
Possibilidade de mudar
Ana Karla Silva Soares
João Pessoa, PB
O sol estava a pino e o ônibus lotado. Era onze e trinta e cinco de um dia que não recordo a data, só o mês, janeiro. Após um tempo de percurso e da saída de algumas pessoas, encontrei um lugar para sentar: ao lado de uma senhora de aparência tranqüila e pensamento longe. Na parada do ônibus seguinte, uma outra mulher entrou no ônibus. Ela parou ao meu lado e começou a conversar com a senhora que estava sentada comigo:
- Oi, como você está? - disse a última mulher que entrara no ônibus.
- Bem, graças a Deus.
- Como está seu filho? Melhorou?
- Sim, ele está só um pouco abalado, mas vai se recuperar.
Diante deste diálogo, imaginei, e acredito que outra pessoa que estivesse ouvindo a conversa imaginaria, que o filho da mulher estava doente. Porém, a enfermidade que atingia o garoto não era apenas uma doença que o afetava exclusivamente, mas também atingia toda a sociedade.
Quando um lugar atrás da cadeira que estava sentada desocupou, perguntei se a mulher que estava de pé não queria sentar, ela aceitou e continuou a conversar com sua amiga:
- Você enfrentou um momento difícil com seu filho. E agora, está mais calma?
- Sim, tudo está se ajeitando, ele está mais calmo e também voltou a freqüentar a escola.
A outra senhora perguntou de forma constrangida e inquieta:
- Na verdade eu não sei direito o que houve, porque no dia que aconteceu aquilo eu tinha ido à casa de minha mãe, e o que eu sei foi dito pela boca das vizinhas. Você pode dizer o que aconteceu realmente?
Com uma voz baixa e um jeito constrangido, a mãe do menino falou:
- Não gosto muito de falar sobre esse assunto, mas vou lhe contar o que aconteceu. Um dia, por volta das seis e meia da manhã, fui ao quarto do meu filho Raí e não o encontrei, saí para trabalhar, voltei para o almoço ao meio-dia e o encontrei dormindo. Perguntei onde havia passado a noite, mas ele não me respondeu. Passados |
"Confirmei minhas suspeitas, a professora dele disse que há um mês Raí não freqüentava as aulas" |
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alguns dias, ele voltou a dormir fora de casa e não ouvi mais ele falar na escola, então resolvi ir ao colégio onde ele estudava para conversar com sua professora. Foi aí que confirmei minhas suspeitas, a professora dele disse que há um mês Raí não freqüentava as aulas.
Nesse momento, sua amiga a interrompeu e perguntou:
- Você não tinha notado que ele não ia à escola?
- Como? - respondeu a mãe receosa. - Saio pela manhã, venho almoçar depressa e só volto à noite.
A amiga fez um gesto com a cabeça como se estivesse discordando da mulher que continuou a contar a história.
- Ao saber que ele saiu da escola, fiquei angustiada e louca para falar com ele e resolver esse assunto. Quando cheguei em casa, ele estava de saída, pedi que não saísse, mas foi em vão. Ele disse que não sabia a hora que iria voltar, pois iria a uma festa com os amigos.
Ao dizer isso, percebi que a voz e o jeito daquela senhora ficaram mais pesados e que sentia raiva ao contar essa parte da história.
- Por volta da uma da madrugada, seu Joaquim, meu vizinho, me deu a notícia de que Raí estava na Delegacia.
Neste momento, um senhor entrou no ônibus, que estava lotado, e eu dei meu lugar para que ele se sentasse. Quando voltei minhas atenções na conversa, a senhora estava dizendo:
"O doutor delegado falou que por conta do crime de Raí ter sido leve sua punição seria uma chamada de socioeducativa e ele teria que prestar serviços comunitários" |
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- O doutor delegado falou que por conta do crime de Raí ter sido leve sua punição seria uma chamada de socioeducativa e ele teria que prestar serviços comunitários e passar a ir à escola todos os dias. Caso contrário, ele poderia ser levado para algum centro de recuperação.
A amiga da senhora perguntou se o menino havia aceitado a pena e a mãe respondeu:
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- No início não, mas quando começou a lidar com as crianças em uma creche do bairro e a freqüentar a escola ele foi mudando. Agora ele está bem melhor.
Chegou minha parada do ônibus e tive de descer. No caminho, fui recordando a história que estava ouvindo e me dei conta que o simples fato de retirar a criança ou o adolescente de um meio que não lhe é saudável e dar a ele acesso à educação pode transformar e ajudar essa pessoa a ser um cidadão de bem. Essa é uma obrigação não só dos pais, mas também da comunidade em geral, pois muitas vezes a família não tem condições de acompanhar o filho devido a vários motivos.
A existência de leis que não só punam, mas também recuperam crianças e adolescentes infratores é essencial para o desenvolvimento de uma sociedade com bases fortes e pessoas responsáveis. Leis, estatutos, atos, ações, tudo, todos juntos, em busca de um mundo melhor para as crianças e adolescentes de hoje e para os adultos e idosos de amanhã.
Você gostou desta história? Acha que os jurados podem ter escolhido para ser publicada em livro? Quem são os seus candidatos? .