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Causos do ECA
29/08/2008

Viver em família - Beatriz Gonçalves Kawall

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Beatriz Gonçalves Kawall
Curitiba - Paraná

De olhar cabisbaixo, opaco, mudo, ou quase calado. Dez anos, magro, abrigado! Diziam que o pai havia lhe batido, surrado. Na aula pouco ia; quando ia, os colegas o rejeitavam. Fedia.

Quem vê o drama, se comove. Avalia, discute, decide, determina encaminha, abriga.

O pai atônito não compreende, se ressente, pede perdão, perde, solidão.

Quem vê o drama, se comove. Avalia, discute, decide, determina encaminha, ajuda.

Mario, se chama esse menino. A história da qual ele é protagonista começa em 13 de agosto de 2007, dia do seu abrigamento na Casa do Acolhimento Pequeno Cidadão, da Fundação de Ação Social, no município de Curitiba, no Paraná. Ou melhor, a história desse menino começa no dia de seu nascimento.

Na memória, ele traz a rejeição da mãe e a prisão do pai que, após a cura do alcoolismo e do uso de drogas, se viu e se assumiu, de fato, responsável pelo pequeno Mario, então com apenas dois anos. A mãe fica com o menino mais velho, casa-se novamente e tem mais uma filha. O irmão, hoje com 14 anos, analfabeto, circula entre as duas casas. A pequena mal conhece o irmão. A mãe, dizem, como o marido, está acabada pelo álcool.

Mas voltemos ao Mario e sua curta, porém intensa história. Em uma área de invasão, habitam Mario e o pai, num barraco, onde repartem a mesma cama e compartilham os mesmos hábitos: dormem e acordam tarde, higiene quase nenhuma, alimentação à base de pão, ovo, lingüiça... pouca fruta, pouco legume. No mesmo terreno, em outra casa, moram a avó e uma tia, esta portadora de transtornos mentais leves.

É um piá inteligente, alfabetiza-se e se torna protagonista, como o único leitor na sua pequena comunidade
Indisciplinado no horário, o menino falta muito à escola. Mas é um piá inteligente, alfabetiza-se e se torna protagonista, como o único leitor na sua pequena comunidade, responsabilizando-se por passar os recados, ler os compromissos, inteirar-se de datas.

O pai cata e revende sucatas. Tem uma mobilete, com a qual se locomove pela cidade, fazendo seus negócios. Em 2006, atingido por um motorista alcoolizado, sofre um grave acidente, no qual quase perde uma perna. Vem a imobilização e um longo período de recuperação. Mais uma vez, nosso pequeno herói entrava em ação: com nove anos de idade, Mario limpava e fazia curativos na ferida do pai.

Na escola, porém, o que se via era indisciplina, negligência, surra. E veio a primeira denúncia. O pai bate! O Conselho Tutelar é chamado. Avalia, discute, decide, determina, encaminha, abriga.
O Conselho aproxima-se do pai. O pai confia, baixa a guarda. Aceita. Numa relação de respeito mútuo, todos buscam modificar a história. Melhorar, crescer, aprimorar.

Devagarzinho, os hábitos de pai e filho vão se modificando. O Conselho fica em cima, ampara e cobra. O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) auxilia, a Saúde intervém. Vão ambos para a terapia. Mais higiene, mais disciplina. Até que um dia, o pai se desespera, se destempera, bate e morde o menino. A escola denuncia. Reincidência! Abrigado! Separados!

Quem vê o drama, se comove, acolhe. Avalia, discute, decide, determina encaminha, ajuda. “Os dois têm um bom vínculo”, diz alguém. “A situação foi pontual”, diz algum outro. “O pai só precisa de um empurrãozinho”, afirmam. Os dois têm tudo para voltarem à convivência. Sendo assim, é caso para a Família Acolhedora.

“Os dois têm um bom vínculo”, diz alguém. “O pai só precisa de um empurrãozinho”, afirmam. Os dois têm tudo para voltarem à convivência.
Do outro lado da cidade, está essa família. Pai, mãe e filho de dez anos. Prontos e preparados, eles aguardam.

– Querem receber o Mario para cuidar dele como filho, até que o pai possa recebê-lo de volta?

– Sim, é claro!

E lá se vai o nosso menininho, ainda machucado, cabisbaixo, reaprender a ser criança, a jogar bola, a escovar os dentes e a tomar banho todos os dias. E aprender o que é ter uma mãe, que acolhe e dá limites, aprender a comer frutas com iogurte pela manhã, a dividir brinquedos e conhecer suas responsabilidades. E como aprende rápido esse Mario!

Aprende rápido, porque foi bem educado. Bem educado por um pai por quem ninguém dava nada. Um pai que, à sua maneira, o acolheu, quando do abandono da mãe. Alimentou, cuidou dele quando doente, levou à escola, não deixou que trabalhasse. E, sobre todas as coisas, amou. Amou desde o primeiro momento, com um coração apaixonado que se comove quando conta um fato, que se prontifica a fazer tudo que pode, para ter o filho de volta. E Mario sabe disso. E sabemos que é recíproco. O amor está presente em cada reencontro, em cada olhar, em cada abraço.

E a vida segue. As feridas vão sendo curadas. O pai constrói casa nova, com tapete, sofá, duas camas e vasinho de flor. Vai à terapia, prossegue com o apoio da equipe do Família Acolhedora, do CRAS, da Rede Socioassistencial, do Conselho Tutelar. Em sua fala, aceita o destino como aprendizagem. Casa nova, vida nova. Casa limpa, roupa limpa, rotina. Filho e pai prontos para a volta.

E a vida segue, até que, em dezembro de 2007, os dois voltam a ficar lado a lado. É o Mario, de cabeça erguida, riso frouxo, franco, aberto, amparado!!!

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