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Gestão de ONGs
Elaboração de projetos

Do latim, projectus 'ação de lançar para a frente, de se estender, extensão', do rad. de projectum, supn. de projic è re 'lançar para a frente'

Do latim, elab ó ro ‘obter, realizar à custa de esforço ou trabalho, elaborar; trabalhar com cuidado, aplicar-se afincadamente'; aplicado à fisiologia, elaborar tem o significado de ‘fazer com que fique assimilável, produzir substâncias’; ao mesmo tempo, a raiz labor traz o sentido de 'trabalho, esforço, sofrimento, dor, fadiga'

(Houaiss)

Do latim, elaborar ‘trabalho do espírito que conduz a uma idéia’

Do latim, projetar ‘atirar longe, arremessar’

(Aurélio)

O Exercício do Espírito.

Hoje se utiliza muito os termos acima nas organizações da sociedade civil. E quase sempre relacionados à captação de recursos e à busca de financiadores. É um assunto considerado prático e útil, sem o qual a organização não poderia "convencer" ninguém sobre a seriedade do que faz ou sobre a importância dos seus empreendimentos. Tem sido comum ver as ONGs contratando profissionais que sabem "escrever projetos", documentos usados para conseguir dinheiro e apoio de parceiros.

Mas, é interessante observar a essência etimológica dos termos, que, no estado puro, trazem a mensagem do trabalho e da produção. Do exercício de transição para o futuro, que tem origem no espírito e na capacidade de abstrair cuidadosamente o que há no presente, transforma-se a realidade em substância.

Não sem sofrimento, dor ou esforço, a elaboração de projetos é trabalho de transformação, antes de tudo. E a base para tal produção transformadora são os movimentos orgânicos do presente. Derivado, portanto, de organismos vivos, o processo de elaborar projetos é a arte de fazer um arranjo sistemático de movimentos e idéias presentes nas pessoas e no trabalho que acontece. É olhar para o futuro, com base no presente. É ousar estender, com respeito ao sistema orgânico que vive no grupo. É prestar atenção aos elementos que já existem, e, a partir daí, evoluir.

Por estas razões, elaborar projetos é impossível acontecer "do nada". Sempre há uma matéria prima, algo que se modifica para gerar o futuro.

E qual é esta matéria prima?

Esta matéria se compõe da tensão entre dois pólos: as necessidades sociais e as oportunidades sociais. Desta relação interessante nasce a intervenção sob a forma de um projeto, que, em última análise, pretende transformar para melhor o contexto aonde se desenvolve.

 

Os elementos básicos.

A ação atual... No esforço de planejamento, para que a equipe compreenda o que já faz, o grupo descreve trechos de seu trabalho. É real, sincero, objetivo, simples.

Descrever o que se faz e ordenar as idéias ajuda a compor o presente, observar a prática e descobrir lacunas. Ajuda também a revelar a Missão do grupo de trabalho e a consolidar o que está bom. É um poderoso instrumento de gestão organizacional, incluindo aí todos os campos gerenciais: articulação social, serviços, equipe, finanças e tomada de decisão.

O contexto atual: o público-foco e os ativos comunitários... Ao descrever a ação atual, fica claro que há dimensões diferentes de ações:

  • algumas são diretamente dirigidas a um público que chamamos foco - aqueles a quem as ações querem impactar diretamente
  • e algumas são dirigidas aos interessados no trabalho e seus resultados - são colaboradores, apoiadores, membros da comunidade, financiadores.

A consciência sobre as duas dimensões nos leva a melhorar nossa análise de contexto, dando foco a cada uma, separadamente.

O público-foco é um segmento da sociedade com determinadas características em comum (idade, sexo, profissão, interesses, etc.), ao qual se dirige uma mensagem, um serviço, uma ação. É nele que o projeto quer ver os principais resultados.

Analisar o contexto do público-alvo é considerar todos os grupos que o circundam, observando problemas e qualidades, sofrimentos e oportunidades que estão em torno dos indivíduos a quem o projeto pretende ajudar. E ainda, evoluir para análise da causa dos problemas, para desenhar melhores e possíveis soluções. A análise extrapola aquele conjunto de pessoas diretamente visadas - atinge também suas famílias, seus ambientes, seus grupos de convívio. Por exemplo, um projeto dirigido ao público-foco "cegos" também pode transformar outras pessoas e instituições: as famílias daqueles cegos, uma vez que pode afetar os hábitos e práticas de âmbito familiar; a escola daqueles cegos, uma vez que pode modificar práticas pedagógicas e atitudes em sala de aula; os amigos daqueles cegos, uma vez que pode interferir no comportamento relacional do cego e seu grupo social. A análise de contexto do público-foco é, portanto, determinante na abrangência do projeto e na escolha de suas ações, conforme o alcance social desejado.

