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Práticas de atendimento
22/12/2003

Um olhar sobre a Primeira Infância
Lou Muniz Atem
é psicóloga e psicanalista, mestre em Psicologia Clínica (PUC/SP), membro fundadora do INFANS - Unidade de Atendimento ao Bebê, onde elabora, coordena e realiza projetos ligados à primeira infância.
UM OLHAR SOBRE A PRIMEIRA INFÂNCIA

UM OLHAR SOBRE A PRIMEIRA INFÂNCIA

UM SERVIÇO DE ATENDIMENTO À PRIMEIRA INFÂNCIA

NÃO ESPERAR QUE CHEGUE O PASSADO

A PREVENÇÃO COMO FORMA DE ATENÇÃO SOCIAL

 

 

UM OLHAR SOBRE A PRIMEIRA INFÂNCIA

 

O atendimento à primeira infância no Brasil vem sendo amplamente discutido atualmente, seja por instituições ligadas ao tema, seja através de pesquisas e debates levantados pelo governo - como é o caso da Pesquisa Nacional Sobre Indicadores de Psicopatologia no Bebê realizada pelo Ministério da Saúde.

 

Gostaria aqui de abordar um determinado tipo de atendimento à primeira infância - aquele que se preocupa com a saúde psíquica no início da vida - a partir do atendimento dado por psicólogos e psicanalistas em instituições. Poucas são no Brasil, as instituições que oferecem este tipo de atendimento, seja em razão de sermos um país com escassas condições sociais, seja em função de o tema da "prevenção" e atenção à primeira infância nunca ter sido o foco principal dos serviços existentes no país.

 

 

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UM SERVIÇO DE ATENDIMENTO À PRIMEIRA INFÂNCIA

 

Minha colaboração neste espaço dá-se como participante de um serviço de atenção à primeira infância, realizado por uma ONG com sede em São Paulo - o INFANS - Unidade de Atendimento ao Bebê, que possui dentre seus serviços o Ambulatório do Bebê, visando oferecer atendimento interdisciplinar à gestantes, cuidadores e bebês de 0 a 3 anos.

 

A proposta deste serviço é fornecer subsídios para todos aqueles que necessitem de atendimento, sem nenhuma distinção quanto à situação por que estão passando. Assim, a ONG oferece atendimento àqueles que passam por quaisquer situações de sofrimento relacionada ao bebê ou à criança pequena, como por exemplo; a gestação de risco, a depressão materna, dificuldades dos bebês tais como insônia, recusa alimentar, problemas psicossomáticos, ou dificuldades na relação do cuidador com o bebê de quem cuida. São dificuldades, portanto, que podem ser percebidas através de sinais que surgem no próprio bebê ou naqueles que deles cuidam, necessitando que o adulto esteja atento e disponível a perceber tais sinais .

 

O Ambulatório do Bebê recebe pacientes vindos de instituições ligadas à primeira infância - creches, hospitais, abrigos, ou de pessoas físicas que, por conhecerem o trabalho encaminham alguém que precise de atendimento. Para encaminhar então, basta fornecer ao interessado o telefone do INFANS e pedir que ele procure o serviço.

 

 

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NÃO ESPERAR QUE CHEGUE O PASSADO

 

Dentre as metas do Ambulatório do Bebê, temos a de não trabalhar com fila de espera, por entender que esse tempo da vida, por ser um tempo tão precoce no qual toda a estruturação psíquica está apenas em seus primórdios; não permite que uma espera por atendimento seja possível. Se um atendimento aí é necessário, é preciso que ele se dê no momento mesmo em que as dificuldades estão surgindo, de forma que não se espere que tais dificuldades tenham se solidificado ou cronificado para ir em busca de ajuda.

 

Como conseqüência do princípio de não manter fila de espera, surge imediatamente a necessidade de divulgar e informar a população sobre estes serviços, o que significa não apenas dizer do serviço mas explicitar o fato de que dificuldades sentidas por muitos nos cuidados com o bebê são dificuldades que merecem uma atenção e possivelmente - a depender de cada caso - um atendimento.

 

Há nessa etapa da vida uma tendência (que se configura também em médicos) de pensar que o problema seja sempre algo menor e passageiro, o que culmina com a atitude de "deixar o tempo passar" no intuito de que o problema se solucione por conta própria. Mas, isto seria o equivalente em termos de atitude daqueles que cuidam de bebês, a deixar a situação numa espécie de "fila de espera", na qual se espera para ver como algumas dificuldades irão se solucionar, sendo este o principal fator de piora em muitos casos.

