Do clipping da Andi
O estudo “Mobilidade Social no Brasil: o papel da educação e das transferências de renda”, ainda inédito, comprova que concluir o ensino fundamental não é garantia de uma condição de vida razoável no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 1976, apenas 6% da população de 25 anos ou mais com oito anos de estudo viviam na pobreza, índice que subiu para 14% em 2006. “A tendência é que aumente, na medida em que o mercado de trabalho se torna exigente”, afirma Marcelo Medeiros, um dos autores do levantamento e integrante do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Sob essa perspectiva, o especialista ressalta a necessidade de estender ao ensino médio o Programa Bolsa Família, principal incentivo do Governo Federal para a redução da pobreza. Hoje, apenas 3% dos 16,2 milhões de alunos beneficiados pelo Bolsa Família estão no ensino médio. Eles se enquadram no auxílio criado em março do ano passado para pessoas de 16 e 17 anos. São adolescentes que deveriam frequentar o antigo segundo grau. Porém, devido ao atraso escolar, só 30% deles cursam a série adequada. Ciente da necessidade de garantir o ensino médio aos alunos brasileiros, o Ministério da Educação (MEC) atua em diversas frentes, inclusive com uma proposta de tornar essa etapa escolar obrigatória no País.
Em relação à modificação nas regras do Bolsa Família para alcançar o público do ensino médio, a pasta discorda alegando que grande parte dos estudantes nessa fase do ensino hoje tem idade superior ao limite de 17 anos. “Sabemos que um jovem de 18 ou 19 não tem mais uma vinculação forte com o grupo familiar, pelo menos dentro desse conceito do Bolsa. A segunda questão é que, ainda que o garoto termine o ensino fundamental com 16 ou 17 anos, já enxergamos isso como um avanço. Veja que, apesar do atraso, essa geração, que provavelmente tem pais analfabetos, conseguiu romper um histórico familiar importante”, explica Daniel Ximenes, diretor de Estudos e Acompanhamento das Vulnerabilidades Educacionais do MEC.
A estratégia do Governo Federal, segundo Ximenes, para colocar o aluno brasileiro no ensino médio é, além de tornar essa etapa educacional atraente, ampliando a oferta e adotando melhorias pedagógicas, ajustar a distorção idade-série nos anos escolares iniciais. Para se ter ideia, 44% dos adolescentes entre 15 e 17 anos no País ainda não completaram o ensino fundamental. A especialista em desigualdade, estratificação e programas sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Celi Scalon, ressalta, porém, que a educação não é o único meio de garantir ascensão social. “Lógico que escolaridade se configura em um elemento importante, mas existem outros fatores, como redes sociais, acesso à tecnologia, cultura familiar”, destaca. Diretora do Centro de Estudos de Desigualdade, ligado à Universidade Federal Fluminense, Celia Kerstenetzky questiona ainda o nível da educação. “O vetor mais importante de progressão escolar, na minha opinião, é a própria escola, a qualidade do ensino, a atratividade, extensão de jornada, não o Bolsa Família. Temos de decidir se queremos que crianças e adolescentes estejam na escola porque desejamos que tenham acesso a oportunidades de realização e desenvolvimento ou, simplesmente, como contrapartida pelo custo do programa”, diz.
Correio Braziliense (DF) – 29/06/2009