Os ativos são o outro aspecto do contexto do projeto. São os elementos que podem contribuir para sua consecução e que já existem no ambiente onde o projeto vai intervir. Geralmente estes ativos são de âmbito comunitário, por isso são chamados comumente de ativos comunitários. Quem são? São indivíduos, empresas privadas, órgãos públicos, associações comunitárias que podem servir de apoio para a realização das atividades propostas pelo projeto. São importantes elementos de consolidação, pois representam o que há de melhor na vida cotidiana do público-foco, mesmo antes da instituição promotora do projeto estar lá. Por isso mesmo, por serem elementos próprios da comunidade, são fontes de poder para ela, fontes de autonomia e de independência.

O desejo... Depois de analisar o contexto, agora o futuro. Como deve ser? Quais as mudanças desejadas, factíveis? Quais delas combinam com a vocação institucional? Que talentos estão à disposição na equipe? Qual é, então, a Missão ou Objetivo Geral do projeto, aquela grande mudança desejada para a coletividade? Quais são os Objetivos Específicos do projeto, aquelas mudanças menores, resultados necessários para chegar à grande mudança final?

São estas questões que delineiam o perfil do futuro. Apontam para uma paisagem de sonho, mas, que tem pés no chão. Concisas, dizem tudo. Simples, às vezes, tocam o coração e desafiam a inteligência para o próximo elemento: "como chegar lá?"

As ações futuras... Responder "como chegar lá?" é a essência deste elemento, chamado plano de trabalho, cronograma de atividades, ou qualquer outro nome que designe uma seqüência de ações dispostas com bom senso e distribuídas no tempo. Sucinto, objetivo, este é o roteiro do fazer.

O dinheiro a ser investido... "Quanto custa fazer tudo isso?" O elemento do dinheiro. Orçamento é o nome dado ao cálculo aproximado do custo de obras, empreendimentos, serviços, etc.. enfim, das ações planejadas pelo projeto. Sendo uma estimativa, deve pormenorizar receitas e aplicações de recursos a serem disponibilizados para as finalidades descritas. Um bom orçamento é baseado nos princípios da transparência e simplicidade. Comunica e planeja a entrada e saída do dinheiro. Este elemento se constitui de uma planilha, um quadro que aponta itens e valores. E só. Mais do que isto é "poluir" o projeto com excessos de texto ou tópicos desnecessários à compreensão.

O foco de avaliação... Procurar descobrir qual o valor do projeto para a sociedade é dever de todo empreendedor. O grupo que tem esta questão genuína, de saber se o que está fazendo vale mesmo todo o esforço investido, é um grupo maduro e consciente da finitude de recursos, tanto humanos como materiais.

Finitude tem raiz do lat. f í nis,is 'limite, fronteira, confins, raia, marco divisório’. Realmente a avaliação é um marco divisório, uma análise do limite das ações do projeto, onde conseguiu chegar, para onde deve ir daí em diante. Descobrir resultados finais e intermediários, ampliar a visão dos integrantes da equipe, refletir sobre erros e acertos, buscar a aprendizagem como forma de avançar a partir da própria experiência, tudo isto é avaliação.

O elemento da avaliação de projetos tem muito sentido no contexto das definições exploradas no primeiro parágrafo deste texto: Projeto, que leva à idéia de "lançar para frente" e elaboração, que traz a noção de "trabalhar com o espírito em direção a uma idéia". Ao contrário do antigo paradigma, que "rezava" a avaliação como uma mera análise do passado, atualmente o conceito aponta para o futuro, a aprendizagem, o desenvolvimento pessoal e coletivo.

Aqui foram apresentados e discutidos o conceito da elaboração de projetos e os conceitos subjacentes a ele. Evoluir neste tema implica em praticá-lo. Sua aplicabilidade vai desde a vida pessoal à vida profissional, desde a individualidade à coletividade. Usar este conceito é aprendê-lo mais e mais.

 

Links de interesse:

www.acaoeducativa.org.br; www.coepbrasil.org.br

 

 Sugestões para leitura:

CORROCHANO, Maria Carla, WRASSE, Dílson. Elaboração participativa de projetos : um guia para jovens. São Paulo : Ação Educativa, 2002. 76 p.

Cadernos de Oficina Social do Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida - COEP.

Autor: Rosana Kisil - Instituto Fonte

Observação: "Elaborar projetos é impossível acontecer do nada; sempre há uma matéria prima, algo que se modifica para gerar o futuro". Partindo deste princípio, explora-se alguns elementos básicos para o sucesso de um projeto.

Público alvo: C

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