 

Cabe falar um pouco, então, sobre o que se entende por esta atenção à primeira infância e essa meta de "não esperar", que acreditamos ser necessária num serviço de atendimento à primeira infância.

 

 

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A PREVENÇÃO COMO FORMA DE ATENÇÃO SOCIAL

 

A partir do trabalho de atenção à primeira infância que venho realizando no INFANS, tenho refletido sobre o tema da prevenção, da psicoprofilaxia e do que é possível fazer neste sentido em se tratando de crianças, psicologia e psicanálise.

 

A contribuição da psicologia e psicanálise neste campo é algo bastante recente, que vem aumentando nos últimos anos a partir do interesse dos profissionais no trabalho com bebês e crianças pequenas. Acredito que o próprio interesse dos profissionais por tal trabalho já seja um reflexo da necessidade de que ele exista, da necessidade de que junto aos serviços médicos e de saúde em geral haja também um serviço de atendimento psicológico, pois cada vez mais é necessária aos profissionais da saúde a visão do humano como um ser físico e psicológico, para quem ambos os aspectos não estão divididos e agindo em separado, mas ao contrário; são aspectos indivisíveis e interligados, onde um afeta o outro sempre e necessariamente.

 

Tanto a psicologia quanto a psicanálise vêm pensando o trabalho com bebês a partir de pelo menos três aspectos de seu campo de trabalho:

1)    a recente questão da "humanização no atendimento", que vem sendo trazida e debatida pelos hospitais e maternidades, comprometidos que estão com o atendimento ao paciente doente. Nesta corrente, o atendimento a bebês internados em UTIs neonatais (Unidade de Terapia Intensiva) vem se modificando, de forma que os pais passam a ser incluídos nos serviços, podendo participar cada vez mais do tratamento recebido por seu filho. Paralelamente à entrada dos pais na Unidade de Neonatologia, há a necessidade de que o psicólogo esteja também presente nos serviços de UTI neonatal, como forma de fornecer um amparo tanto para a angústia dos pais, quanto um suporte para as relações que se estabelecem entre pais, médicos e equipe de enfermagem.

2)    de um modo geral, tanto a psicologia quanto a psicanálise vêm tendo a necessidade de se inserir cada vez mais no chamado campo de atuação social, já que, com os problemas vividos no Brasil, não é possível se colocar à parte de todas as questões complexas e difíceis que vivemos. Assim, o trabalho do psicólogo com a primeira infância passa a ser uma questão de psicoprofilaxia e prevenção, onde quanto mais cedo se trabalha com determinadas populações, menos risco há de que determinados problemas se desenvolvam, agravem e cronifiquem; dadas as inúmeras e variadas situações de risco bio-psico-social vividas por nossa população.

3)    por último, o próprio trabalho de psicólogos e psicanalistas com crianças autistas e psicóticas em idade já avançada (acima dos 5 anos), trouxe aos profissionais a necessidade de propor trabalhos que se iniciem cada vez mais cedo, pensando que, caso isso ocorra, diminuir-se-á a chance de, lá na frente, nos chegarem crianças em tão precárias e difíceis condições psíquicas e de exclusão social.

 

Deste modo, um trabalho em psicologia e psicanálise com a primeira infância passa a ser não só uma necessidade como uma forma de atenção social, que tem na prevenção e no tratamento psicológico suas bases e modo de oferecer ajuda e serviços, os quais quanto mais próximo estiverem de outras disciplinas e áreas do conhecimento, tanto melhor.

 

Como último ponto, vale ressaltar também, que não se entende por prevenção um trabalho que deva ocorrer para quaisquer pacientes (por exemplo, quaisquer dupla pais/bebê, independente de suas questões) ou clientela, mas sim; é necessário que haja por parte destes uma ou várias questões relativas a um sofrimento, a uma dificuldade, pois não se pretende cair no psicologismo de dizer que toda criança ou bebê precisa de atendimento psicológico ou que todo casal de pais precisa de orientação e acompanhamento. Deste modo, a questão da prevenção estará sempre ligada à questão da intervenção, ou seja, não há como pensar uma prevenção de fatores de risco da primeira infância que não seja atrelada à intervenção e ao tratamento propriamente ditos. Podemos dizer que não se trata aqui, da prevenção nos termos tradicionalmente utilizados, mas de uma prevenção paradoxal, que envolve sempre uma dificuldade já existente. É para essas dificuldades que voltamos nosso olhar, sabendo que um olhar atento às vezes vale mais do que um excesso de cuidados e, muito mais do que isso, olhar, significa principalmente, cuidar.     

 

 

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