Causos do ECA
14/09/2009
Escola, vida nova

Vinicius Jorge Carneiro Sassine
Goiânia - GO
Os meninos confirmavam o dia:
– Hoje é quinta-feira, né, professora?
Amália já tentava evitar a frustração:
– Isso, quinta-feira. E amanhã é um dia normal, dia de trabalho para todo mundo.
Sexta-feira é dia de visitas no Centro de Internação de Adolescentes (CIA), que funciona no 1º Batalhão da Polícia Militar (PM) em Goiânia. É o dia tão esperado pelos adolescentes, que não conseguem conter a ansiedade em sala de aula. Amália, ali, no ambiente da escola instalada dentro do batalhão, é mais do que uma professora. É a principal referência para um grupo de adolescentes infratores que, durante as aulas, tenta dar um rumo diferente à internação e às suas próprias vidas.
Amália já se acostumou com muitas famílias que não aparecem nas sextas-feiras. Os meninos, não. Esperam ansiosos a visita dos pais, dos irmãos, das namoradas. O tempo de espera – pelos familiares, pela liberdade e pela mudança de rumo – só fica menor por causa da Escola Estadual Vida Nova. É a escola a ocupação mais importante dos adolescentes. São poucos os recursos pedagógicos, as salas de aula estão ao lado das celas do Batalhão da PM, faltam conforto e silêncio. Mesmo assim, a presença de professores como Amália e a relação de confiança gerada despertam a sensação de mudança.
Como repórter, sentei-me em uma das carteiras, no fundo de uma das três salas de aula. Queria acompanhar a aula, entender como funciona a escola onde só se matriculam meninos infratores. A história de vida desses adolescentes é conflituosa, reproduz uma violência que passou a ser rotineira. Quando voltam a um banco de escola, parecem dar uma chance ao anseio de familiares que os visitam nas sextas-feiras. É o anseio, também, de quem se cansou de comparecer a um batalhão de polícia.
Amália ensinava a importância das preposições. Entre as explicações sobre o "de" e o "para", respondia aos insistentes questionamentos sobre as visitas do dia seguinte. A primeira mensagem, a da gramática, era anotada detidamente nos cadernos. A segunda, a preparação para uma possível ausência de pais e irmãos na sexta-feira, era assimilada intimamente.
Havia em cada aluno um sinal de respeito, tanto com Amália quanto em relação ao espaço da sala de aula. Não é uma conquista generalizada. São poucos os professores que conseguem essa empatia.
Amália, bem diferente da repulsa de outros docentes, quando ficam sabendo que precisarão passar por celas, sempre quis dar aulas na Escola Vida Nova. Pediu para ter o Batalhão da PM como local de trabalho. Depois de um longo trabalho com meninos e meninas em situação de rua, se achava preparada para a missão. Há um ano e meio foi transferida. E não tem para ninguém: é a preferida dos adolescentes.
A preferência é sinônimo de aprendizado, manifestado durante as aulas. Os alunos lêem, anotam, respondem às perguntas, participam das tarefas, fazem redações onde traduzem em palavras uma vida jovem e, ao mesmo tempo, intensa e complicada.
Na Escola Vida Nova, não há a ociosidade típica da reclusão. Mesmo com todas as deficiências e com a falta de investimento num espaço pedagógico fundamental para incontáveis destinos, a escola materializa o que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Adolescentes infratores precisam estar matriculados. É o entendimento legal do poder efetivo da educação.
– Professora, a senhora vai participar da festa junina?
– É claro que sim!
Amália é a principal convidada da festa mais movimentada do centro de internação. A professora de língua portuguesa se depara, diariamente, com as mais diversas realidades. Em uma sala, estão os alunos mais comportados. Na outra, os adolescentes que descumpriram as regras do CIA e que foram punidos por isso. Na biblioteca, ficam os estudantes que não aprenderam a ler e a escrever. Estão, novamente, sendo alfabetizados.
A Escola Vida Nova, em todas as suas concepções, é completamente diferente de uma escola tradicional. Os alunos são agrupados por níveis de ensino e capacidade de aprendizagem, e não necessariamente por séries. Entram, por exemplo, na metade de um ano letivo e saem antes do término. Carregam impressões e julgamentos que os deixaram numa situação difícil com a Justiça, com a polícia e com a comunidade onde viviam.
Na reclusão, a medida socioeducativa mais dura prevista pelo ECA, os meninos encontram um espaço até então inédito para eles. A Escola Vida Nova, mesmo no ambiente de cárcere, prende os estudantes de uma forma que ainda não havia acontecido com suas vidas escolares. É, sem dúvida, o principal caminho para a recuperação.
– Foi desta turma que saiu o último vencedor do concurso de redação, anima-se Amália.
– Quando começam as próximas oficinas, professora? Quer saber um dos alunos.
O Pintando o Sete, concurso promovido pelo Juizado da Infância e Juventude de Goiânia, coloca os adolescentes para produzirem textos que são verdadeiros documentos de suas vidas. A leitura dessas redações convida qualquer um para a reflexão. Era esse o motivo da minha presença ali: entender a importância da sala de aula para as vidas dos meninos e transformar isso numa reportagem, da mesma forma que eles transformam suas vidas em redações tão impactantes.
Amália ministra as oficinas, coloca os adolescentes para escreverem tudo no papel. Depois, corrige cada texto e propõe aos alunos que resumam suas obras. É um exercício de cortar trechos desnecessários para a compreensão e para a vida dos textos. Um exercício de emprego das preposições.
Ao saírem da Escola Vida Nova, vitoriosos ou não do Pintando o Sete, os alunos carregam mais do que o certificado de conclusão do ensino fundamental ou do ensino médio. Levam ensinamentos que vão além da aplicação de preposições ou da coesão de um texto.
Amália só lamenta ter tão poucas notícias dos meninos. Quase não existe acompanhamento de suas vidas, por causa da divisão de competências entre Estado e municípios. Alguns vão voltar às salas de aula de Amália. Outros seguirão, longe da escola, suas vidas novas.
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