Categoria ECA na Escola
E agora, José?
José Alencar Ramos
Santo Ângelo, RS
"A festa acabou,
a luz apagou,
(...)
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?
(...)
está sem discurso,
está sem carinho
(...)"
Em meio a incertezas, angústias e ansiedades, atravessei o portão do centro de recuperação de dependentes químicos. Enquanto me conduziam ao meu quarto na clínica, recordei destes versos do poeta Carlos Drummond de Andrade. A lembrança da manhã em que voltei à casa paterna veio à luz da memória. Em meio ao pranto desenfreado, implorei para minha mãe:
- Por favor, me ajude!
Então, numa manhã escaldante de fevereiro, fui me internar, crendo que aquele lugar seria a cura para essa doença: eu era prisioneiro de mim mesmo, era um pássaro preso em gaiola aberta.
Minha estadia na clínica durou só quatro meses. Teria que ficar internado nove meses, mas, da segunda vez que fugi daquele local, não mais retornei. A clínica não alimentou minha fome de mudança. Voltei às ruas, e minha vida passou a ser tudo aquilo que era antes de entrar na clínica. Troquei a noite pelo dia. Para casa, só ia para mudar de roupa. Do uso de drogas ilícitas, passei a praticar furtos. Precisava de dinheiro para alimentar meu vício cada vez mais... Num desses delitos, fui autuado e encaminhado ao Juizado da Infância e da Juventude. Durante uma audiência, o juiz encaminhou-me ao Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cededica) de Santo Ângelo, Rio Grande do Sul.
Junto ao Cededica funciona o Projeto Escola de Passagem, que acolhe adolescentes que cumprem medidas socioeducativas em meio aberto e que estão evadidos da escola regular. Passei a cumprir as medidas de prestação de serviço à comunidade (PSC) e de liberdade assistida (LA). Freqüentar a Escola de Passagem fazia parte da LA, pois eu estava evadido da escola regular.
O meu dia-a-dia no projeto fez com que minha vida caminhasse rumo a uma transformação inacreditável. Na escola, receberam-me como um pai que recebe o filho pródigo que esteve ausente da casa paterna por muito tempo. Eu realmente fazia parte de uma família. Sentia isso, vivia isso. Percebi que o tratamento recebido na escola era igual para todos os meus colegas: éramos |
"Voltei às ruas, e minha vida passou a ser tudo aquilo que era antes de entrar na clínica. Troquei a noite pelo dia." |
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tratados com carinho e respeito, coisa que a maioria das pessoas acha que, por sermos adolescentes infratores, não podemos receber.
Graças à Escola de Passagem, temos a oportunidade de mostrar à sociedade que somos pessoas dignas de respeito. Os professores dessa escola mostraram que existem pessoas que se preocupam com o aluno, não importando sua classe social ou sua raça. O que importa é que os professores e os orientadores estão lá para ajudar, orientar, aconselhar e mostrar o caminho certo para seguirmos. E são esses os fatores que nos trazem segurança e vontade de mudar para que nossos familiares e professores fiquem orgulhosos com nosso desempenho.
O sacrifício valeu a pena. Atualmente, estou com 16 anos. Minha passagem nessa escola propiciou uma transformação, eu diria um milagre. O futuro já não é mais incerto. Tenho, hoje, tantas certezas: pretendo estudar e fazer um curso de graduação e, quando estiver formado, voltar e dizer "muito obrigado" para o meu professor (que também é meu orientador) e para a professora, pois eles acreditaram na minha recuperação quando eu mesmo achava estar tudo perdido.
Já não sou mais aquele José do poema de Carlos Drummond de Andrade. Agora eu tenho discurso, tenho carinho por mim mesmo. A bondade veio, assim como a utopia: tudo é realidade, tudo é possível. Tudo pode na bondade e na ternura daqueles que acreditaram em mim. E isso é refletido no cotidiano junto à mãe do meu filho, que eu amo e que me deu a maior força na recuperação.
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