medida. Sendo assim, foi possível observar que no início os jovens traziam problemas, muitas vezes ligados a situações de violência e agressividade, mas que no decorrer das atividades, tendo a possibilidade de externalizar esses sentimentos, com a cooperação e ajuda mútua, puderam superar esta fase inicial.
A mudança no comportamento e na atitude dos mesmos na busca de seus objetivos pessoais marcou esse grupo, pois os jovens escolhidos têm procurado caminhos diversos de inserção social, como a arte, o trabalho, cursos profissionalizantes e os estudos.
Nenhum socioeducando faltou nos atendimentos do Projeto Futebol Libertário, o que revela o grande interesse que estes adquiriram e a aceitação da nova metodologia aplicada. E apenas um adolescente não recebeu a extinção da medida socioeducativa em meio aberto (devido a questões pessoais) pelo Poder Judiciário.
Este trabalho interessantíssimo poderia atender um número muito maior de jovens, servindo inclusive como denúncia da falta de políticas públicas e auxiliando na reflexão de cenários possíveis para a execução das medidas socioeducativas em meio aberto, viabilizando-lhes a credibilidade do Poder Judiciário no incentivo a sua aplicação e execução não mais nos modelos arcaicos e ineficientes que infelizmente são ainda usados.
O projeto piloto, realizado no ano de 2003, com o apoio integral da iniciativa privada, teve resultados extremamente satisfatórios para o CEDECA e principalmente para os jovens atendidos, motivo pelo qual o coordenador Fábio Silvestre Silva busca novos parceiros para a continuidade do trabalho.
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Contato
Fábio Silvestre Silva (coordenador de Liberdade Assistida)
psilvestre@uol.com.br ou cedeca.inter@uol.com.br
Rua Nossa Senhora de Nazaré, nº 51, Cidade Dutra, São Paulo - SP
CEP: 04805-100
Tel. (0XX) 11-5666.9861
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