
Douglas da Silva Pinto / Maria Clara Reis Amorim Silva / Keyla da Silva Meneses
Caruaru - PE
Me chamo João, tenho 19 anos, estou em medida socioeducativa de internação no Centro de Atendimento Socioeducativo de Caruaru-PE. Entendo que há um motivo para que eu esteja aqui e, confesso, inicialmente não acreditava que adiantaria, pois era revoltado com a minha vida, sobretudo com o fato de ter perdido a minha mãe de forma brutal.
Deixei de estudar, más companhias eram as minhas amizades, tráfico etc. E essas más amizades até numa tentativa de homicídio me envolveram.
Me aborrecia e chateava o fato do meu avô, tios e irmã reclamarem comigo e me aconselharem a mudar. Me sentia sozinho e incompreendido... Ver meus comparsas serem mortos e a preocupação de quem realmente gostava de mim fez com que eu pensasse em parar... Não deu tempo... Fui preso...
De início, achava que ser interno nesta unidade era algo passageiro, coisa de duas semanas ou pouco mais, pois não achava que estava errado. No entanto, o tempo foi passando... Seis meses, um ano, um ano e meio... Agora já são dois anos e cinco meses. Acho que, nesse tempo, aprendi algumas coisas aqui, por exemplo, que tudo em que eu acreditava antes e a minha revolta não me trouxeram nada, apenas ilusões (mulheres, dinheiro, farras...). Aprendi que minha família é o meu tesouro, é o que realmente vale na vida.
Minha família, na minha dor, estava do meu lado, sempre esteve, mas só aqui meus olhos se abriram para ver isso!!! Meu avô, como ele vem, doente e cansado, me ver!!! Nunca deixou de me apoiar. Mesmo quando não tem condições financeiras de me visitar, sei que, a seu modo, ele batalha para que eu entenda que um dia sairei e o ajudarei. Acho que aprendi.
Me sinto útil, capaz, aprendi a fazer coisas, a desenvolver habilidades que nem sabia que tinha... Aprendi a fazer tapetes na Oficina de Tapetes em tela, que me ajudou a ter disciplina e a me acalmar nas horas difíceis, além de usar a criatividade para fazer peças novas com minhas próprias mãos. A técnica do origame também foi algo que me surpreendeu, aprendi a ter paciência, combinar cores, me organizar... Que peças lindas comecei a fazer!!! Mas o que mais tem me encantado foi a minha formação no Curso Básico de Costura Industrial pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) aqui, dentro da unidade.
É muito bom saber costurar, tirar do papel o que posso criar em minhas mãos. Hoje participo do Grupo Produtivo de Jeans, que funciona nesta unidade, no qual eu e vários adolescentes criamos várias peças todos os dias. Já ganho meu próprio dinheiro... Tenho orgulho por suar e dar duro para conseguir o que quero, não preciso do tráfico para conseguir o que eu preciso, o que sonho: Eu sou capaz de conseguir o que quero com minhas próprias mãos!!!
Pretendo, ao sair daqui, continuar costurando, fazer dessa a minha profissão. Soube, pela minha família, que meu irmão mais novo – através de outras oportunidades que eu não tive lá fora – também aprendeu a costurar, e hoje, já casado, construiu sua vida. Vamos nos encontrar lá fora e pretendo ir pelo mesmo caminho. Terei oportunidade de costurar na cidade onde ele mora, é a minha oportunidade e sei que vou conseguir.
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