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Papel do conselho nas OSCs

Conselho institucional é um corpo coletivo superior ao cotidiano da organização, ao qual incumbe opinar, aconselhar, julgar, criar senso crítico de prudência e estratégia sobre os negócios organizacionais. Há Conselhos de Administração, de Técnica, de Fiscalização, de Guerra. Sempre que há assuntos complexos a serem decididos, o Conselho atua como um órgão interno de ajuda, e ajuda porque tem uma visão diferente daquela operacional, tem uma perspectiva ampla do funcionamento institucional. Com diversidade, interesse e cooperação na resolução de pontos críticos, este grupo participa do desenvolvimento interno e externo da organização da qual faz parte.

Poderíamos terminar aqui. Já está exposto o conceito, já está claro o papel de um Conselho Institucional. Mas, ficam perguntas: basta saber disso para avançar? Por que o dicionário não é suficiente para nos fazer compreender e evoluir na construção de Conselhos realmente úteis? Qual tem sido o papel de tantos Conselhos que já conhecemos? Como a instituição pode aproximar seu Conselho do seu verdadeiro papel?

Se é que podemos conceituar papel e responsabilidade de pessoas numa organização, vamos ter de assumir a relatividade disto, pois papéis e responsabilidades são assuntos de grande subjetividade. As pessoas tornam relativa a importância dos conceitos conforme sua situação individual e organizacional.

Talvez nos ajude saber que a relatividade é uma teoria da ciência física segundo a qual o tempo e o espaço são grandezas inter-relativas, não podendo ser consideradas independentemente uma da outra. Assim será nossa visão de "papel do Conselho numa organização" - uma relação entre pessoas e necessidades, indivíduos e instituição, forças e campos que podem se atrair, se aderir e se tornar coesos e fortes.

Vejamos a física: é uma ciência de conteúdo vasto e fronteiras não muito definidas que investiga as propriedades dos campos de força e suas interações com a matéria - na melhor das simplificações do termo. A física pode nos ajudar muito a compreender o comportamento dos sistemas e campos materiais e particularmente pode ser útil na compreensão do conceito que vamos explorar a seguir.

O Tempo e o Espaço - O Conselheiro e a Causa Institucional.

Duas grandezas envolvidas para explicar o papel do Conselho são o conselheiro e a causa institucional. Que são estes elementos? De onde vêm? Qual sua natureza? Por que se unirão para um movimento comum?

O conselheiro... Em primeiro lugar, é preciso compreender que o conselheiro é uma pessoa. Um indivíduo que tem vontade e movimento próprio, que decide por critérios próprios e tem uma história de vida singular, que lhe permite julgar e escolher consigo mesmo qual será sua atitude em relação a qualquer estímulo que lhe chegue de fora. Este ser é tão independente de sua instituição de escolha quanto ele queira ser. Estar mais ou menos vinculado é uma decisão voluntária dele.

Portanto, ser voluntário é parte da característica básica de conselheiros nas organizações sem fins lucrativos. Estão lá porque querem estar. Não em troca de salário ou ganho remunerado, mas, "de graça". Agem espontaneamente, sem coação. Os indivíduos que se dispõem ao voluntariado provavelmente ganham de outra forma que não o dinheiro. Ganham o quê? Buscam o quê? São atraídos pelo quê?

A Causa Institucional... Esta é a essência da identidade de uma organização, especialmente a de uma organização da sociedade civil, que tem na sua gênese uma temática social. A causa é aquilo que faz com que algo exista, o motivo, o fundamento.

Quando uma causa é forte o suficiente para criar ao seu redor um campo de interesse, então se torna uma causa coletiva. Às vezes se torna tão atraente que agrega as pessoas, criando uma organização que poderá evoluir para uma instituição formal em torno daquele assunto. É a causa que atrai diferentes tipos de voluntários, e, dentre eles, o voluntário Conselheiro.

 

Atração, Adesão, Coesão

As forças de agregação dos campos que se formam em torno das causas começam a "tecer" um "pano", que começa a mostrar "formatos e estampas" próprias e a sociedade vai se configurando como um grande "tecido" artesanalmente construído, numa fabricação exclusiva e regionalizada.

Atração acontece quando alguém tem um interesse por algo e então começa um processo de aproximação entre os dois: o alguém e o algo. E se estabelece um processo, que leva o tempo que for necessário para ocorrer (ou não) adesão.

Adesão acontece quando algo se une a algo diferente. É uma ligação entre coisas de natureza diferente. É uma decisão induzida pela atração, que leva a um "caminhar juntos" para a mesma direção. É o fenômeno que nos ajuda a compreender como o conselheiro se vincula à organização. Se houver este "grude", aí se tem um ambiente de cooperação. Mas, não basta. Há ainda um outro estado desejado para que um Conselho desempenhe bem o seu papel: a coesão.

Coesão acontece quando algo se une a algo de mesma natureza. Este fenômeno é responsável por tornar forte a adesão inicial e determina o movimento geral do Conselho, uma vez que os conselheiros se unem entre si e trabalham juntos. O corpo de conselheiros, quando coeso, assume movimento próprio, coordenado, orientado, onde um fortalece o outro, um influencia o outro, um ajuda o outro a continuar na direção desejada durante um longo tempo. Um conselheiro é fundamental para o outro. Criam entre si a referência interna que "liga" o grupo em torno de seu ideal.

Estes três fenômenos são determinantes no papel que o Conselho vai assumir na vida organizacional. Pois só quando acontecem é que a força de um Conselho se manifesta em sua plenitude.

