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Introdução
Realidade
social de Londrina
A
dinâmica da gestão municipal em rede
Introdução
O direito de proteção à criança e ao adolescente no Brasil é
construção histórica cujo marco de avanços foi a década de 90. A definição
legal, exposta no Estatuto da Criança e do Adolescente, é resultado de
mobilização da sociedade organizada e sistematiza a compreensão do direito
infanto-juvenil. No entanto a concretização dos direitos expostos nesta lei
provocou a reestruturação na rede de proteção social, reestruturação esta que
não é tarefa fácil, pois implica mudanças de paradigmas institucionais e a
criação de serviços sob a égide da proteção integral.
O lócus privilegiado da constituição de bases concretas para a
garantia do direito é a esfera municipal. É nesta instância onde as crianças
nascem e devem encontrar condições favoráveis para seu desenvolvimento.
A criação destas condições demanda um diagnóstico apurado das
necessidades do município, planejamento adequado às perspectivas previstas no
campo legal e à realidade local e, ao nosso ver a ampliação da ação democrática
tanto no âmbito dos planejadores e executores quanto na condução dos espaços
institucionais.
O presente texto tem por objetivo apresentar a trajetória que o
município vem trilhando para garantir diagnóstico preciso, deliberações no
âmbito dos espaços democráticos da política de atenção à criança e ao
adolescente, integração das várias ações, qualificação e ampliação de sua rede
de serviços.
Iniciamos, portanto apontando alguns dados de realidade que se
constituem parte do diagnóstico por nós elaborado.
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Realidade social de Londrina
I - Situação da população
O Município de Londrina localiza-se na região norte do Paraná e
constitui-se na terceira do sul do país em população, com 447.065 habitantes,
conforme o censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em 2003, segundo o IBGE, havia 467.334 habitantes na cidade.
Londrina também enfrenta os reflexos de um mundo globalizado de
exclusão social, que gera condições de vida extremamente desiguais entre seus
habitantes. Há localidades de maior risco social, abrangendo 59 favelas,
assentamentos e ocupações com uma população de 8.751 famílias (47.721 pessoas).
Já os dados do mapa da pobreza do Paraná, elaborado pelo
Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), apontam
para o número de 28.823 pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, o que
equivale a 6,50% da população do município. Considerando-se os dados da
estimativa feita por esse órgão em 1999, de 432.257 habitantes, de acordo com os
percentuais da contagem populacional de 1996, temos:
- as crianças e adolescentes representam 38,02% (164.365
pessoas), ou seja, 21,87% (94.536) são crianças de zero a 11 anos de idade e
16,15% (69.829) são adolescentes de 12 a 19 anos;
- a população adulta, de
20 a 59 anos, representa 53,55% (231.473), conforme a tabela a seguir:
População estimada do município de
Londrina, segundo faixa etária e sexo - 1999
|
Faixa etária |
Total |
Feminino |
Masculino |
|
Menos de 01 ano |
7.600 |
3.718 |
3.882 |
|
01 ano |
7.729 |
3.808 |
3.921 |
|
02 anos |
7.607 |
3.693 |
3.914 |
|
03 anos |
7.828 |
3.823 |
4.005 |
|
04 anos |
7.643 |
3.812 |
3.831 |
|
05 anos |
7.850 |
3.819 |
4.031 |
|
06 anos |
7.998 |
3.918 |
4.080 |
|
07 anos |
8.227 |
4.054 |
4.173 |
|
08 anos |
7.939 |
3.889 |
4.050 |
|
09 anos |
8.021 |
3.902 |
4.119 |
|
10 anos |
8.199 |
4.056 |
4.143 |
|
11 anos |
7.895 |
3.922 |
3.973 |
|
12 anos |
8.079 |
4.010 |
4.069 |
|
13 anos |
8.878 |
4.389 |
4.489 |
|
14 anos |
9.354 |
4.376 |
4.678 |
|
15 a 19 anos |
43.518 |
21.978 |
21.540 |
|
20 a 24 anos |
37.930 |
19.473 |
18.457 |
|
25 a 29 anos |
37.672 |
19.790 |
17.882 |
|
30 a 34 anos |
37.410 |
19.791 |
17.619 |
|
35 a 39 anos |
32.717 |
17.576 |
15.141 |
|
40 a 44 anos |
29.083 |
15.439 |
13.644 |
|
45 a 49 anos |
23.042 |
12.310 |
10.732 |
|
50 a 54 anos |
18.709 |
9.700 |
9.009 |
|
55 a 59 anos |
14.910 |
7.825 |
7.085 |
|
60 a 64 anos |
12.262 |
6.846 |
5.776 |
|
65 a 69 anos |
9.628 |
5.146 |
4.482 |
|
70 a 74 anos |
6.356 |
3.367 |
2.989 |
|
75 a 79 anos |
4.074 |
2.267 |
1.807 |
|
80 anos e mais |
3.831 |
2.208 |
1.623 |
|
Ignorado |
268 |
140 |
128 |
|
TOTAL |
432.257 (1) |
222.985 |
209.272 |
FONTE: PML/SEPLAN - GERÊNCIA DE PESQUISAS E INFORMAÇÕES
(1) Estimativa da população IBGE - 1999
Segundo o levantamento das Dimensões das Carências Sociais -
Informações Municipais - IBGE, IPEA de 1991, Londrina possui mais da metade de
sua população sobrevivendo com renda de até três salários mínimos, sendo que
cerca de 1681 famílias não possuem rendimentos.
