Categoria ECA como instrumento de transformação
Sonho de bailarina
Vânia Farias Queiroz
Rio de Janeiro, RJ
Numa tarde fria do mês de maio de 1999, no corredor de uma escola primária municipal do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, fui surpreendida pela pergunta de Teresa, então com quatro anos, moradora do Morro da Coroa:
– Tia, a senhora é professora de balé?
– Sou, sim – respondi.
– Então quando é que a senhora vai dar aula pra mim?
Desconcertada e absolutamente despreparada diante da questão posta, não respondi. Contornei a situação, mas saí de lá inquieta com a pergunta.
Não me lembro exatamente quando decidi ser bailarina, acho que por volta dos quatro ou cinco anos de idade. Da janela do trabalho de minha mãe, dava para ver uma academia de dança e todas as suas aulas. Eu adorava e ficava observando as aulas pela janela. Pedi à minha mãe que me colocasse no balé: não foi tão fácil, mas consegui. E nunca mais abandonei meu sonho.
Passei por algumas academias, fiz vários cursos de especialização, graduei-me como mestre de balé clássico e, depois de 11 anos dando aulas para crianças e adolescentes de classe média e alta, fui surpreendida pela pergunta de Teresa.
"Procurei a então presidente da Associação de Moradores do Morro da Coroa e ofereci-me para começar um trabalho de balé clássico na comunidade" |
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Quando fui interpelada por esta menina, já havia me mudado para o bairro de Santa Teresa com minha família. Uma coisa sempre me chamou atenção no bairro: a estreita proximidade geográfica de suas ruas tradicionais com as favelas. Também me chamou a atenção a grande distância sociocultural dos moradores das duas áreas geográficas tão próximas. Num bairro famoso pela efervescência cultural, a população das |
favelas era completamente segregada dos espaços e das manifestações culturais.
A pergunta de Teresa fez-me retornar à minha própria história, quando, aos cinco anos, decidi que queria ser bailarina e, graças a Deus, tive minha mãe, que não mediu esforços para que eu realizasse meu sonho. Mas será que a pequena Teresa teria a mesma sorte? Afinal, é muito caro o estudo do balé clássico no Brasil.
Ao ser surpreendida pela pergunta de Teresa, percebi que a menina pertencia a uma comunidade marginalizada. Nos dias seguintes, fui indagando pelo bairro de onde era a tal menininha e logo fiquei sabendo que era moradora do Morro da Coroa. Nunca em minha vida havia entrado numa favela, mas tomei coragem e fui conhecer o Morro. Procurei a então presidente da Associação de Moradores do Morro da Coroa e ofereci-me para começar um trabalho de balé clássico na comunidade. Ela adorou a idéia, cedeu um espaço no subsolo da sede da Associação e divulgou as aulas.
No primeiro dia de aula, foram 12 crianças, e entre elas estava a pequena Teresa. Não foi fácil trabalhar ali. A sala era bastante precária: as janelas não tinham vidro; quando chovia, ficava inundada; algumas cadeiras quebradas faziam as vezes de barras; e, para completar o quadro, havia uma vala passando dentro da sala, que era coberta precariamente por tábuas. Isso, sem falar na violência, que era, e continua sendo, um capítulo à parte. Mesmo assim, a vontade e a determinação de todos foram mais fortes que os empecilhos e as aulas continuaram.
Em três meses de trabalho, já eram 32 alunas. O espaço não nos comportava, conseguimos outro no centro cultural do bairro. Era uma pequena sala, sem luz, com o piso precário. Entretanto, com o trabalho voluntário dos pais e meus recursos financeiros, reformamos o local e iniciamos as aulas. Já eram 40 alunos.
Teresa, com cinco anos, acompanhou-nos na mudança. Seu sonho de ser bailarina esmoreceu um pouco, pois a pequena tinha que caminhar um percurso de 20 minutos para chegar às aulas, mas sua mãe não a deixou desistir, e, entre choros e pirraças, Teresa não faltava às aulas.
Depois de dois anos de trabalho voluntário, a situação começou a se complicar, pois fui largando os empregos que tinha em academias para me dedicar exclusivamente
| àquelas crianças. Foi aí que meu marido viu uma propaganda lançando o concurso de projetos para patrocínio da Petrobras. Imediatamente, ele sugeriu que registrássemoso trabalho como uma ONG, a fim de, quem sabe, conseguirmos um patrocínio para atender à demanda de alunos, que não parava de crescer. Alguns amigos acreditaram na idéia e, assim, surgiu o Ballet de Santa Teresa. Não conseguimos o tal patrocínio, mas a instituição ganhou força e amigos. |
"Não foi fácil trabalhar ali. A sala era bastante precária: as janelas não tinham vidro; quando chovia, ficava inundada; algumas cadeiras quebradas faziam as vezes de barras" |
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Hoje, graças ao sonho de Teresa, atendemos 150 crianças e adolescentes dos três anos e meio aos 17 anos de idade, com um curso de complementação e embasamento cultural, em que cada aluno permanece diariamente em horário complementar ao escolar e cursa 12 disciplinas diferentes. Além disso, mantemos atendimento familiar com uma equipe de assistentes sociais e psicólogos, além de oficinas de artesanato para mães e parentes dos alunos. Tudo isso é realizado graças ao trabalho voluntário de brasileiros e estrangeiros que acreditam neste sonho. Em sete anos de trabalho, não tivemos um único caso de gravidez na adolescência. Nossos alunos freqüentam com sucesso a escola formal e estamos firmes no propósito de melhorar, por meio da educação, a vida das famílias atendidas.
Muita coisa evoluiu nesse período: tornei-me conselheira municipal dos direitos da criança e do adolescente e passei a fazer vários cursos sobre o terceiro setor. Nossa esperança é de que possamos transformar a tecnologia social do Ballet de Santa Teresa em política pública para que mais crianças e adolescentes tenham acesso livre à cultura e à educação.
Teresa continua conosco, está com 12 anos e, mais que uma bailarina, já começa a se destacar como liderança comunitária. Em 2005, ela participou como uma das delegadas representantes do nosso Estado na VI Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Eu, que até então não havia sequer pensado em realizar um trabalho voluntário, mudei os rumos de minha vida e fundei uma ONG para realizar o sonho de uma menina. Valeu a pena!
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