UM OLHAR
SOBRE A PRIMEIRA INFÂNCIA
UM
SERVIÇO DE ATENDIMENTO À PRIMEIRA INFÂNCIA
NÃO
ESPERAR QUE CHEGUE O PASSADO
A
PREVENÇÃO COMO FORMA DE ATENÇÃO SOCIAL
O atendimento à primeira infância no Brasil vem sendo
amplamente discutido atualmente, seja por instituições ligadas ao tema, seja
através de pesquisas e debates levantados pelo governo - como é o caso da
Pesquisa Nacional Sobre Indicadores de Psicopatologia no Bebê realizada pelo
Ministério da Saúde.
Gostaria aqui de abordar um determinado tipo de
atendimento à primeira infância - aquele que se preocupa com a saúde psíquica
no início da vida - a partir do atendimento dado por psicólogos e psicanalistas
em instituições. Poucas são no Brasil, as instituições que oferecem este tipo
de atendimento, seja em razão de sermos um país com escassas condições sociais,
seja em função de o tema da "prevenção" e atenção à primeira infância nunca ter
sido o foco principal dos serviços existentes no país.
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Minha colaboração neste espaço dá-se como participante de
um serviço de atenção à primeira infância, realizado por uma ONG com sede em
São Paulo - o INFANS - Unidade de Atendimento ao Bebê, que possui dentre seus
serviços o Ambulatório do Bebê, visando oferecer atendimento interdisciplinar à gestantes, cuidadores e bebês de
0 a 3 anos.
A proposta deste serviço é fornecer subsídios para todos
aqueles que necessitem de atendimento, sem nenhuma distinção quanto à situação
por que estão passando. Assim, a ONG oferece atendimento àqueles que passam por
quaisquer situações de sofrimento relacionada ao bebê ou à
criança pequena, como por exemplo; a gestação de risco, a depressão
materna, dificuldades dos bebês tais como insônia, recusa alimentar, problemas
psicossomáticos, ou dificuldades na relação do cuidador
com o bebê de quem cuida. São dificuldades, portanto, que podem ser percebidas
através de sinais que surgem no próprio bebê ou naqueles que deles cuidam,
necessitando que o adulto esteja atento e disponível a perceber tais sinais .
O Ambulatório do Bebê recebe pacientes vindos de
instituições ligadas à primeira infância - creches, hospitais, abrigos, ou de
pessoas físicas que, por conhecerem o trabalho encaminham alguém que precise de
atendimento. Para encaminhar então, basta fornecer ao interessado o telefone do
INFANS e pedir que ele procure o serviço.
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Dentre as metas do Ambulatório do Bebê, temos a de não trabalhar
com fila de espera, por entender que esse tempo da vida, por ser um tempo tão
precoce no qual toda a estruturação psíquica está apenas em seus primórdios;
não permite que uma espera por atendimento seja
possível. Se um atendimento aí é necessário, é preciso que ele se dê no momento
mesmo em que as dificuldades estão surgindo, de forma que não se espere que
tais dificuldades tenham se solidificado ou cronificado
para ir em busca de ajuda.
Como conseqüência do princípio de não manter fila de
espera, surge imediatamente a necessidade de divulgar
e informar a população sobre estes serviços, o que significa não apenas dizer
do serviço mas explicitar o fato de que dificuldades sentidas por muitos nos
cuidados com o bebê são dificuldades que merecem uma atenção e possivelmente -
a depender de cada caso - um atendimento.
Há nessa etapa da vida uma tendência (que se configura
também em médicos) de pensar que o problema seja sempre algo menor e
passageiro, o que culmina com a atitude de "deixar o tempo passar" no intuito
de que o problema se solucione por conta própria. Mas, isto seria o equivalente
em termos de atitude daqueles que cuidam de bebês, a deixar a situação numa
espécie de "fila de espera", na qual se espera para ver como algumas
dificuldades irão se solucionar, sendo este o principal fator de piora em
muitos casos.
Cabe falar um pouco, então, sobre o que se entende por
esta atenção à primeira infância e essa meta de "não esperar", que acreditamos
ser necessária num serviço de atendimento à primeira infância.
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A partir do trabalho de atenção à
primeira infância que venho realizando no INFANS, tenho refletido sobre o tema
da prevenção, da psicoprofilaxia e do que é possível
fazer neste sentido em se tratando de crianças, psicologia e psicanálise.