Quanto à distribuição de renda por salário recebido pelos chefes
de família, o censo de 1991 aponta que 38,86% da população sobrevive com renda
de até dois salários mínimos e que 56% da população sobrevive com renda de menos
de três mínimos.
Nas famílias em condições de pobreza (considerando-se a renda de
até dois salários mínimos), os órgãos oficiais de pesquisa demonstram que há
aproximadamente 20.133 crianças de zero a seis anos. A população infanto-juvenil
de sete a 18 anos representa 40.849 habitantes.
Quanto ao atendimento prestado pela política pública de saúde à
criança e ao adolescente, pode ser demonstrado no quadro abaixo:
Sistema de Saúde Municipal
|
UBS (Unidade Básica de Saúde) |
Clínica Odontológica |
Centro de Atendimento Especializado |
Hospitais |
|
47 |
41 |
8 |
11 |
Fonte: Secretaria Municipal de Saúde da Região
Metropolitana.
PML/SEPLAN - GERÊNCIA DE PESQUISAS E INFORMAÇÕES
A situação escolar da 1ª a 4ª série das crianças e
adolescentes do município pode ser verificada através dos dados apresentados
pela Secretaria Municipal de Educação.
| Instância
|
Educação Infantil |
Ensino Fundamental |
Ensino Médio |
| |
CEI |
Pré-escola |
Total |
1ª a 4ª |
5ª a 8ª |
Total |
Médio |
Normal |
| Estadual |
123 |
254 |
57.703 |
10.074 |
47.629 |
30.097 |
30.097 |
0 |
| Municipal |
424 |
7.087 |
42.090 |
39.771 |
2.319 |
0 |
0 |
0 |
| Privada |
4.679 |
11.642 |
10.727 |
5.284 |
5.443 |
4.581 |
4.535 |
46 |
| Total |
5.226 |
18.983 |
110.520 |
55.129 |
55.391 |
34.678 |
34.632 |
46 |
|
Instância |
Educação Especial |
Educação Profissional |
EJA presencial |
EJA semi-presencial |
|
|
Total |
Fundamental |
Técnico |
Total |
Fund. |
Médio |
Total |
Fund. |
Médio |
|
Estadual |
233 |
205 |
239 |
6.859 |
4.487 |
2.372 |
4.330 |
1.941 |
2.389 |
|
Municipal |
289 |
283 |
0 |
3.000 |
2.880 |
120 |
66 |
66 |
0 |
|
Privada |
1.777 |
471 |
1.975 |
430 |
166 |
264 |
0 |
0 |
0 |
|
Total |
2.299 |
959 |
2.214 |
10.289 |
7.533 |
2.756 |
4.396 |
2.007 |
2.389 |
FONTE: Censo Escolar 2002. MEC/INEP
PML/SEPLAN - GERÊNCIA
DE PESQUISAS E INFORMAÇÕES
II - Situação do atendimento municipal
A Política Municipal de Assistência Social conta com a prestação
de serviços nos seguintes segmentos:
Criança e Adolescente
|
|
Número de Serviços Governamentais |
Número de Serviços Não Governamentais
|
|
Apoio Sócio Educativo Meio aberto |
15 |
16 |
|
Abrigo |
03 |
10 |
|
Educação Profissional |
01 |
05 |
|
Serviços Especializados |
02 |
04 |
Geral
|
|
Número de Serviços Governamentais |
Número de Serviços Não Governamentais |
|
Enfrentamento à Pobreza |
11 |
07 |
|
Abrigo (adultos) |
- |
04 |
|
Defesa e geração de renda para pessoa com deficiência |
|
03 |
Fonte: Secretaria Municipal de Assistência Social/ Diretoria
de Planejamento
O Conselho Tutelar atendeu, no ano de 2.000, um total de 1.471
crianças e adolescentes em situação de risco e, em 2.001, um total de 1.308
pessoas desse segmento, cujas situações caracterizavam-se em históricos de
violência doméstica, exploração sexual, trabalho infantil, vivência na rua,
envolvimento com tráfico de drogas, evasão escolar, prática de atos infracionais
e ausência de documentos pessoais.
