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Causos do ECA
04/07/2006

Antes tarde do que nunca - Finalista do 2º Concurso "Causos" do ECA

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Categoria ECA como instrumento de transformação

Antes tarde do que nunca

Eliana Rodrigues Pereira
Campinas, SP

Túlio nasceu antes do surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Não tinha mãe, não tinha pai e então “aquele homem” mandou-o para um lugar onde diziam que cuidariam dele, só que lá o menino era apenas um número.

Na imensidão dos corredores, na imensidão dos quartos e camas juntadas, Túlio não tinha vontades, desejos, amor. Permanecia no seu canto e só fazia o que lhe mandavam, ora para cá, ora para lá, sem escola, sem amigos e sem quem o acolhesse, embalasse-o, cresceu muito triste, mas sempre sonhando. Vivia neste local com outras crianças e também com aqueles que haviam praticado alguns furtos. Convivia com grandes e pequenos, todos assim de um lado para outro sem nada para fazer, nem mesmo brincar ou ler.

O garoto cresceu, fez 18 anos e então saiu de lá, mandaram-no embora, mas o que fazer? Sabia apenas que seu número era 358 e nada mais, além disso. Não tinha família, não tinha eira nem beira. Ficou zanzando pelo Rio de Janeiro e então eis que surgiu uma senhora e perguntou-lhe se estava com fome e de onde era ele. Então o número 358 começa a ser Túlio, que tem uma história para contar, que pode ser ajudado, morar na casa de alguém, estudar. Só então começou a entender a vida e foi
"Sabia apenas que seu número era 358 e nada mais, além disso. Não tinha família, não tinha eira nem beira. Ficou zanzando pelo Rio de Janeiro"
por meio de seus estudos que veio a conhecer que haviam “inventado” uma lei que protegia crianças que cresciam como ele e que poderiam ter um lugar para morar, para viver com famílias acolhedoras e ter o próprio nome ao invés de número, ter escola, atendimento médico e dentista. Enfim, tudo que as outras crianças tivessem.

Túlio foi entendendo mais e começou a fazer ajuda de outras pessoas que acreditavam em seu sonho e com seu salário bastante minguado, foi construindo a tão sonhada casa para crianças que, por algum momento em suas vidas, estivessem precisando ser acolhidas, amadas e cuidadas. Assim, elas teriam um espaço para brincar, para ir à escola, mas mantendo o contato com sua família para, então, serem novamente incluídas na família de origem ou, se não fosse mais possível, terem uma família substituta para oferecer tudo que aquele “livrinho” diz que crianças e adolescentes devem ter.

Túlio passou a ser o tio Túlio, respeitado pelas crianças que viviam em seu lar e que eram educadas com respeito e dignidade. Em cada uma delas ele realizava-se, pois via que ele não pôde ter tudo isso, mas que poderia fazer por outras crianças aquelas coisas que muitas e muitas noites ele sonhou lá naquele quarto imenso, com um número pregado na sua parede, o 358. Hoje, Túlio vive feliz cuidando de sua horta e dos seus muitos “filhos”, alguns espalhados por todo o estado de São Paulo, já adultos e que continuam a disseminar aquilo que aprenderam com o tio Túlio na Casa da Liberdade. E este lar é muito respeitado por todos do município de Campinas, local onde Túlio escolheu morar e dar prosseguimento a seu sonho que se tornou realidade por meio deste pequeno livrinho, mas um grande instrumento que deve ser usado por todos para garantir os direitos que todos os cidadãos têm desde seu nascimento.

 



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