A contribuição da psicologia e
psicanálise neste campo é algo bastante recente, que vem aumentando nos últimos
anos a partir do interesse dos profissionais no trabalho com bebês e crianças
pequenas. Acredito que o próprio interesse dos profissionais por tal trabalho
já seja um reflexo da necessidade de que ele exista, da necessidade de que
junto aos serviços médicos e de saúde em geral haja também um serviço de
atendimento psicológico, pois cada vez mais é necessária aos profissionais da
saúde a visão do humano como um ser físico e psicológico, para quem ambos os
aspectos não estão divididos e agindo em separado, mas ao contrário; são
aspectos indivisíveis e interligados, onde um afeta o outro sempre e
necessariamente.
Tanto a psicologia quanto a
psicanálise vêm pensando o trabalho com bebês a partir de pelo menos três
aspectos de seu campo de trabalho:
1)
a
recente questão da "humanização no atendimento", que vem sendo trazida e
debatida pelos hospitais e maternidades, comprometidos que estão com o
atendimento ao paciente doente. Nesta corrente, o atendimento a bebês
internados em UTIs neonatais (Unidade de Terapia
Intensiva) vem se modificando, de forma que os pais passam a ser
incluídos nos serviços, podendo participar cada vez mais do tratamento
recebido por seu filho. Paralelamente à entrada dos pais na Unidade de Neonatologia, há a necessidade de que o psicólogo esteja
também presente nos serviços de UTI neonatal, como forma de fornecer um amparo
tanto para a angústia dos pais, quanto um suporte para as relações que se
estabelecem entre pais, médicos e equipe de enfermagem.
2) de um modo geral, tanto a
psicologia quanto a psicanálise vêm tendo a necessidade de se inserir cada vez
mais no chamado campo de atuação social, já que, com os problemas vividos no
Brasil, não é possível se colocar à parte de todas as questões complexas e difíceis que vivemos. Assim, o trabalho do psicólogo com a
primeira infância passa a ser uma questão de psicoprofilaxia
e prevenção, onde quanto mais cedo se trabalha com determinadas populações,
menos risco há de que determinados problemas se desenvolvam, agravem e cronifiquem; dadas as inúmeras e
variadas situações de risco bio-psico-social vividas
por nossa população.
3) por último, o próprio trabalho de
psicólogos e psicanalistas com crianças autistas e psicóticas em idade já
avançada (acima dos 5 anos), trouxe aos profissionais
a necessidade de propor trabalhos que se iniciem cada vez mais cedo, pensando
que, caso isso ocorra, diminuir-se-á a chance de, lá na frente, nos chegarem
crianças em tão precárias e difíceis condições psíquicas e de exclusão social.
Deste modo, um trabalho em psicologia e psicanálise com a
primeira infância passa a ser não só uma necessidade como uma forma de atenção
social, que tem na prevenção e no tratamento psicológico suas bases e modo de
oferecer ajuda e serviços, os quais quanto mais próximo estiverem de outras
disciplinas e áreas do conhecimento, tanto melhor.
Como último ponto, vale ressaltar também, que não se entende
por prevenção um trabalho que deva ocorrer para quaisquer pacientes (por
exemplo, quaisquer dupla pais/bebê,
independente de suas questões) ou clientela, mas sim; é necessário que haja por
parte destes uma ou várias questões relativas a um sofrimento, a uma
dificuldade, pois não se pretende cair no psicologismo de dizer que toda
criança ou bebê precisa de atendimento psicológico ou que todo casal de pais
precisa de orientação e acompanhamento. Deste modo, a questão da prevenção
estará sempre ligada à questão da intervenção, ou seja, não há como pensar uma
prevenção de fatores de risco da primeira infância que não seja atrelada à
intervenção e ao tratamento propriamente ditos. Podemos dizer que não se trata
aqui, da prevenção nos termos tradicionalmente utilizados, mas de uma prevenção paradoxal, que envolve sempre uma dificuldade já
existente. É para essas dificuldades que voltamos nosso olhar, sabendo
que um olhar atento às vezes vale mais do que um excesso de cuidados e, muito
mais do que isso, olhar, significa
principalmente, cuidar.
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