Foram implantados em 2001 mais dois Conselhos Tutelares,
totalizando, que se encontram em processo de regionalização, cumprindo a
previsão legal de descentralização das ações. Além disso, Londrina possui,
dentro do sistema judiciário, a Vara da Infância e Juventude, a Promotoria de
Infância e Juventude do Ministério Público, a execução de medidas
socioeducativas em meio aberto de prestação de serviços à comunidade e liberdade
assistida operacionalizadas pelo município e, em regime fechado sob a
responsabilidade do governo estadual, a semiliberdade e a internação.
No âmbito da criança e do adolescente, de acordo com o art. 90
do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os serviços, movimentos, grupos,
e instituições de defesa, são registrados e acompanhados pelo Conselho Municipal
dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Tais informações demonstram que é bastante significativo o
número de crianças e adolescentes que precisam de atendimento, quer seja de
proteção ou de prevenção, para que possam vislumbrar efetivamente a garantia de
seus desenvolvimentos e do exercício de suas cidadanias.
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A dinâmica da Gestão
Municipal em Rede
I - A criação da Rede
A promulgação da Lei Federal nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e
do Adolescente - pode ser considerado um marco imprescindível para a garantia
dos direitos das crianças e adolescentes, rompendo com a antiga Doutrina da
Situação Irregular e estabelecendo o paradigma da Proteção Integral. Além disso,
ressalta-se um novo modelo de gestão da Política de Atenção à Criança e ao
Adolescente, que instituiu estratégias de participação, deliberação e controle
social por meio de organizações compostas por representantes governamentais e da
sociedade civil.
Em Londrina, a partir desse marco legal desencadeou-se um
processo de mobilização para a garantia de mecanismos de efetivação desta
Política com a formação de uma equipe que contou com a participação de
militantes governamentais e não governamentais que já atuavam na área da criança
e do adolescente. Essa equipe tinha como meta a formatação da proposta de um
projeto de lei com o intuito de criar o Conselho Municipal dos Direitos da
Criança e do Adolescente, o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do
Adolescente, Conselho Tutelar e de legitimar no âmbito municipal a Política
Pública nesta área.
Neste sentido, em 1.991 foi promulgada a Lei Municipal n 4.742 e
posteriormente a Lei nº 5.036/92.
Dessa forma, demandava-se um novo olhar e agir do gestor público
municipal. Porém, até o ano de 1.992 o município deparava-se com limitações que
dificultavam a efetiva condução democrática e participativa necessárias às novas
demandas.
Apesar da garantia legal na esfera federal e municipal, a
concretização de tais prerrogativas encontrava-se reduzida e, em grande parte,
restrita à ação das organizações não-governamentais.
A proteção integral requer, por sua vez, além do processo
democrático e participativo, ações articuladas dentro da perspectiva de um novo
modo do fazer público. O desafio da consolidação do agir em rede requer a
superação de situações, atos e atitudes que ainda reforçam a permanência de
práticas tradicionais e conservadoras, que resultaram em:
- duplicação e sobreposição de ações;
- fragmentação
institucional;
- falta de efetividade dos serviços;
- alcance social
restrito;
- isolamento e auto-suficiência dos serviços;
- cultura
paternalista e tradicional.
A partir de 1993, a nova gestão do governo municipal introduziu,
como prioridade da ação pública, a proteção à criança e ao adolescente,
fortalecendo as instâncias de participação, defesa, controle social e
atendimento a esse segmento.