Tente "enxergar" o processo: a organização promove a aproximação entre sua causa e pessoas que têm interesses afins a ela, ela facilita os movimentos intencionais, genuínos e conscientes dessas pessoas em direção a uma adesão. Aderindo, as pessoas se abrem para uma união forte com seu semelhante (companheiro de Conselho) que pode torná-las tão imbuídas da causa organizacional, a ponto de agirem como uma daquelas correntes de água, que se movimentam singular e autonomamente, mesmo dentro de um oceano. Assim o Conselho pode participar e contribuir de uma maneira forte, consistente.

E como exercer atração?

Cada pessoa pode ser atraída por um interesse diferente em trabalhar numa organização: por exemplo, profissionais podem ver uma possibilidade de carreira técnica, voluntários operacionais podem estar atraídos pelo objeto do trabalho - crianças, idosos, doentes...- , enfim, a oportunidade de realização pessoal, espiritual, solidária podem ser fatores de atração. Conselheiros podem ser atraídos também por muitos aspectos.

Descobrir quais os pontos de atração que a organização pode exercer sobre potenciais conselheiros faz parte da arte de criar um bom Conselho Institucional. Dependendo das necessidades organizacionais, os gestores vão buscar atrair diferentes tipos de pessoas para seu Conselho: homens, mulheres, jovens, velhos, jornalistas, médicos, professores, etc.. enfim, quem tem o perfil que promete o "encontro" entre os interesses institucionais e pessoais. E aí começa um relacionamento promissor. Aí avançamos no conceito inicial, sobre a finalidade de um Conselho.

Neste momento de "atração" é fundamental lembrar-se da característica básica de um corpo de Conselho: a visão ampla, a perspectiva estratégica que guarda em seu papel.

O Papel Estratégico do Conselho

Voltemos ao papel do Conselho, definido no primeiro parágrafo deste texto. Ele fala de "corpo coletivo superior ao cotidiano da organização". Muito bem, já vimos como torná-lo um "corpo", que funciona forte e dinâmico. Mas, fala também sobre a incumbência de "opinar, aconselhar, julgar, criar senso crítico de prudência e estratégia sobre os negócios organizacionais". Vamos explorar este aspecto estratégico do papel do Conselho.

Ora, o que é estratégia? A palavra vem do grego e denominava o cargo do comandante responsável por coordenar amplas ações militares em Atenas. Como se vê, era um significado muito concreto em sua origem, mas, que hoje se tornou um tanto abstrato, levando sempre a mais perguntas do que respostas.

No entanto, implícita nessa origem etimológica, está a "coordenação de amplas ações". Este é o elemento que pode ajudar a compreender o significado de estratégia quando aplicada ao nível de um Conselho Institucional. Na administração estratégica de organizações encontramos também esta mesma característica: amplitude.

O papel estratégico do Conselho implica numa visão larga, vasta e rica da composição organizacional, tanto em termos temporais, olhando passado e futuro, como em termos de impacto, olhando aí os métodos do trabalho, o público atendido e a qualidade dos serviços. Assuntos estratégicos são potencialmente "grandes" e complexos. Afetam a organização inteira, exercendo forças sobre mais de um campo gerencial da instituição. Decidir estrategicamente significa estar atento aos resultados desta decisão sobre as diversas áreas da gestão institucional.

Por exemplo, um diretor ou gerente pode demitir um funcionário sem que isto afete a instituição inteira, pode comprar um novo equipamento sem que isto represente um desequilíbrio para todo o funcionamento da organização, pode até mudar algo no método de trabalho que não seja fundamental para a vida saudável institucional. Mas, quando estas decisões tomam proporção e se tornam altamente transformadoras nos resultados do trabalho, começam a se tornar decisões estratégicas.

Vemos então uma grande diferença entre dois tipos de decisão: a estratégica e a operacional. Decisões operacionais são aquelas que afetam a vida organizacional, mas, apenas parte dela. São decisões de baixo impacto, de baixo risco para o alcance de resultados, de pouco envolvimento da coletividade nas suas conseqüências. O inverso pode ser considerado estratégico. E, é claro, há as questões conjunturais, que não são essencialmente nem estratégicas nem operacionais, mas, dependem da hora e da situação para se classificarem como uma ou outra.

O Presidente do Conselho e o Diretor Executivo, são, respectivamente, os "comandantes" das questões estratégicas e das questões operacionais da organização. Devem, juntos, selecionar as principais questões estratégicas a serem discutidas e decididas pelo Conselho. Devem ser os guardiões do papel do Conselho, evitando seu "desperdício" de energia.

Aproveitar bem o Conselho é dar condições a que ele possa bem analisar e discutir questões difíceis, complexas, arriscadas. Para isso, os executivos devem trazer à tona todas as informações que auxiliem na tomada dessas decisões, iluminar ao máximo todas as discussões com dados, fatos, relatos, enfim, dar condições de segurança para que os conselheiros se sintam envolvidos e responsáveis pelo futuro.

O Conselho é guardião do passado, porque zela pela causa e Missão da organização, mas, é também guardião do futuro, porque decide caminhos e ousa soluções.

Esta é a maturidade que a organização busca ao criar um Conselho Institucional genuíno.

Autor: Rosana Kisil - Instituto Fonte

Observação: Este texto trata de questões como: "Como evoluir na construção de conselhos realmente úteis? Qual tem sido o papel de tantos Conselhos já conhecidos? Como a instituição pode aproximar seu Conselho do seu verdadeiro papel?".

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