
Duas formas de brincar
Angela Cristina Piedade Medeiros
Santos, SP
"Havia algo errado", pensava Dalva. Diferentemente das crianças que conhecia, sua filha, de cerca de 1 ano e 6 meses de idade, não sorria. Era muito séria, tímida e quieta demais. Mal balbuciava. Mostrava-se irritada na presença de outras pessoas. Não sabia brincar. E Dalva não entendia o motivo daquilo.
A menina era bem tratada e amada pelos pais. Ainda que morassem num bairro pobre de Santos, litoral de São Paulo, nunca faltou o necessário para o sustento da família. Fora um resfriado aqui ou uma cólica acolá, a pequena havia nascido sem problema físico ou mental e não tivera nenhum acidente ou doença grave. Talvez ela copiasse o jeito da mãe, extremamente retraída, pouco afeita a falar, principalmente em público. Mal saía de casa. Ainda que tivesse nascido em Santos, uma cidade litorânea, nunca havia visto o mar.
Vendo isso, a vizinhança aconselhava:
- Dalva, por que você não leva a menina para brincar na brinquedoteca?
No local, mantido pela prefeitura, eram oferecidos jogos e brincadeiras com o acompanhamento de ludoeducadores e até mesmo dos próprios pais:
- Fiquei insegura de deixar a menina ir tão pequenininha - afirma a mãe.
Mesmo assim, ela foi.
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A situação não estava fácil para Fabiana. Casada e mãe de uma menina, seu barraco, num morro em Santos, havia sido demolido por estar em área de risco. Após algum tempo, ela, que era responsável pelo sustento da casa, perdera o emprego de costureira. Seu marido andava com problemas de saúde. Tinha como ajuda o auxílio-aluguel da prefeitura, mas não gostava do lugar onde morava. Certo dia, Fabiana foi indicada para o curso de capacitação de ludoeducadores na brinquedoteca. Sua função: brincar. Mas não gostava da idéia:
- Eu quero é trabalhar. Isso por um acaso é um trabalho? - reclamou.
Mesmo assim, ela foi.
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Com o auxílio dos ludoeducadores e da psicóloga da brinquedoteca, Dalva percebeu o que faltava: era necessário que sua filha brincasse. E precisava brincar com ela, ou até mesmo ensiná-la a brincar, mostrar-lhe |
"Achava que deixando minha filha no carrinho ou no chão era suficiente" |
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os objetos, as cores e as formas, o papel e o lápis para desenhar:
- Eu não sabia como incentivá-la. Achava que deixando minha filha no carrinho ou no chão era suficiente. Outras mães também falavam que não sabiam como estimular o filho em casa.
Aos poucos, Dalva aprendeu que, assim como alimentar e cuidar da higiene, a brincadeira era fundamental para o desenvolvimento da criança:
- A psicóloga dizia que minha filha era uma menina tímida, retraída, que precisava de ajuda, de estímulo. Ela é uma criança inteligente, mas não era estimulada de acordo com o que deveria. Aí, foi me ensinando a pegar areia molhada para eu brincar com ela, em casa mesmo, arrumar terra, barro, e ensinar a fazer bolinha, bonequinhos...
Com jogos, bonecas e tico-tico, a mãe logo viu as mudanças. A pequena, antes tímida, começou a falar e a brincar, sozinha ou em grupo. Quando entrou na escola de educação infantil, aos 4 anos de idade, mostrou-se uma menina comunicativa, extrovertida e curiosa para aprender.
- A professora veio falar que ela era super sociável, chamava os amiguinhos para brincar. Parecia que era a porta-voz da classe - comemora a mãe.
Dalva começou a "sair do ninho", passando a se relacionar mais. Nos passeios promovidos pela brinquedoteca durante as férias escolares, finalmente mãe e filha conheceram o mar de perto. E também ficaram encantadas com o cinema.
- Não queria trazê-la para a brinquedoteca porque achei que ia ser difícil ela se adaptar, mas eu me enganei - conclui.
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"Percebeu que brincar era trabalho sério, ensinamento que levou para casa. E agora também brincava com sua filha" |
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Na brinquedoteca, Fabiana descobriu um novo talento:
- Achava que não tinha jeito com crianças, mas fui lá e vi que sabia lidar com elas.
Percebeu que brincar era trabalho sério, ensinamento que levou para casa. E agora também brincava com sua filha: |
- A criança fala: mãe, quero brincar. Ela diz que não tem tempo e vai deixando para lá. No futuro, vai acarretar problemas para a criança. Brincar é muito importante.
Enquanto trabalhava como ludoeducadora, após vinte anos longe das salas de aula, Fabiana voltou a estudar. Quando concluiu o supletivo, surgiu uma nova proposta: fazer um curso universitário. E ela optou por pedagogia. Para custear a faculdade, inscreveu-se no programa Escola da Família, do governo de São Paulo. Em troca da bolsa integral, deveria desenvolver um projeto em uma escola estadual durante os finais de semana. Optou por organizar uma brinquedoteca.
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Após oito anos, a menina de Dalva ainda vai à brinquedoteca. Tem boas notas na escola e se relaciona bem com os colegas. Está na terceira série. Lê bastante, principalmente clássicos da literatura infantil, como Cinderela e Os Três Porquinhos. Não sabe se, quando crescer, será médica ou professora.
A mãe também se desvencilhou de boa parte de sua inibição. Vai à missa e a reuniões da Sociedade de Amigos do Bairro, além de participar das atividades da escola com a filha. Sente-se mais segura para ajudá-la nas tarefas escolares.
- Eu me sentia incapaz. Outro dia pedi para uma professora me ensinar uma conta. Antigamente, jamais iria pedir uma explicação. No final, iria prejudicar minha filha e a mim também.
E elas continuam brincando.
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Depois de quase quatro anos, Fabiana mora em casa própria, em local regulamentado. Mas a vida continua não sendo fácil. Durante o dia, trabalha como ludoeducadora na brinquedoteca de um bairro santista, em uma das seis unidades do projeto. À noite, cursa o segundo ano de pedagogia. Nos finais de semana, em uma escola estadual, toca sua própria brinquedoteca junto às crianças e aos pais da comunidade. Mesmo com esse cotidiano puxado, Fabiana se sente satisfeita. Afinal, "o trabalho ainda é uma brincadeira".