Dessa forma, conseguiu-se a viabilização da estrutura de
funcionamento e atendimento do Conselho Tutelar, a implantação de serviços de
atenção à criança e ao adolescente em situação de risco social nas ruas e a
viabilização de ações socioassistenciais preventivas voltadas à criança,
adolescente e família.
Considera-se um marco significativo, nesse período, o respeito
às deliberações da Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do
Adolescente, que culminou com a busca de sua operacionalização.
Nesse momento, a rede de proteção à Criança e ao Adolescente
começa a desenvolver um novo formato, pela constituição e integração de esforços
governamentais e não-governamentais.
Contudo, a ampliação da diversidade de ações que contemplem o
novo ordenamento jurídico, a gestão democrática, a perspectiva de uma política
pública é complexa. Tais mecanismos não são viabilizados automaticamente,
exigindo tanto do Poder Público quanto da Sociedade Civil Organizada um novo
direcionamento teórico, conceitual e prático.
O exercício desse "novo fazer" e a questão da incorporação dos
direitos, apresentam contradições e dificuldades nesse processo, seja ainda pelo
amadurecimento precoce dos atores envolvidos e a própria realidade de forças
político-partidárias presentes na condução do governo municipal.
Assim, Londrina enfrentou momentos em que a articulação das
ações ocorria em função de demandas específicas, exigindo o desencadeamento de
um processo de mobilização conjunta para a solução de determinadas dificuldades.
Pode-se citar, como exemplo, as ações realizadas pelos serviços
governamentais e não-governamentais desenvolvidos com crianças e adolescentes em
situação de vulnerabilidade social nas ruas do município. Em algumas situações
podiam-se constatar encaminhamentos divergentes por parte de instituições
diferentes para um mesmo caso, o que acarretava a permanência daquela situação
de vulnerabilidade.
II - A realização do diagnóstico social e os
novos rumos para a Rede
Foi realizado, nessa fase de desenvolvimento da Rede, um
diagnóstico social onde se observou a existência da atuação de três pessoas para
cada criança e adolescente, porém sem a efetiva solução da condição de risco na
qual se encontravam.
Foi a partir desse diagnóstico que se suscitou um "repensar" na
forma e no modo de trabalho da Rede, exigindo-se o aprofundamento de discussões
mais amplas que envolviam os vários segmentos que atuavam no âmbito municipal.
Mesmo com uma conjuntura sócio política desfavorável, a
trajetória da defesa dos interesses das crianças e adolescentes não se estagnou,
exigindo posicionamentos e práticas concretas que contribuíssem para o não
desmantelamento das ações ora desenvolvidas.
Algumas estratégias foram elaboradas visando ao enfrentamento
dessa realidade, como, por exemplo, com a criação do Fórum de Instituições que
atuam com Crianças e Adolescentes em Situação de Risco Pessoal e Social.
O Fórum tinha como objetivo subsidiar as políticas a serem
deliberadas pelo Conselho Municipal, bem como enfocar a articulação das ações
voltadas a esse público.
Além disso, nesse processo identificou-se a importância da
realização de um encontro que reunisse um maior número possível de crianças e
adolescentes para a avaliação da Política Municipal ora executada e a discussão
de proposições.
Nesse período, a prática da gestão democrática, reafirmando o
protagonismo das ações com os diferentes atores envolvidos com essa política,
passa a ser aderida pelo novo governo municipal, de cunho democrático e popular.
Dessa forma, a deliberação do Fórum de envolver crianças e
adolescentes nesse processo foi apoiada pelo executivo municipal, com a
realização do encontro que culminou com a participação de crianças e
adolescentes de 7 a 18 anos, utilizando-se de diferentes linguagens como
oficinas de música, artes cênicas, plásticas, jornal, rádio, origami, e outras,
para que favorecesse a expressão e compreensão de todos os sujeitos envolvidos.
O resultado de tal iniciativa foi apresentado e aprovado na III
Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente em 2001.
Essa experiência possibilitou ao município de Londrina perceber
a importância do reconhecimento das crianças e adolescentes enquanto sujeitos e
atores principais da Política de Proteção Integral.
Percebe-se que o processo participativo vem crescendo, sendo
adotada a prática da realização de Conferências com instância máxima de
deliberação, realizada atualmente de dois em dois anos, independentemente da não
previsão na legislação municipal em vigor.
O avanço da gestão municipal pode ser visualizado na compreensão
do tratamento dos direitos da criança e do adolescente não sob o enfoque
individual do serviço, mas na perspectiva da construção coletiva.
Dessa forma, entendendo a participação, o "controle" e a
informação imprescindíveis no repensar da Política para que favoreça o acesso a
todos os atores envolvidos, buscou-se estimular e/ou reforçar espaços que
proporcionassem a reflexão, discussão, deliberação, acompanhamento e
fiscalização da Política e Atenção aos Direitos da Criança e do Adolescente.
III - Rede Eletrônica como provocação
para o alinhamento conceitual
Com a intenção de fortalecer e consolidar a articulação das
ações na área da criança e do adolescente foi adotada, como facilitadora desse
processo de organização da Rede de Atendimento, a criação da rede eletrônica.
Para isso foi realizado, primeiramente, um levantamento de
informações para o desenvolvimento da Rede On-Line que, ao final, acabou
revelando que havia, na verdade, uma grande diversidade de compreensão quanto à:
- conceituação dos termos do ECA;
- natureza do atendimento;
- metodologia utilizada;
- critérios de inserção.
Um dos fatores que talvez explique tal pluralidade de
entendimentos pode ser devido ao fato de que o município de Londrina apresenta
uma diversidade de serviços, programas e projetos, atendendo tanto na dimensão
preventiva de atenção a necessidades básicas quanto de proteção especial,
concretizando-se como típica região metropolitana.
A partir do levantamento dessas informações o Conselho Municipal
dos Direitos da Criança e do Adolescente desencadeou um processo de
reordenamento institucional que ocorreu com a participação dos vários serviços
na área da criança e do adolescente: educação profissional, apoio
sócio-educativo, serviços especializados - abrigo, medidas sócio-educativas,
atenção ao usuário de substâncias psicoativas, atendimento nas áreas de saúde
física, psicológica e psiquiátrica, atendimento às vítimas de negligência,
violência, abuso e exploração sexual, atendimento de crianças e adolescentes que
estão nas ruas em situação de vulnerabilidade social.
Dentre os participantes desse processo, envolveram-se dirigentes
de instituições não-governamentais, funcionários, voluntários, representantes do
Conselho de Direitos, Conselho Tutelar e representantes dos serviços
governamentais.
Disso resultou a construção de um documento coletivo que aponta
nas diferentes modalidades de atendimento a definição de conceitos, natureza de
atendimento, público alvo, metodologia, critérios de inserção e de qualidade,
fluxo de atendimento e de encaminhamento, documentação necessária e recursos
físicos, materiais, humanos e financeiros, embasados na legislação em vigor e
bibliografia afeta à área.
Considera-se que tal processo foi desafiador, exigindo
persistência em direção ao fortalecimento e sustentação da rede, o que implica
muitas vezes em rever conceitos, atitudes e práticas que já estavam
cristalizadas.
IV - Resultados
O resultado desse desafio pode ser demonstrado por meio da
avaliação realizada pelos participantes de tal processo, que apontaram:
- maior clareza dos serviços prestados;
- oportunidade de
troca de experiências;
- (re) construção de conceitos tendo referenciais
teóricos como base;
- melhoria da qualidade do atendimento prestado;
-
formação continuada dos atores envolvidos;
- maior compreensão do papel das
políticas públicas afetas a área da criança e do adolescente;
-
fortalecimento da Rede.
Considera-se que tal momento resultou em diferentes ações por
parte da rede de serviços, que desencadearam uma nova formatação da compreensão
de si mesma e do atendimento prestado.
Cabe ressaltar, ainda, que os serviços e estruturas que ainda se
mantêm não reordenadas, na sua maioria, continuam participando de todo o
processo e são priorizados no sistema de monitoramento e avaliação dos serviços.
A predisposição em acreditar que o estabelecimento de trocas e
compartilhamentos pode resultar em estratégias de gestão deve-se configurar em
um exercício permanente que resultará em um salto de qualidade no atendimento
das crianças e adolescentes.
Entende-se, por fim, que os desafios ainda estão postos no que
tange à ampliação da relação/articulação entre políticas públicas (serviços
governamentais e não-governamentais), Poder Legislativo, Ministério Público e
Conselhos de políticas públicas, estabelecendo-se um processo contínuo de
articulação de informações e o rompimento definitivo com a doutrina da situação
irregular que, por vezes, ainda permeia leituras e práticas equivocadas de
diferentes segmentos como a imprensa, o judiciário, a rede de ensino, a
segurança pública e tantas outras institucionalidades.
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